QUANDO O INIMIGO BATE À MINHA PORTA

Bansky

Livre tradução: Ria agora, mas um dia será nossa vez

Das várias patologias produzidas pelo medo humano, uma das mais perversas é a que transformou o outro em inimigo. Aquela que estabeleceu a distância que impede a empatia social com este outro. Que impede tê-lo como confiante parceiro na jornada ontológica do existir. Mas vê-lo como uma abstração e não como uma realidade atuante. Por isso, a nossa solidariedade só se mostra quando o inimigo bate em nossa porta. Quando nossos sentidos mistificados cedem à fratura política-social exposta. É neste momento que a violência social se mostra para nós. Pois bem, deixando de lado a prática comercial do jornalismo, que precisa lucrar com a notícia mercadoria, a publicidade do caso do vereador que teve seus referenciais violados pelos referenciais violadores de alguns estranhos, causando-lhe paralisante angústia existencial, é uma confirmação desta batida na porta. Quem assistiu ao Pequeno Expediente da Câmara Municipal de ontem, teve essa confirmação. Uma subjetividade tenebrosa determinando a empatia parlamentar. Todos que discursaram foram solidários com o edil vitimado. E quase todos usaram o mesmo enunciado redutor da violência como apenas o que atinge o corpo como elemento sensorial e estimula a imaginar segurança social com força policial. A própria vítima agradeceu a Deus e sua padroeira pela ação dos assaltantes não ter sido pior. No caso, pensamos, um assassinato. Em linguagem jurídica, latrocínio: roubo seguido de morte.

Entretanto, descontinuando o discurso impulsivo dominante, o vereador José Ricardo trouxe à cena parlamentar o que deveria ser a pauta real da Câmara, a visibilidade da violação maior que é ocultada pelo conceito estereotipado usual na sociedade amazonense de violência: assalto, homicídio, agressão, atropelamento, o que é visível no corpo mitificado como única entidade proibida de violação. O vereador, depois de se solidarizar com o colega violado, mostrou as perversas violações que as classes pobres sofrem cotidianamente pelo descaso ou limitação intelectual dos governantes que não as detectam. Visibilizou os Direitos Humanos, a educação escolar deficiente, o desvio da verba da merenda escolar, a falta de uma política de habitação, o indigno transporte coletivo — que quase todos vereadores foram contra a sua CPI —; em síntese, o estranhamento político-social em que vivem estas pessoas. Foi um discurso limitado pelo tempo do regimento parlamentar, mas o suficiente para destemporalizar os princípios democráticos obstruídos pela distância política-social que a maior parte destes vereadores mantém da população, que não é solidária, só quando o inimigo bate à sua porta.

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