ROMANCE ABORDA VÍTIMAS ANÔNIMAS DA DITADURA E AS MARCAS DEIXADAS PELA REPRESSÃO EM FAMÍLIAS POBRES
afinsophia 26/01/2026 0
Entre Montanhas e Predições usa a ficção para retratar como a repressão atingiu famílias comuns, especialmente em regiões pobres do interior do país

Pouco lembradas nos registros oficiais, as vítimas da ditadura militar que não integravam organizações políticas nem atuavam na militância são o foco do romance Entre Montanhas e Predições, do escritor Felipe de Caux. A obra, lançada a partir de extensa pesquisa histórica, usa a ficção para retratar como a repressão atingiu famílias comuns, especialmente em regiões pobres do interior do país, deixando marcas profundas que atravessaram gerações.
Em entrevista ao TVGGN Justiça da última sexta-feira (24), o autor explicou que o livro é uma ficção ambientada no contexto da ditadura no Brasil, centrada em uma família do interior do norte de Minas Gerais, região historicamente marcada pela pobreza e pela exclusão. Segundo o autor, a narrativa busca dar visibilidade a personagens que “não eram militantes, não participavam ativamente de movimentos políticos, mas acabaram entrando em choque com o regime”.
A trama acompanha a história de um dos filhos do casal protagonista, jovem leitor assíduo que ingressa na faculdade de direito, ambiente que, à época, concentrava debates políticos e resistência ao regime. De forma arbitrária, ele passa a ser perseguido após ter o nome citado sob tortura por outra pessoa presa. “Era comum naquele período que, sob tortura, alguém dissesse qualquer nome. Não dá nem para condenar quem delatava”, afirmou o autor.
Felipe de Caux destaca que a ausência de informação, muitas vezes, foi tão cruel quanto a própria violência física. “Não saber o que aconteceu, quando aconteceu, se realmente morreu, é uma dor que dura a vida inteira”, disse. No romance, essa angústia é traduzida por meio do realismo fantástico, recurso literário que mistura elementos simbólicos ao cotidiano, sem romper com a realidade histórica.
Um dos episódios mais marcantes da obra ocorre quando a mãe, Madalena, passa a “ver” o filho em casa após o desaparecimento, compreendendo, a partir dessa experiência, que não precisava mais procurá-lo vivo, mas sim buscar o seu corpo. Para o autor, o uso de metáforas e imagens simbólicas ajuda a dar força narrativa a sentimentos difíceis de expressar apenas de forma realista.
Embora o livro retrate cenas de tortura e repressão, de Caux afirma que optou por não aprofundar o ponto de vista dos torturadores. “A história é contada a partir das vítimas. Os agentes da repressão aparecem como parte de um sistema que desumanizou quem estava do outro lado”, explicou. Entre esses personagens estão interrogadores e até médicos que acompanhavam as sessões de tortura para manter presos vivos, prática documentada em relatos históricos.
O romance também aborda outros dramas sociais enfrentados pela família ao longo do tempo, como violência, homofobia, vícios e morte infantil, reforçando a ideia de que a ditadura se somou a um contexto já marcado pela desigualdade. “A ditadura é uma parte da história, não o livro inteiro. Ela atravessa a vida dessas pessoas como atravessou a vida de tantas famílias pobres no Brasil”, afirmou o escritor.
Ao revisitar esse período sob a ótica dos anônimos, Entre Montanhas e Predições busca contribuir para a preservação da memória histórica e para a compreensão dos impactos silenciosos da repressão. “Muitas pessoas que nunca pensaram em política acabaram entrando em confronto com o Estado e, em alguns casos, foram empurradas para a luta simplesmente para sobreviver”, concluiu o autor.