FRANCISCO LADEIRA: OS EFEITOS DO NOTICIÁRIO INTERNACIONAL NOS IMAGINÁRIOS GEOPOLÍTICOS DE ESTUDANTES
Percepção, opinião e esquecimento: os três efeitos do noticiário internacional nos imaginários geopolíticos de estudantes
por Francisco Fernandes Ladeira
No pós-doutorado que realizo no Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) – campus Ouro Preto, estou desenvolvendo uma pesquisa sobre os imaginários geopolíticos de alunos do ensino médio e suas relações com os discursos dos noticiários internacionais da grande mídia brasileira. Selecionei como objetos de estudo os três focos de tensão mais noticiados nos últimos anos: o conflito Rússia-Ucrânia, o genocídio palestino e as agressões dos Estados Unidos à Venezuela – bem como o posterior sequestro do presidente Nicolás Maduro.
No entanto, o rótulo “ditador”, aplicado a Maduro, está bastante presente nos imaginários dos estudantes. Isso comprova que, quando um determinado discurso é insistentemente divulgado nos meios de comunicação de massa, há uma forte possibilidade de ser reproduzido pelo público. Como já dizia o ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels: uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.
As formas de recepção dos três focos de tensão geopolítica indicam resultados interessantes sobre as relações entre mídia e público. É importante lembrar que a pesquisa está sendo realizada neste mês de janeiro, enquanto a invasão da Ucrânia pela Rússia ocorreu há quatro anos. Desde então, a repercussão sobre o conflito no Leste Europeu tem paulatinamente diminuído nos noticiários. Sem a mídia para constantemente relembrar este acontecimento, os alunos, em sua maioria, tendem a ter pouco ou nenhum conhecimento sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia. Isso não significa, evidentemente, que os noticiários vão ditar o que as pessoas pensam sobre determinado assunto. Porém, a visibilidade midiática é fundamental para pautar a agenda pública em relação aos acontecimentos internacionais. Se não está na imprensa, o interesse será menor – ou mesmo inexistente.
Já o recrudescimento do genocídio do povo palestino, após a contraofensiva dos grupos de resistência no sul de Israel, em 7 de outubro de 2023, e a posterior reação desproporcional do Estado sionista – devastando a infraestrutura de Gaza e assassinando indiscriminadamente sua população –, teve grande repercussão tanto na grande mídia quanto na imprensa alternativa e nas redes sociais. Com o genocídio exposto em imagens e vídeos, é improvável pensar que os alunos formulem suas opiniões a partir do discurso de “defesa de Israel”. Contudo, o rótulo “Hamas terrorista”, assim como “Maduro ditador”, foi constante nas respostas dos alunos ao questionário proposto em minha pesquisa.
Por fim, a repercussão da agressão estadunidense à Venezuela entre os estudantes foi abordada no chamado “calor dos acontecimentos”. A maioria dos participantes do estudo limitou-se a descrever os eventos no país sul-americano. Ou seja, eles possuem meras “percepções” sobre os ataques dos Estados Unidos, captando apenas os dados brutos. Isso ocorre porque ainda não houve tempo hábil tanto para processarem os fatos e formularem opiniões (como no caso da geopolítica palestina), quanto para esquecer o que aconteceu, a exemplo do conflito Rússia-Ucrânia.
Portanto, os resultados do meu estudo, até aqui, apontam que os prováveis efeitos sociais do discurso midiático não estão no contato imediato entre mensagem e receptor, mas no acúmulo de informações que os principais veículos reverberam ao longo do tempo. Tal conclusão já foi apontada por nomes como Melvin DeFleur e Sandra Ball-Rokeach, para quem pesquisas baseadas em metodologias de causa e efeito imediatos são pouco esclarecedoras sobre a influência dos meios de comunicação de massa na audiência.
Nessa mesma linha, Mauro Wolf advertiu que os conteúdos das mensagens midiáticas não geram mudanças pontuais e em curto prazo no público receptor. Seus potenciais efeitos devem ser entendidos como consequências de longo prazo, cumulativas, sedimentadas no tempo e ligadas à repetitividade da produção da comunicação de massa. Isso explica por que os rótulos “Maduro ditador” e “Hamas terrorista” são tão eficientes.
Por outro lado, sobre as repercussões dos acontecimentos internacionais, meu estudo sugere que: quando um foco de tensão geopolítica não é mais noticiado com tanta frequência, tende ao “esquecimento”; quando está muito presente na mídia, permite a formulação de “opiniões”; e, no “calor dos fatos”, as pessoas têm, no máximo, apenas “percepções”.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto. Autor dos livros “A ideologia dos noticiários internacionais” (volumes 1 e 2).