DO OURO AO PÓ: OPERAÇÃO UNHA E CARNE EXPÓE ELOS DE FLÁVIO BOLSONARO COM MILÍCIAS E COMANDO VERMELHO
A engenharia política e financeira que abala o Rio de Janeiro sob a lupa da Polícia Federal: da importação de armas e equipamentos anti-drone da China ao esquema bilionário de lavagem em postos de combustíveis e fraudes na Educação.
ARepública de Jacarepaguá e das milícias cariocas, que por anos operou sob a sombra complacente do clã Bolsonaro, assiste agora à sua mais profunda e ruidosa derrocada. O que começou como uma investigação sobre tráfico de armas na Baixada Fluminense transformou-se em um terremoto político-policial de proporções amazônicas.
A Operação Unha e Carne, capitaneada pela Polícia Federal sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal (STF), escancara o que o jornalismo progressista cansa de alertar: a simbiose obscena entre o colarinho branco, a contravenção, o crime organizado e os tentáculos políticos de Flávio Bolsonaro e seus asseclas.
Para compreender o tamanho do abalo que atinge o Palácio Tiradentes e os gabinetes de Brasília, é preciso puxar o fio da meada desde os primórdios. Mas, antes, é preciso dimensionar a montanha de dinheiro que agora aparece no centro da engrenagem.
A ação ocorre no âmbito da Força-Tarefa Missão Redentor II, em conformidade com a ADPF 635, a chamada ADPF das Favelas, e mira uma organização criminosa suspeita de usar empresas ligadas ao setor de combustíveis como plataforma de lavagem de dinheiro, com participação de agentes públicos. Ou seja: o que começou como vazamento de uma operação contra o braço político-financeiro de uma facção criminosa chega, agora, ao dinheiro grande, aos postos, aos gabinetes e aos palanques.
Um dos alvos centrais dessa nova fase é Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e presidente do União Brasil no Rio. Canella é tratado no tabuleiro fluminense como pré-candidato de Flávio Bolsonaro ao Senado, o que leva a Unha e Carne diretamente para dentro da engrenagem eleitoral do bolsonarismo no estado. A trajetória do ex-prefeito, sua base política na Baixada Fluminense e sua entrada no centro da nova fase da operação, que também teve como alvo o influente ex-secretário estadual de Polícia Civil, Marcus Amim.
Do ouro ao pó: Os primórdios com TH Joias e Rodrigo Bacellar
O ponto de partida dessa engrenagem foi a Operação Zargun, que mirou Thiego Raimundo de Oliveira Santos, popularmente conhecido como TH Joias. Ex-deputado estadual, suplente e empresário de “sucesso”, TH Joias usava o mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) para atuar como uma verdadeira frente política da facção criminosa Comando Vermelho (CV).
De acordo com o Ministério Público, TH Joias não apenas nomeava comparsas para cargos comissionados na ALERJ, mas intermediava diretamente a compra de armamentos pesados, drogas e até dispositivos antidrones para os blindados do tráfico nos complexos do Alemão, da Maré e na Parada de Lucas.
A Unha e Carne nasce dos desdobramentos da Operação Zargun, deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2025 para desarticular o braço político e financeiro de uma organização criminosa no Rio. O MPF afirmou que a principal atividade do grupo envolvia importação de armas do Paraguai e equipamentos anti-drone da China, além de revenda para integrantes de facções no estado.
TH Joias era alvo de uma operação contra o Comando Vermelho e investigado por suspeitas de tráfico de drogas, corrupção, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de armas. Dois meses depois, a PF havia indiciado TH Joias e outras 17 pessoas por envolvimento com facções criminosas, tráfico de armas e lavagem de dinheiro no Rio.
Foi aí que a “unha” encontrou a “carne”. Sabendo que a PF estava na iminência de prender o aliado, o então presidente licenciado da ALERJ, Rodrigo Bacellar, entrou em cena. Em uma ligação interceptada, recheada de deboche e desespero, Bacellar avisou TH Joias sobre a operação que ocorreria no dia seguinte, orientando-o a destruir provas. O deputado chegou a usar um caminhão-baú para esvaziar sua mansão e cogitou levar até o freezer. “Deixa isso, tá doido? Larga isso aí, seu doido”, respondeu Bacellar, preocupado que as carnes do eletrodoméstico gerassem suspeitas. Dali nascia o nome irônico da operação da PF: Unha e Carne.

Márcio Canella, Cláudio Castro, Rodrigo Bacellar; o presidente do União Brasil, Antonio de Rueda; e o presidente do Progressistas, Ciro Nogueira, em Belfort Roxo Foto: Divulgação
A primeira fase da Operação Unha e Carne foi deflagrada em 3 de dezembro de 2025 para investigar o vazamento de informações sigilosas no Rio. Bacellar foi preso sob suspeita de ajudar TH Joias, já investigado por elo com o Comando Vermelho, a escapar da ação policial.
O vazamento também provocou reação do Ministério Público Federal. Em 5 de dezembro de 2025, o MPF abriu procedimento para apurar como informações sigilosas chegaram ao conhecimento de Bacellar. A reação corporativa da Alerj veio em seguida. Por 42 votos a 21, os deputados aprovaram resolução para tirar Bacellar da cadeia, como ocorreu na votação da Alerj. Mas a blindagem parlamentar durou pouco: em março de 2026, Alexandre de Moraes determinou nova prisão de Bacellar.
A PF descobriu que o vazamento não era amador. Havia um cupido de toga no esquema. A segunda fase da Unha e Carne, em 16 de dezembro de 2025, mirou a atuação de agentes públicos no vazamento das informações da Zargun. O desembargador Macário Judice Neto, do TJRJ, relator do caso de TH Joias, foi flagrado, segundo a investigação, no circuito que antecedeu a fuga frustrada do operador do Comando Vermelho. Macário acabou preso pela PF.
A investigação reuniu indícios de que o magistrado estava ao lado de Bacellar no exato momento em que as informações sigilosas teriam sido repassadas ao operador do Comando Vermelho. O magistrado acabou preso, selando o elo entre o crime de favela, a cúpula do Judiciário fluminense e o topo do poder legislativo estadual.
A expansão da propina: Educação, contratos e a Alerj em curto-circuito
A partir dali, a Unha e Carne deixou de ser apenas uma investigação sobre vazamento. O fio puxado pela Polícia Federal passou a revelar uma tapeçaria mais ampla: tráfico, contravenção, lavagem de dinheiro, contratos públicos, nomeações e financiamento político.
Em maio de 2026, a operação avançou para outra frente. A quarta fase da Unha e Carne passou a apurar crimes de corrupção, com sete mandados de prisão e 23 de busca. A investigação, iniciada com o vazamento ligado a TH Joias, avançou para suspeitas de fraudes em contratos e nomeações na área da Educação do Rio.
Um dos nomes centrais dessa frente foi o deputado estadual Thiago Rangel, preso na quarta fase da operação. O escândalo ganhou contornos mais concretos. Relatório da PF apontou pressão de Thiago Rangel sobre um diretor de escola para liberar verba pública. A gravidade institucional foi tamanha que a 1ª Turma do STF confirmou decisão que manteve o deputado preso no caso que apura fraudes na compra de materiais e na execução de contratos da rede estadual.
Contravenção, lavagem e o cheiro de gasolina no rastro do dinheiro
A quinta fase da operação, deflagrada em 2 de julho de 2026, aprofundou a frente de lavagem de dinheiro no Rio. Segundo a Polícia Federal, a etapa buscava desarticular um esquema de lavagem, com prisões preventivas, buscas e sequestro de bens.
Na ocasião, a PF prendeu o pastor Márcio Poncio e mirou novamente Bacellar, além do contraventor Adilsinho e Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador Sérgio Cabral. O Rio profundo, que nunca respeitou fronteiras ideológicas quando o assunto é dinheiro, aparecia novamente inteiro: a velha política, a nova direita, a contravenção, o púlpito, o gabinete e o caixa paralelo.
A apuração também chegou ao financiamento político. Em outra frente da Unha e Carne, a PF encontrou o nome do governador Cláudio Castro em uma lista atribuída a um bicheiro, com registro de suposta doação oculta de R$ 3,2 milhões para a campanha de 2022. O cerco financeiro, antes restrito a contratos escolares, passou a ameaçar o cofre das grandes campanhas fluminenses.
Na sexta fase, o cheiro de gasolina tomou conta do rastro do dinheiro. A rede de postos investigada pela PF teria movimentado R$ 7,6 bilhões em seis anos. Não se trata mais de um favor paroquial, de uma nomeação obscura ou de uma conversa atravessada em telefone. Trata-se de uma engrenagem financeira de escala industrial, com empresas, agentes públicos, postos de combustíveis, sequestro de bens e uma suspeita de lavagem que leva o caso para um patamar ainda mais explosivo.
O elo de ouro com Flávio Bolsonaro e o Clã
Embora a máquina de propaganda do bolsonarismo tente usar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para censurar vídeos e pesquisas que demonstram as conexões da família com a criminalidade no Rio, os fatos narrados nos relatórios da PF, nas decisões judiciais, nos registros públicos e na própria história política fluminense desenham um mapa nítido. Rodrigo Bacellar, peça-chave e operador político na ALERJ, sempre desfrutou de trânsito livre e alianças estratégicas com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e com Jair Bolsonaro na montagem de palanques e na partilha do poder no estado.
A proximidade de Bacellar com o clã Bolsonaro é pública. Em maio de 2025, Jair Bolsonaro anunciou que o então presidente da Alerj seria seu candidato ao governo do Rio. A relação tinha até símbolos públicos: Bacellar recebeu de Bolsonaro a chamada “medalha imbrochável”, a comenda folclórica distribuída pelo ex-presidente a aliados.
No entanto, a acusação mais grave contra o operador bolsonarista aparece em relatório da PF: segundo a PF, o ex-presidente da Alerj atuaria como “liderança do núcleo político” do Comando Vermelho. A acusação, por si só, já seria suficiente para implodir qualquer discurso moralista vindo da extrema direita fluminense.
A relação de Flávio Bolsonaro com personagens centrais dessa engrenagem também aparece em registros públicos. Uma foto mostra Flávio Bolsonaro lado a lado com TH Joias e Bacellar, dois personagens centrais da trama investigada. Outro registro mostra o senador confraternizando com TH Joias durante evento em Búzios.

Rodrigo Bacellar, TH Joias e Flávio Bolsonaro
Agora, com a sexta fase da Unha e Carne, o cerco político se aproxima por outro caminho: o eleitoral. Márcio Canella, alvo da operação que mira a lavagem de R$ 7,6 bilhões em postos de combustíveis, é o nome trabalhado como pré-candidato de Flávio Bolsonaro ao Senado. A operação, portanto, não apenas remexe os porões do crime organizado no Rio. Ela entra no coração da engenharia eleitoral bolsonarista para 2026.
A lavagem de dinheiro, que antes passava por lojinhas de chocolate, imóveis superfaturados e esquemas paroquiais no entorno da família, agora ganha contornos industriais: uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio que, segundo a PF, movimentou a assustadora cifra de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos. O bolsonarismo, que sempre tentou vender ao país a fantasia de uma cruzada contra o crime, vê seus aliados, fotografias, palanques e operadores reaparecerem justamente onde o crime, o dinheiro e a política se encontram.
A relação do clã Bolsonaro com figuras do submundo político-policial do Rio já foi analisada e denunciada inúmeras vezes. Como lembrou Renato Rovai em texto publicado, há uma linha histórica contínua que vai do miliciano Adriano da Nóbrega a Rodrigo Bacellar, atravessando gabinetes, homenagens, fotos, candidaturas e alianças eleitorais.
Lista de aliados e personagens: Os homens na mira da PF
A rede de conexões investigada na Operação Unha e Carne — e nos desdobramentos umbilicalmente ligados a ela — expõe uma lista seleta de aliados políticos, operadores de campanha e personagens que ajudam a entender como o crime organizado deixou de operar apenas com fuzil na laje para circular de terno nos salões do poder:
- Márcio Canella (União Brasil): ex-prefeito de Belford Roxo e peça central da 6ª fase da operação. Canella é o nome apontado como pré-candidato de Flávio Bolsonaro ao Senado pelo Rio de Janeiro. Foi alvo de busca e apreensão no esquema de lavagem de R$ 7,6 bilhões em postos de combustíveis. Na sua gestão na Baixada, Canella chegou a nomear dois milicianos condenados como secretários municipais.
- Rodrigo Bacellar: ex-presidente da ALERJ, aliado de primeira hora de Jair e Flávio Bolsonaro na engenharia política fluminense. Foi preso por suspeita de vazar operações policiais e ajudar TH Joias a escapar da PF. Segundo a PF, Bacellar atuaria como liderança do núcleo político do Comando Vermelho.
- TH Joias: Thiego Raimundo de Oliveira Santos, ex-deputado estadual e pivô da Zargun. É apontado por PF e MPF como peça do braço político-financeiro ligado a facção criminosa, com investigação sobre armas, drogas, lavagem de dinheiro e equipamentos anti-drone. Possui registros públicos ao lado de Flávio Bolsonaro e Bacellar.
- Macário Judice Neto: desembargador do TJRJ apontado na 2ª fase como suspeito de participação no vazamento de informações do caso TH Joias. A PF possui indícios de que ele estava fisicamente ao lado de Bacellar quando o aviso teria sido repassado.
- Marcus Amim: ex-secretário estadual de Polícia Civil do Rio de Janeiro. Delegado influente e homem forte da segurança pública fluminense, foi alvo da sexta fase da operação, que mira o esquema bilionário de lavagem em postos de combustíveis.
- Pastor Márcio Poncio: liderança evangélica de forte apelo midiático e político. Foi preso pela PF na quinta fase da operação, no eixo de lavagem de dinheiro, contravenção e suspeitas de conexão com a máfia dos cigarros.
- Adilsinho (Adilson Oliveira Coutinho Filho): magnata da contravenção e personagem recorrente no submundo político-policial do Rio. Figura entre os alvos da quinta fase, associada à lista que menciona suposta doação milionária à campanha de Cláudio Castro.
- Marco Antônio Cabral: filho do ex-governador Sérgio Cabral. Embora oriundo do MDB tradicional, entra na operação como sinal de que o pragmatismo do dinheiro sujo não distingue velhos e novos operadores da política fluminense. Foi alvo de mandados de busca e apreensão na quinta fase da Unha e Carne.
- Thiago Rangel: deputado estadual preso na quarta fase da operação, no braço de suspeitas de corrupção na Educação do Rio. Relatórios da PF atribuem a ele pressões sobre diretores de escola para liberar verbas públicas, com prisão mantida pelo STF.

imagem gerada por inteligência Artificial
A blindagem ruiu
A blindagem ruiu. De que adianta discursar em Brasília contra o crime organizado e posar de paladino da moralidade se, no Rio de Janeiro, a “unha” que sustenta os votos do clã está enterrada na “carne” do Comando Vermelho, das milícias, da contravenção e dos bilhões lavados nos postos de gasolina?
A Polícia Federal segue o rastro do dinheiro, e o rastro do dinheiro, invariavelmente, fala com sotaque de miliciano. A análise dos celulares apreendidos de Cláudio Castro tem potencial para desnudar novas conexões entre Flávio Bolsonaro, Bacellar, TH Joias e líderes do Comando Vermelho. Somado a isso, há um ponto ainda mais sensível no horizonte judiciário: a possibilidade de colaboração premiada.
Uma eventual delação de Rodrigo Bacellar poderia atingir diretamente o entorno de Flávio Bolsonaro no Rio, transformando indícios políticos, registros públicos, fotos, vídeos e alianças eleitorais em uma nova frente probatória.
Até aqui, Flávio Bolsonaro não aparece, nas fontes oficiais disponíveis, como alvo formal da Operação Unha e Carne. Mas é justamente aí que mora o terremoto político: a investigação já cercou aliados, pré-candidatos, fotografias, vídeos, palanques, operadores de gabinete e personagens que compõem a velha República de Jacarepaguá. A PF segue puxando o fio. E o fio, no Rio de Janeiro, insiste em sair dos porões, atravessar a Alerj e bater às portas do clã Bolsonaro.