*……….::::: CHAGÃO! :::::……….*

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Quien quiera entender como funciona el mundo deberá entender el fútbol”.
Roberto Perfumo (ex-jogador argentino).

CHAGÃO PERGUNTA

O ‘Chagão!’ quer saber: Garrincha estava de banda, meio ressabiado. Já havia sido rejeitado por meio mundo, e estava li, olhando o treino do Botagogo, quando o técnico da estrela solitária, Gentil Cardoso, mandou que ele entrasse. Garrincha pegou a bola na ponta, e tinha um cracasso de bola como seu marcador. Cinco segundos depois, o cracasso estava no chão, e Garrincha era incorporado ao elenco do alvi-negro de General Severiano. Em que data isso ocorreu, e quem era o cracasso de bola que foi o primeiro João da vida profissional de Mane?

CONTA OUTRA, LEONOR!

O devir-negro no futebol sempre foi contrário à norma e à disciplina tática dos europeus. No Brasil, com exceção dos clichês que vão do futebol à música, a batida dos atabaques, a ginga no corpo, o jogo da capoeira, as artimanhas do negro escravizado e que escapa pela alegria do movimento intensivo do corpo acabaram por criar uma linha intensiva que se espalhou pela música, pelo comportamento, pelo esporte. Não se pode falar em drible desconcertante sem pensar num pretinho, como Dener, escapando de onde se imaginava impossível sair, que dirá com a bola. Na música brasileira, o futebol está presente, e como em qualquer outra arte, há quem o entenda como um entretenimento, esvaziado da sua potência criadora, e há aqueles que sabem ser levados pelas ondas da expressividade da dendeca. Hoje, a Leonor traz para os leitores intempestivos um samba-tok-rok de Naná Vasconcelos, intitulado Futebol. Letra e o link pra baixar estão abaixo (clique na capa), e como diria a própria Leô, “não me venha com skanks pra cá”! A música está no cedê Bush Dance, de 1987.

FUTEBOL

“Não deixe o futebol perder a dança

Nem perca esse sorriso de criança

Passe no peito, jogue de lado,

Dê um sorriso e não pise na bola

Dê carreirinha, fique parado

Olhe pra gente que é essa a escola”.

LINHA DE PASSE

Messi, o xodó da torcida brasileira, já está com la albiceleste. Ele e Román são as esperanças do time trazer a medalha de ouro. A FIFA engrossou, não gostou de ver o TAS (Tribunal Arbitral do Esporte) se metendo nos seus assuntos, falou firme e os times se calaram. Houve quem louvasse a gritaria dos clubes como o início de uma nova era nas relações futebolísticas. Evidentemente, ver a FIFA (como seria ver a CBF, a AFA, a AUF, a Conmebol) se enfraquecer como entidade centralizadora do futebol é algo interessante, mas é preciso separar o trigo da cevada: é de futebusiness que se trata. A FIFA nunca mandou no futebol, porque o futebol não é um objeto ou mercadoria, mas só se materializa na relação livre entre os homens. No caso do futebusiness, o fortalecimento dos clubes europeus apenas mudaria o dono da bola, mas não a relação.

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Do lado amarelo da fronteira, Ronaldinho e seus yellow boys encararam os vietnamitas e ganharam. Mas, como na própria guerra do Vietnam, os locais perderam, mas ganharam. Fazer frente a uma seleção brasileira, para um time quase amador (ou mais que amador) é um feito. Há quem diga que falte entrosamento, mas já tem quem pense que, diante da atuação de venezuelanos, cingapurenses, canadenses e vietnamitas contra a seleção “sangue amarelo” Nike, já tem olheiro internacional de olho nos times destes países.

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Mais fácil é acreditar na máxima de um torcedor fluminense do bairro da Betânia, em Manaus: hoje em dia, acertou dois passes seguidos, já vai jogar na Europa.

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Do futebol, não é essência o gol, mas o craque. Isso já sabemos. Mas alguns jogadores, mesmo não tendo sido excepcionais em campo, são necessários ao futebol para além do futebol. É o caso do ex-zagueiro bleu Lilian Thuram. Em campo, foi campeão do mundo em 1998 e europeu em 2000, pela seleção francesa. Jogou em grandes times, e estava para se transferir do Barcelona para o Paris Saint-German, quando testes revelaram uma fragilidade cardíaca que poderia levá-lo à morte em campo. Mesmo sendo o recordista de partidas pela seleção nacional, e do alto dos seus 36 anos, o zagueiro resolveu parar. Como estudioso da filosofia que é, sabe que os fluxos do existir não são eternos, e que uma biografia não se reduz às pontuações, mas às linhas intensivas que dela transbordam. Thuram é ativista dos direitos humanos. Em 2006, em plena Copa do Mundo, antes do renascimento do futebol de Zidane, o candidato ultra-direitista Le Pen acusou a França, ainda na fase de grupos e capengando, de ser “contaminada” com negros e muçulmanos. Thuram (e um pouco mais contido, Zidane) levantou-se e encarou a onda racista, mandando o candidato ficar na dele. O vice-campeonato e o belo futebol da seleção não foram suficientes, porém, para impedir a eleição de Sarko. Ele, aliás, quando dos distúrbios na periferia de Paris, um ano antes, quando chamou os imigrantes de “escória”, também teve que encarar o zagueirão Thuram. Nas palavras, o beque também era craque. Na Espanha, onde militou nas fileiras do Barcelona FC, criticou o centralismo de Madrid e defendeu autonomia política para a Catalunha. Numa partida entre Itália e França, em Paris, ele convidou a assistir cerca de 80 pessoas do movimento dos sem-teto, que tinham sido recém despejadas pelo governo francês. Dono de um porte esguio e elegante, era especialista no desarme limpo e da tranquilidade em momentos de pressão. Era também um líder em campo. Como líder, certamente vai aparecer pela política francesa em breve, dando um banho-de-cuia nos pernas-de-pau à Lá Sarko-Bruni. Allez Le Bleus!

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Enquanto no Vasco da Gama, o presidente Dinamite abre o jogo e mostra o rombo financeiro de anos de administração Eurico, incluindo um técnico que não pode ser demitido e jogadores em pé de guerra, no Atlético Mineiro, que perdeu para os casacas cariocas no meio da semana, o técnico Marcelo Oliveira, ex-interino e agora efetivado no cargo, fala em título brasileiro. Resta saber se a torcida atleticana vai acreditar, pela imaginação, na ilusão marketista do técnico. Porque pela razão, o centenário do Galo vai ser sem uma espiga sequer…

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E nas bandas do RMMiano Fast Clube, eliminado da terceirona, teve até piquete na casa do presidente do clube na sexta-feira passada. Tudo porque Donmarques Mendonça, candidato a prefeitura de Itacoatiara e presidente do Fast havia prometido, segundo o meia Rondinelli, um dos piqueteiros, pagar os salários atrasados até a quinta-feira. Rapidamente, o diretor de futebol, Ney Júnior, apareceu e negociou um adiantamento aos jogadores, o que amenizou a crise. Não se sabe se Donmarques apareceu pessoalmente, mas segundo Ney, ele está tratando de política, não de futebol. Duas inferências: futebol, para os diretores que usam os clubes como trampolim eleitoral, só é político quando o time está ganhando. Outra: tal como o eleitor que trabalha a eleição inteira e toma “pino” de candidato derrotado, os jogadores também estão na iminência de não receber o justo pagamento pelo trabalho de cabos eleitorais. E nem teve eleição ainda…

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O jornalista Juca Kfouri afirmou em seu blogue esta semana que é contrário à indicação do Saci para mascote da Copa do Mundo de 2014. Segundo seu próprio argumento, a indicação seria “populista e demagógica”, pois “como ter alguém de uma perna só, e ainda de cachimbo na boca, como mascote da Copa? Não basta uma seleção de pernas-de-pau que fazem propaganda de cerveja?”. Não se trata aqui de defender ou atacar a indicação. Isso é irrelevante. O que salta do post de Juca é a lógica do politicamente correto, ou melhor, moralidade cristã-burguesa mesmo. Por ela, Kfouri seria contra aquele sujeitinho feio, torto e com bafo de cana que não solta a bola pra ninguém e dribla sempre para o mesmo lado. Que exemplo para as crianças e os crinanços? Outro profanador dos bons costumes é aquele caboclo argentino, que só tem perna esquerda e desafiou os ingleses em 1986, drogado, boca suja, comunista, amigo de Fidel e Evo Moralez. Como Juca foi contrário aos jogos na altitude, se aliando aos interesses da FIFA contra a Bolívia, por tabela, não gosta muito desse argentino pornófono. Coincidentemente, os dois abrem em fotografias artísticas esta coluna. Garrincha e Maradona. No enunciado Kfourista aparece também o desconhecimento sobre folclore e inteligência coletiva. Perguntas retóricas: saberá Juca que os mitos, as figuras folclóricas são uma produção coletiva, fruto da potência coletiva de um povo e manifestação cultural afirmativa da potência criadora deste povo? Que o Saci é produto do imaginar do brasileiro do período colonial, que carrega elementos da escravidão, dos hábitos, costumes e relações comuns daquela época, e que é uma forma de compreensão e linha de fuga intensiva do povo contra a imobilidade social? Saberá Juca que a Grécia cultiva até hoje e continuará cultivando enquanto for possível seus deuses e mitos, mesmo que Zeus seja um deus egoísta e adúltero, mesmo que Hera seja invejosa e vingativa, e que Ares seja o deus da guerra? Desconfiamos que, para além do senso comum e da moralidade, Juca não vai, como aquele garoto que não pula o muro pra pegar a bola que para lá caiu, com medo de descobrir que para além do condomínio de luxo, tem uma favela, e lá o jogo é pra valer.

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A segundona do Amazonense vai começar. No próximo dia 31 de agosto, a bola estará rolando para as nove equipes que se inscreveram. Bem menos que a copinha comunitária do campo do Roma. Na segundona, e na briga pelo direito de disputar no ano que vem o certame principal, estão: CDC Manicoré, Peñarol (Itacoatiara), Nilton Lins, Libermorro, Rio Negro, Tarumã e São Raimundo B, estes de Manaus. Lili, o alviverde do Morro da Liberdade, e o Rio Negro, da praça da saudade, pretendem retornar à primeira divisão, enquanto os outros tentam lá chegar, alguns pela primeira vez, outros tentando reeditar velhos tempos. Confira os confrontos da primeira rodada: Nilton Lins – Rio Negro, CDC Manicoré – São Raimundo B, Peñarol – Tarumã.

CAMPEONATOS NACIONAIS

Tudo azul na Série A do Brasileirão. Com Grêmio e Cruzeiro nas primeiras posições da tabela, o azul-e-branco faz festa no sul e nas Minas Gerais. Após esta rodada, já é possível arriscar que as primeiras posições devem se alternar entre os seis primeiros colocados, a não ser que algum outro clube tenha recuperação à lá Goiás no returno. Ainda assim, esta coluna destaca que o Coritiba tem um bom time, e se bem treinado, pode abiscoitar o certame. Quatro goleadas e nenhum zero a zero fizeram a festa de quem gosta de gols. E na artilharia, além de Alex Mineiro (Palmeiras) e Kléber Pereira (Santos), com dez gols, chegou por lá também Guilherme (Cruzeiro). Resultados:

17ª Rodada Série A – 02 e 03/08

Fluminense 1 – 2 Internacional

Goiás 4 – 0 Portuguesa

Náutico 1 – 2 Figueirense

Flamengo 1 – 2 Cruzeiro

Ipatinga 1 – 2 Palmeiras

São Paulo 4 – 0 Vasco da Gama

Grêmio 2 – 0 Vitória

Atlético/MG 2 – 1 Sport Recife

Santos 1 – 3 Coritiba

Atlético/PR 0 – 3 Botafogo

Classificação*

Grêmio  –  35

Cruzeiro  –  33

Palmeiras  –  31

São Paulo  –  30

Vitória  –  29

Flamengo  –  28

Coritiba  – 26

Botafogo  –  25

Internacional  –  25

Sport Recife  –  24

Figueirense  –  24

Atlético/MG  –  21

Goiás  –  20

Vasco  –  19

Portuguesa  –  19

Náutico  –  18

Atlético/PR  –  17

Santos  –  17

Fluminense  –  13

Ipatinga  –  13

* Em azul, os classificados para a Libertadores ’09; em verde, os classificados para a Sulamericana ’09, e em vermelho, os rebaixados para a série B.

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Mais um tropeço do Corinthians, mais um jogo feio na Série B do Brasileirão. O clube não saiu do zero com o Criciúma. Mas contou com a benesse do vice-líder, a Ponte Preta, que se abraçou com o Juventude e não largou. Cinco dos dez jogos tiveram 4 ou mais gols. Somente o time do Parque São Jorge encarou dois bocejos, que ilustram bem o seu futebol. Na artilharia, se o vereador Túlio conquistar votos como faz gols, a eleição tá garantida. Que o torcedor saiba analisar e não votar em candidato que troca voto por gol. Já são 15 do artilheiro do Vila Nova. Confira os resultados:

15ª Rodada Série B – 29/07, 01 e 02/08

Bragantino 1 – 1 Ceará

Fortaleza 2 – 0 Santo André

Barueri 3 – 2 ABC

Juventude 1 – 1 Ponte Preta

América/RN 2 – 0 Gama

Vila Nova 4 – 0 Marília

Brasiliense 2 – 3 Bahia

São Caetano 3 – 1 Paraná Clube

Corinthians 0 – 0 Criciúma

Avaí 5 – 1 CRB

Classificação*

Corinthians  –  32

Barueri  –  27

Avaí  –  27

Ponte Preta  –  26

Juventude  –  25

Ceará  –  23

Vila Nova  –  23

Bahia  –  22

Santo André  –  21

ABC/RN  –  20

São Caetano  –  19

Criciúma  –  19

Bragantino  –  18

Paraná Clube  –  17

Marília  –  17

Fortaleza  –  16

América/RN  –  16

Gama  –  14

Brasiliense  –  12

CRB  –  09

  • Em roxo, os classificados para a Série A do Brasileirão ‘09; em cinza, os rebaixados para a série C.

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Segunda fase da Série C do Brasileirão começa bem para os times do Norte! O representante amazonense, o Holanda, foi ao Passo da Ema e viu a ema gemer no canto do Juremar. Empate em 1 a 1 fora de casa com o carrasco do Fast, o Luverdense. Já pras bandas do Grão-Pará, o Remo tropeçou, fez 3, mas tomou 3 do Rio Branco, e só marcou um ponto em casa. O Águia de Marabá fez bonito: sobrevoou o terreiro do Sampaio Corrêa, no Maranhão, e empurrou 2 a 1. O Papão recebeu o Picos, do Piauí, que voltou tontinho com o revoluteio do azul-e-branco, 2 a 0. Na próxima quarta-feira, o Holanda recebe o Remo, enquanto o Águia encara o Papão.

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  1. Pode vir alguma coisa boa da Globo? Com exceção de alguns profissionais competentes que por uma questão de sobrevivência continuam trabalhando lá, e aos que já saíram como o próprio Azenha, pouca coisa se aproveita. Juca é um pernóstico elitizado. O Saci é o que melhor representa o povo brasileiro, o moleque inzoneiro, cheio de gingado e bibop. Meu voto é pra ele.

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