“SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL QUE CUBA RECEBE É RETRIBUIÇÃO POR COMPROMISSO INTERNACIONALISTA”, AFIRMOU MINISTRO CUBANO, ABEL PIETRO

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INTERNACIONALISMO

Há décadas, cubanos seguem lema de ‘médicos, não bombas’ e compromisso internacionalista

Prieto foi Ministro da Cultura de Cuba entre 1998 e 2012 e ocupa cargo novamente desde 2016 | Crédito: Prensa Latina

Atravessando o que é considerado um dos piores momentos de sua existência desde a revolução de 1959, Cuba vem recebendo sinais de solidariedade vindos do exterior que são, em certa medida, uma forma de países que já se beneficiaram com o compromisso cubano com o internacionalismo retribuírem a ajuda. Essa é a opinião do ex-ministro da Cultura de Cuba Abel Prieto.

“Hoje, Cuba está recebendo muita solidariedade. Sem dúvida nenhuma, do mundo inteiro, do Brasil, do próprio Lula, de Claudia Sheinbaum [presidente mexicana], da Rússia; realmente de países que têm uma afinidade com Cuba e que, de algum modo, retribuem o que Cuba fez em termos solidários”, disse Prieto ao Brasil de Fato.

Em São Paulo para participar da conferência “A Saída é Pela Esquerda – Goodnight, Far Right“, organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo, Prieto explica que o compromisso cubano com o internacionalismo, ou o princípio político que defende a cooperação, a união e a solidariedade entre diferentes nações como forma para a resolução de problemas globais, norteou a Revolução desde o começo. 

“Fidel dizia: ‘Médicos e não bombas’. A humanidade precisa de médicos e não de bombas. As bombas podem matar os famintos, os pobres, os enfermos, mas não podem matar a fome, a pobreza e a enfermidade” disse ele. 

Na entrevista, ele analisa o momento vivido, as ameaças dos Estados Unidos e como o povo cubano vem dando demonstrações de unidade em defesa de sua soberania. Leia abaixo:

Brasil de Fato: Qual importância tem o internacionalismo para Cuba neste momento de pressão por parte do governo estadunidense de Donald Trump?

Abel Prieto: Vejamos, hoje, Cuba está recebendo muita solidariedade, sem dúvida nenhuma, do mundo inteiro. Do Brasil, do próprio Lula, de Claudia Sheinbaum, da Rússia; realmente de países que têm uma afinidade com Cuba e que, de algum modo, retribuem o que Cuba fez em termos solidários.

E isso realmente é muito importante porque, indiscutivelmente, este de agora é um momento de enorme perigo para nós. Estamos vivendo um cerco implacável. Ao bloqueio tradicional, somou-se um bloqueio energético. Ou seja, há uma intenção explícita, óbvia, de asfixiar a economia cubana, de asfixiar Cuba em termos de carência absoluta de combustível; é o que estão fazendo. E tem o componente das ameaças permanentes.

Diante das constantes declarações de Donald Trump e Marco Rubio de que Cuba é um Estado falido e de que seria fácil tomá-la pela força, qual é a posição oficial do governo cubano?

O primeiro-secretário e presidente, Miguel Díaz-Canel, reitera que Cuba sempre esteve disposta ao diálogo, uma postura que remonta à época de Fidel Castro e teve continuidade com Raúl Castro — o qual, inclusive, alcançou avanços pontuais nas relações com o governo de Barack Obama.

A diretriz atual permanece clara: o país está disposto a dialogar com os Estados Unidos e a encontrar fórmulas de cooperação, desde que isso não envolva colocar na mesa de negociação os princípios soberanos ou o modelo político cubano. Rejeita-se, categoricamente, a lógica de hegemonia global que a liderança estadunidense tenta impor.

Como a população cubana tem reagido a essas pressões externas?

O povo cubano tem respondido com manifestações massivas de unidade e firmeza. As celebrações do 1º de Maio contaram com uma adesão extraordinária em todo o país. Além disso, o processo “Minha Assinatura pela Pátria” — convocado por sindicatos, comitês de defesa e pela sociedade civil — reuniu 6.300.000 assinaturas vinculadas a documentos de identidade, conferindo ao ato um caráter institucional de compromisso com a defesa da soberania.

Essa atitude reflete o conceito de Fidel Castro sobre o “sentido do momento histórico”, que se traduz na capacidade da população de compreender o que é imprescindível em cada conjuntura: neste caso, enviar uma mensagem de coesão e apego ao socialismo frente às hostilidades.

Como foi o impacto em Cuba do sequestro de Nicolás Maduro, que era protegido, inclusive, por cubanos?

No dia 3 de janeiro, 32 cubanos que integravam a equipe de segurança pessoal do presidente Nicolás Maduro faleceram em combate em Caracas, após um ataque perpetrado pelos Estados Unidos. O episódio gerou profunda indignação popular. O contingente era composto majoritariamente por jovens e alguns oficiais experientes.

Os restos mortais chegaram a Cuba em 15 de janeiro e foram velados no saguão do Ministério das Forças Armadas Revolucionárias (Minfar). A população de Havana compareceu em massa, enfrentando condições climáticas adversas de chuva e frio para prestar homenagens das 7h às 21h. No dia seguinte, 16 de janeiro, o presidente Díaz-Canel discursou na “Marcha do Povo Combatente”, um ato nacional que marcou o sepultamento dos combatentes em seus municípios de origem.

Posteriormente, em 28 de janeiro, a tradicional “Marcha das Tochas”, organizada por jovens na escadaria da Universidade de Havana em homenagem ao nascimento de José Martí, registrou uma das maiores participações da história recente, demonstrando que a sociedade rejeita a divisão interna.

Como o governo avalia a atuação da oposição cubana no exterior e o ambiente criado nas redes sociais?

Esse cenário de resistência contrasta com a atitude de indivíduos nascidos em Cuba que, alinhados a figuras como Marco Rubio, defendem intervenções militares e bombardeios contra o próprio país. Esse extremismo, concentrado sobretudo em núcleos de migração em Miami, manifesta tendências de ultradireita e utiliza as redes sociais para criar um ambiente tóxico global e internamente.

Casos de fatalidades médicas na ilha, decorrentes da escassez crônica de insumos gerada pelo próprio bloqueio, são frequentemente instrumentalizados politicamente nessas plataformas para projetar uma imagem de insensibilidade governamental, visando provocar uma explosão social.

Atualmente, a situação socioeconômica de Cuba está mais grave do que o “Período Especial” da década de 1990?

Sim, o cenário atual apresenta dificuldades superiores às da década de 1990. Naquela época, embora houvesse crise, o sistema de transporte urbano não havia colapsado totalmente como agora, quando a mobilidade depende majoritariamente de bicicletas e o combustível é escasso e inflacionado. Além disso, os anos 90 contavam com maior disponibilidade de medicamentos. Atualmente, as restrições financeiras impedem a importação de componentes básicos até para os remédios fabricados localmente.

O setor do turismo sofreu uma retração drástica devido às sanções. Cidadãos da União Europeia, por exemplo, perdem o direito ao visto facilitado de entrada nos Estados Unidos (Esta) caso visitem ou transitem por Cuba. Adicionalmente, as vias formais para o envio de remessas e as transações bancárias globais foram bloqueadas pela inclusão de Cuba na lista de Estados patrocinadores do terrorismo.

De que forma as campanhas externas têm afetado a cooperação médica internacional de Cuba?

Há uma perseguição sistemática aos serviços médicos internacionais, liderada por figuras políticas estadunidenses. Essa pressão forçou países como Honduras, Guatemala e, anteriormente, o Brasil a encerrarem os programas de cooperação médica, privando as populações carentes de atendimento e reduzindo a arrecadação de divisas de Cuba. Apesar das investidas, a maioria das nações do Caribe manteve os convênios com dignidade.

Quais são as medidas de preparação de Cuba diante da ausência de diálogo e da possibilidade de uma agressão militar?

Na ausência de canais de diálogo, o país trabalha na preparação para a defesa com base na doutrina militar da “Guerra de Todo o Povo”, idealizada por Fidel Castro. Trata-se de uma estratégia de defesa territorial em que os municípios são estruturados em zonas descentralizadas, com reservistas próprios e estoques de alimentos, medicamentos e abrigos para a população civil.

Embora Cuba não compita em tecnologia militar com os Estados Unidos, essa organização visa inviabilizar uma ocupação territorial. A principal preocupação reside em ataques aéreos ou com drones que possam atingir infraestruturas críticas, como as usinas termelétricas, afetando diretamente as condições de vida da população. Em termos internacionais, o país defende que não constitui uma ameaça bélica, mas sim uma referência moral baseada no internacionalismo e na solidariedade.

Como tem se desenvolvido a solidariedade internacional com Cuba este ano, paralelamente aos investimentos do país na transição para a energia solar?

Enquanto o país avança na transição de sua matriz energética com a instalação acelerada de painéis solares, o movimento de solidariedade internacional tem registrado uma importante renovação geracional, com expressiva participação de jovens da Europa e das Américas, inclusive dos Estados Unidos.

No início do ano, o comboio “Nossa América” cumpriu agenda na ilha, participando de encontros com o presidente Díaz-Canel no Palácio de Convenções e de atividades no Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP). Destaca-se também o apoio vindo do México, onde movimentos sociais e cidadãos organizaram grandes coletas públicas de alimentos, roupas e medicamentos na praça do Zócalo, consolidando o rechaço internacional às medidas de isolamento impostas a Cuba.

*Esta produção é uma parceria entre Fundação Rosa Luxemburgo e Brasil de Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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