ELEIÇÃO NO PT REVELA TENDÊNCIA À CANDIDATURA PRÓPRIA OU APOIO À DIREITA

Neste domingo ocorreram, em todo Brasil, as eleições para os Diretórios Municipais, Estaduais e Federal do Partido dos Trabalhadores (PT). No Amazonas, presentes nos 62 municípios, as tendências se organizaram e aglutinaram em torno de candidaturas que expressam as discordâncias internas do partido quanto às eleições, relação com movimentos populares, ideologia, práticas, caminhos e acontecimentos recentes. Ainda que no Amazonas (incluindo Manaus), o PT não alcance os resultados e nem acompanhe as discussões que ocorrem em outros Estados, ainda pode-se dizer o único com eleições diretas, e que congrega diferentes pontos de vista sobre sua atuação e concepção.

Este bloguinho intempestivo esteve na Escola Municipal Sagrado Coração de Jesus, no Centro, onde se deu o pleito, e ouviu alguns candidatos e filiados, onde se podem perceber as tendências eleitorais e diretivas que estão em jogo no processo eleitoral.

A chapa ‘Mensagem ao Partido’, a nível nacional e regional, discute o novo rumo do Partido dos Trabalhadores. Uma mudança depois de tudo o que aconteceu. Vê-se que há a necessidade de se discutir mais a questão da ética e da inserção do partido nas discussões das grandes questões a nível nacional e estadual. Infelizmente aqui no Estado do Amazonas, o PT está calado. Parte da atual direção está intimamente ligada ao governo do Estado, e outras estão ligadas a figuras políticas de outros partidos, então eles se calam, e o partido precisa se manifestar, se fazer presente. A nossa chapa defende uma maior comunicação, o partido não tem nenhum instrumento de comunicação, existem diretórios distanciados no interior do Estado por falta de acompanhamento da direção. A juventude está entrando no partido, mas sem formação, precisamos intensificar a escola de formação. Trabalhar bastante a democracia interna, o diálogo entre as forças porque estas eleições, mais uma vez, vai mostrar a nós do partido e à sociedade que é o único partido que não exclui. Todas as chapas terão presença na direção. É uma grande aula para a democracia brasileira. Agora, nas eleições do ano que vem, temos que lutar para ampliar nosso eleitorado em Manaus e no Amazonas, por isso defendemos candidatura própria, com a base do partido decidindo e a diretoria indo a campo ampliar o espaço político no Amazonas”.

José Ricardo, vereador, candidato à presidência do Diretório Estadual.

Nós estamos querendo uma direção que ouça o partido. O que nós temos ouvido das bases é que o partido deve sair com candidatura própria. Queremos uma direção que se comprometa não com essa proposta, mas com a base. Se a base disser que é isto, que a direção organize o partido, promova debates nos núcleos, chame a sociedade, promova a discussão de um programa de governo, para que possamos apresentar à sociedade nossa proposta. E somente depois de tudo isso é que vamos conversar com outras lideranças políticas, nossos aliados, para ver se eles concordam com a nossa proposta, que tem que ser radical, e não descaracterize o nosso partido”.

José Barroncas, secretário municipal (SEMDIH), candidato à presidência do Diretório Estadual.

O PT é o único partido que faz eleições diretas para todos os diretórios em todos os níveis. Aqui no Amazonas o processo está correndo bem, houve dois grandes debates, onde os candidatos apresentaram suas propostas, o que pretendem fazer para ajudar o PT no seu mandato, pensar 2008, os movimentos sociais, enfim, é um momento importante, onde temos a possibilidade de apresentar a plataforma de trabalho de cada candidatura. Em casa cidade existem seus diretórios. Há municípios onde haverá candidatura própria, outros não. Então, há discussões. Eu, enquanto candidata não posso estar dizendo se haverá candidatura própria, é preciso ouvir as bases na realidade de cada cidade. Portanto, nós iremos respeitar as decisões. Acho que a dificuldade do Amazonas está na dimensão geográfica, o PT é mantido pela estrutura dos seus próprios filados, que contribuem. A questão de comunicação também é muito difícil. Existem cidades no interior que estão sem comunicação conosco há uma semana. Há também a questão da gestão, o grupo que eu represento, na direção, manteve o partido aberto, organizou o PT nos 62 municípios do Estado do Amazonas, e agora a proposta desta candidata, que organizou o PT nos 62 municípios, é organizar e preparar o partido para 2008”.

Mariene Pantoja, candidata à presidência do Diretório Estadual.

A nossa preocupação hoje é reorganizar o partido. Porque não se faz política hoje sem organização. Então a organização do partido tanto internamente quanto nas relações com os movimentos sociais está muito distanciado. Então nossa proposta para o PT é se aproximar dos movimentos sociais, realizar formação política para os militantes, porque hoje, dos dez mil filiados, 80% desconhece as propostas do partido, não sabem sequer onde é a sede do Partido dos Trabalhadores. O processo eleitoral tem trazido esses dissabores para o partido, o fato de você filiar para votar. Filiam as pessoas no partido com o único objetivo de no dia da eleição ter votos e força política para barganhar. Esta é a realidade. A falta de formação no PT hoje é muito grande. Sobre as eleições do ano que vem, as discussões do nosso grupo é a de ter candidatura própria, que é um ato de soberania do partido, e não iremos abrir mão disso. Despontam alguns nomes como Praciano, Marcus Barrus e o próprio Zé Ricardo, mas nosso grupo pretende também lançar pré-candidato.

Tonico do PT, candidato à presidência do Diretório Estadual.

É o único partido do país que escolhe seus representantes pela via direta e democrática. São mais de um milhão de filiados pelo país, e a eleição acontece simultaneamente em quase 5000 municípios em todo país. Isto demonstra o espírito democrático, e que queremos resgatar o partido de massas, que após a eleição presidencial, nós deixamos de lado. Como chapa, queremos fazer o partido retomar as lutas e as bases. Fazer com que as setoriais, como a juventude, a melhor idade, a sindical, os movimentos populares sejam a principal inserção do PT. Com relação à candidatura própria, dos 62 municípios, incluindo Manaus, existem peculiaridades próprias. Então, temos que fazer primeiro o que não foi feito em 2007: um diagnóstico, um raio-x, uma tomografia, uma endoscopia, ou seja, um check-up, município a município. Com isto estaremos constatando as possibilidades de eleger prefeitos, onde não der, eleger vices-prefeitos em composição política, e onde não der, eleger o maior número possível de vereadores. Isto nós iremos fazer, e estamos batalhando para ganhar esta eleição no primeiro turno, e ganhando, já nos primeiros 15 dias realizar uma reunião com os presidentes eleitos para que cada um traga do seu município seu projeto político e suas demandas para 2008. Até por que este mandato é para o biênio 08-09, e eu sempre digo que esta direção terá um papel muito importante, que é preparar o PT para o pós-Lula. O Lula não é a única estrela do PT que irradia, temos uma grande constelação de militantes do Partido dos Trabalhadores. Então temos que preparar o embate para 2010, teremos que ter a determinação de ter candidato a presidente, mas acima de tudo candidato a governo e uma chapa extremamente vitoriosa para o senado, deputado federal e estadual. Mas tudo começa agora. Se fracassarmos, não teremos frutos para colher em 2010.

Sinésio Campos, deputado estadual e candidato a presidente do Diretório Estadual.

A eleição do PT é um processo de amadurecimento do partido, de engajamento dos militantes nas lutas do partido. É um processo único na política brasileira, o único partido que faz eleições diretas, mobilizando toda a sua militância, sendo um dos maiores partidos deste país. A cada eleição que acontece, a gente fortalece mais o partido. Este processo inclusive foi antecipado com vistas à preparação para 2008 e pensando em 2010 no embate eleitoral, como também tentar reaglutinar a nossa base social. Já somos do diretório municipal, estamos no processo de reeleição, e o que defendemos em primeiro lugar é o fortalecimento do partido para os embates eleitorais e a reorganização do partido para participar dos movimentos sociais. Este deve ser um compromisso de qualquer chapa que vença, inclusive cumprir as resoluções do terceiro congresso dos nossos 27 anos de vida, que se referem à formação dos militantes, a comunicação, finanças, que são pilares da administração partidária. A tradição do PT é realizar amplas discussões com suas bases, incluindo prévias com candidatos. Todos os candidatos à diretório municipal do PT defendem a candidatura própria para prefeito em 2008, ouvindo as bases, realizando conversas também com os partidos aliados, para que possamos se articular para 2008 já preparando o terreno para 2010, que a gente possa ter uma candidatura do partido para governo do Estado e para a sucessão do presidente Lula, e aqui sair com uma chapa de vereadores puro sangue do PT, que a gente acredita que poderá eleger até quatro vereadores”.

Jorge Guimarães, candidato à presidência do Diretório Municipal.

Nós aqui no Estado do Amazonas estamos atrasados, a nossa proposta é valorizar o partido, não deixar ele ir à reboque. A diferença é que nos Estados do Pará, Acre, Rondônia, eles valorizam muito os movimentos populares e sindicais, lá existem os movimentos de seringueiros, negros e outros que conseguem fortalecer o PT. Aqui não, as direções que passaram não deram este aval aos movimentos sociais. Ficou muito na cúpula, esquecendo que o estatuto do PT é um estatuto de massas, não um estatuto de quadros. Então a nossa proposta é essa, que o partido aqui no Amazonas possa ser um partido de massas.

Valdemir Santana, candidato à presidência do Diretório Municipal.

A disputa é dura, mas é fraterna. A nossa chapa tem um projeto fundado em dois eixos principais: um é radicalizar a democracia interna, e o outro é retomar o partido de forma orgânica ao movimento popular, sindical. É aí a nossa origem, tudo o que conquistamos foi a partir daí. Não podemos nos tornar um partido burocrático, institucional puro e simples, o institucional é uma conseqüência da luta, e não pode ser o fim. E nós temos que usar todas essas conquistas para produzir a sociedade dos nossos sonhos, que é o socialismo. Nossa defesa é pela candidatura própria, é uma questão de sobrevivência política. Hoje, vivemos o momento em que o companheiro Lula é o presidente do nosso país, e os aliados da última hora, os aliados com a cara da burguesia e os filhos dela, são aliados táticos. Nosso projeto é rumo ao Socialismo, e quem tem que conduzir este processo é o PT. Temos que hegemonizar este processo, senão o partido irá se colocar apenas como mais um. Nós não somos pingente, nós somos locomotiva. Nós temos uma direção equivocada, que olha o partido para dentro. Temos que colocar o partido para fora, o partido é de todos os trabalhadores, de todos os excluídos, de todos os lascados da sociedade brasileira. Infelizmente nestes últimos dez anos, o partido teve direções internalistas, burocráticas, acomodadas, que não tiveram o compromisso ideológico com o partido. O Partido dos Trabalhadores foi feito para mudar a sociedade, senão corre o risco de ser apenas mais um”.

José Otoni, candidato à presidência do Diretório Municipal.

A democracia, de uma forma geral, ganha quando você tem um partido que consegue mobilizar, na nossa expectativa, mais de mil pessoas na cidade de Manaus. Pela participação, já é importante. O resultado, as urnas vão dizer. É importante aprender com este processo, porque o PT é um partido de massas, mas é importante que essa massa se politize, ela saiba o que está em jogo e qual o seu papel nesse jogo, e essa eleição vai mostrar isso. Na teoria, todas as chapas estão dizendo que irão apoiar candidatura própria, mas nós entendemos que no caso de algumas chapas, isso é só pra inglês ver. Eu espero que a opção seja pela candidatura própria, e esta eleição vai estar sinalizando a tendência do partido. Por exemplo, o voto no companheiro Jorge Guimarães pode estar sinalizando o voto a uma candidatura próxima ao Serafim Corrêa. O voto no Sinésio e no Otoni pode estar significando uma aproximação com o grupo do Eduardo Braga. O voto no Waldemir José significa um voto próximo à candidatura do Praciano. Então, na verdade, os número para a eleição do diretório municipal estarão indicando um pouco isso. Aí nós teríamos mais a Luzarina Varela [candidata zonal] que compõe com a candidatura do Praciano, a do Tonico do PT, que não demonstrou claramente a sua posição. Enfim, não está ainda definido, mas existem três grandes possibilidades para o PT: 1) candidatura própria, com o nome do Praciano; 2) candidatura de outro partido e o nome ser o Serafim, e 3) candidatura de outro partido e o nome ser o vice-governador Omar Aziz. Dependendo do resultado daqui poderemos inferir a posição do PT nas eleições do ano que vem.

Waldemir José, vereador, candidato à presidência do Diretório Municipal.

No meio dos votantes, este Bloguinho encontrou o companheiro Praciano, que falou sobre as eleições e expôs seu ponto de vista sobre o atual contexto do partido, além de declarar seu voto. O companheiro falou ainda sobre seu primeiro ano de mandato, numa entrevista que será publicada na coluna Manaus: um passeio pela não-cidade nesta terça-feira.

Eu estou votando pela mudança. Significa reconstruir, recuperar o partido. O partido hoje deixou de lado algumas bandeiras, por exemplo, a ética. Outro exemplo, a aliança contínua e ampliada com os movimentos populares está frágil, o PT perdeu o contato com a rua, com os movimentos. A base é que tem que mandar. O PT nunca foi burocrata e nem centralista, hoje nós temos essas duas características impedindo as bases e os movimentos populares de definirem uma agenda e uma pauta para o partido. Isso é mudança, e a mudança hoje passa pelo José Eduardo Cardoso [candidato a presidente nacional], pela Mensagem ao Partido, que é a chapa que mais fortemente aponta para essa mudança no partido”.

Francisco Praciano, deputado federal.

Quando chegou para votar, o filiado Ricardo Francisco chamou a atenção de todos com sua moto, a Lula-Tur:

Eu fiquei deficiente há cerca de 13 anos atrás, e passei 7 anos sem andar. Depois disso, construí este carro para sustentar com ele a minha família. Evidentemente, Lula fez a diferença no país. Com os partidos anteriores havia uma anarquia, uma perseguição. Com Lula é diferente. Então a gente faz essa homenagem ao Lula, que faz não apenas por nós, mas por todo o país”.

 

O resultado das eleições você acompanha em boletins-xarope durante todo o dia, aqui no Bloguinho Intempestivo.

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