FLUTUAÇÕES…
Poupem-me! Me poupem! Tropa de Elite, do Padilha, abiscoitar o Urso de Ouro no Festival de Berlim, significa o que há anos já se sabe: o cinema mundial nas garras da neo-industria virou televisão de mercado. Uma câmara na mão e na cabeça o inútil. A lógica da existência insignificante. O festival de Berlim é hollywoodiano. Críticos de “cinema” alemão durante a cena já antecipavam o resultado: “Não há nada de fascista no filme, e de fascismo nós conhecemos”. Confirmaram. O diretor de cinema franco dolente, Claude Lelouch (Viver Por Viver, Retratos da Vida, Um Homem e Um Mulher…) pendurou as lentes e afirmou: “O cinema está morto. A televisão o matou”. Agora deve estar panorâmico: “Não falei!”. Babaquice. Sabe-se que a Europa também sofre de escotomização: as imagens cintilam obnubiladamente. Aí o fascismo se protege. Dizem que a premiação foi uma forma de mostrar ao mundo que o Brasil não sabe realizar cinema. Conversa finada. Os jurados do Urso não possuem esta inteligência. Acreditam que isto é cinema (Hollywood). Minha mãe fumava ‘oliudi’, não morreu de câncer: está viva na flor de seus 90ventaço. Este negócio de colocar nas terminações o sufixo aço é obra da década de 70. Flamengaço, vascaço, negaço, morenaço… Conheço duas morenaças lindas de morrer: são casos. Dolores Duran cantava: “Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar”. Tudo acaba. Mas cara, como é resistente a direita brasileira: não acaba sua estupidez. Vírus resistente à democracia! Lula é o medicamento. Conheço um cara da direita: um dos mais imóveis. Teve um AVC. Está com depressão: só pode usar a esquerda. Ser esquerda é carregar a percepção do longe. Lula é da esquerda, percebe o periférico: o povo. Dizem: “Lula traiu a esquerda, permite gente da direita em seu governo”. Mano velho, te toca. A direita só é força quando é uma subjetividade predominante. Hoje, no Brasil ela não é. Olha como ela se une para tramar a queda de Lula e não consegue. Há uma subjetividade criadora que o povo está tecendo junto com o governo Lula. “Pru teu governo!”, Na infância ouvíamos muito esta expressão. Porra, o cara não tinha governo nenhum! “O carro se desgovernou”. Como que um carro pode se desgovernar? É muita piração. Piração do boca de farofa, Heráclito Fóssil, do PFL, perguntar ao senador Jucá se “motel é gasto emergente”. Pergunta zambeta: motel é pousada, hotel de estrada. Pode-se gastar emergentemente. Motel pode compor fluxos afectos/sensuais/cognitivos: composição erótica, política do viver. O boca de farofa não pode querer que suas interdições sexuais sejam projetadas na CPI dos zambetas da direita. O governo não pode ser culpado se ele não ama. Amar é um verbo transitivo. Esta cidade não tem trânsito. Trânsito é movimento, desterritorialização de estados de coisas já imóveis. Confundem veículos imóveis em espaço estriado, pontuado, da cidade, com trânsito. Ignorância santa. Santa padroeira fazia aniversário. Lá íamos nós: todos vestidos à caráter. A mãe caprichava nos adornos. Adorno! Em 70 era o nosso filósofo preferido para destrinchar a alienação da sociedade de consumo. Alguns preferiam Marcuse. Marc era um colega. Sacaneavam ele: Marc, use! Use, a palavra mágica do capitalismo. Use e torne sua vida linda. “Escandalosamente linda!”, exclamou da calçada de um café em Paris, o surrealista, para uma mulher que passava. Não sei quando algo passa. Fui comer um peixe frito com pimenta, limão e cachaça, deu uma dor de barriga que não passou até agora. Como que se pode falar sobre o agora. Quando se fala, não é mais agora. “E agora o que é que faço? Estou apaixonada pelo cara e ele não me dá a menor esperança”. Dona Esperança foi uma verdadeira educadora. Ainda bem que os governos não a conhecem. Caso contrário já teria sido reduzida a uma obtuárica escola. Que adianta colocar o nome de uma educadora em escola e a escola não funcionar? Os funcionários da saúde estão em greve no Amazonas. Estava em tempo. Nenhum governo do Amazonas pensou a saúde como uma política social precípua. Junte com a posição alienada da maior parte dos médicos, jogue na panela das patologias, e mexa, mexa, mexa, mexa, mexa…