O ODOR MORAL DO SENADO

O senador Mário Couto (PSDB/PA) resolveu fazer uma greve de banho para protestar contra o excesso de MP´s que impedem a votação de um projeto de reajuste do INSS. Segundo Couto, senador de mesma lavra de Arthur ‘5,5%’ Neto, Agripino e outros da atual legislatura, a idéia já vinha guardada dentro dele, como uma forma de inovar, uma “postura moderna”, em sua própria definição. O senador sonha com um Senado onde os 40 eminentes lordes fiquem 40 dias sem tomar banho. “Ninguém vai entrar lá”, afirma. Pelas próprias contas, já contabilizou mais de 30 senadores aderentes ao higiênico projeto. O senador garantiu que não usará durante a manifestação o seu perfume Kouros, o qual ficará no fundo da gaveta, e que ainda levará sua esposa para reforçar o manifesto. O objetivo do senador é dar um abraço no presidente Lula, no 40º dia de greve.

Na tentativa de fazer jus à atual legislatura do Senado Federal, o senador também comemorou a queda da CPMF e prometeu ficar sentado em sua cadeira de senador por tempo indeterminado até que o reajuste seja colocado em pauta.

DO ODOR NATURAL AO ODOR MORAL.

Freud dizia que os odores estão no mundo, mas a diferenciação entre cheiro e fedor é aprendida socialmente. Para uma criança, um odor é um odor, e ela só irá considerá-lo atraente ou ofensivo de acordo com as aprendizagens e experiências que terá. A adoção de odores que substituam o do próprio corpo, advêm da impossibilidade de sentir o corpo como entidade existente, restando só a abstração social, produzida para anular a potência de agir. Daí inferir que o odor é natural e o cheiro/fedor é moral.

A mesma moral da burguesia, que surgiu dos comerciantes europeus, e que procurou se diferenciar dos chamados nobres pelo cheiro. Daí, adotarem a perfumaria – que já existia na nobreza – como sinal de status econômico. Enquanto os burgueses, pequenos comerciantes, ambulavam Europa adentro com batata, cebola, carne salgada, e o cheiro da terra e dos produtos impregnava o corpo, os também fétidos nobres usavam a perfumaria para suportar a nhaca de suas damas e cavalheiros. Trocadas as bolas, com a revolução, os burgueses continuaram com o cheiro da cebola podre dos tempos da feira livre, mas agora incorporando a perfumaria como marcador de poder na subjetividade econômica, e repetindo os nobres. Como numa reedição do pecado original, viram, cheiraram, sentiram-se inferiores e negaram os fluxos e fluídos corporais.

Além da perfumaria – dizem que os mais caros da parfumerait mundial são feitos com excrementos animais – a sociedade de consumo produz também outros odores, igualmente artificiais. Erwin Piscator, teatrólogo alemão, disse que fazia um teatro político porque queria mudar o cheiro do povo. O ex-presidente e último da linhagem da ditadura brasileira, João Batista Figueiredo, afirmou que preferia o cheiro do seu cavalo ao cheiro do povo. Enquanto o alemão queria um teatro transformador, pois sabia que o “cheiro do povo” não era natural, mas era produto da miséria social, o presidente-militar apenas fez uso do signo olfativo produzido pela subjetividade do capital, sendo ao mesmo tempo propagador e vítima da estreiteza epistemológica da burguesia, a mesma que produz o cheiro da fome e da miséria.

Como são fontes da mesma moralidade, o duo cheiro/fedor não carrega diferenças entre seus componentes. O cheiro perfumoso daquele que tenta camuflar o próprio odor corporal nos aromas amenos da primavera européia tem o mesmo sentido do fedor daquele outro, que subvive na ausência de emprego, comida, água, saneamento básico, saúde, educação, e que pela privação, já não se importa com o odor que carrega, e é confundido (ou tachado) de imundo, sujo. São ambos produtos da sociedade de consumo. Produto da tentativa de anulação do corpo como potência política.

Assim, erra o senador PSDBista, que acredita fazer revolução, mas que só conhece o cheiro do povo como abstração, idéia produzida pela imaginação, daí seu olfato não sair da armadilha da moral, inócua. Ao dizer que vai abraçar Lula, tentando adesivar ao ato uma suposta ojeriza do presidente ao seu cheiro, fala a partir de si, e não sabe que Lula, pela experiência do mundo, conhece todos os cheiros, o do povo (o verdadeiro), o que se quer do povo (na verdade, da miséria social) e o da “zelite” (que tenta esconder o cheiro de cebola podre sob litros de Channel No 5. Ou Kouros).

Daí, dois entendimentos: um, o porquê da direita não alcançar as conquistas sociais do Brasil do Sapo Barbudo e Fedorento, e; dois, esta é a pior legislatura da história da república brasileira.

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