LIMA BARRETO, CRONISTA DAS CIDADES DESIGUAIS
Passeio pela vida e obra do escritor que narrou a criação e presença do subúrbio, após o “bota-abaixo” que projetou o Rio na “modernidade”. O trem como laboratório social de personagens e histórias. E a educação como escape, em uma sociedade recém-saída da escravidão
24/05/2026 –
Foi por meio de um “bota-abaixo” que o Rio de Janeiro do início do século XX decidiu ingressar na modernidade. Mais de 500 prédios e casarões demolidos para dar lugar a uma arquitetura inspirada na parisiense explicam a expressão popular, que, em sentido figurado, também revela as mudanças sociais higienistas que ocorreram no período. A reforma do prefeito Pereira Passos dividiu a então capital do país em duas, criando o subúrbio que o escritor Lima Barreto viu surgir na juventude e onde viveu a maior parte da vida. Para, no fim, deixar expresso aos familiares o pedido para que o sepultassem em outro lugar.

A presença do subúrbio na obra de Lima Barreto, marcada pela crítica social e que inclui livros autobiográficos, inspirou a pesquisa desenvolvida por Milena Dantas no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob orientação do professor Andre Luiz Cavazzani. Analisando principalmente as crônicas do escritor, nascido em 13 de maio de 1881, a pesquisadora buscou compreender que representação o subúrbio teve na função de cenário comum do seu conjunto literário.
O subúrbio carioca tem dois surgimentos, o físico e o simbólico. Geograficamente, são as terras que ficam na faixa intermediária entre as regiões centrais criadas pela urbanização — processo em que ocorreu a industrialização e a expansão da malha ferroviária — e a zona rural.
Depois das reformas urbanas, porém, o subúrbio passou por um “rapto ideológico”, termo de Nelson da Nobrega Fernandes citado pela pesquisa. Deixou de ser uma definição geográfica de áreas afastadas para se tornar o território para além dos trilhos do trem que era espaço de moradia dos mais pobres, sinônimo de pobreza, abandono estatal e penúria. Era o território dos que nunca tiveram oportunidade (caso dos escravizados e dos seus descendentes recém-libertos) e dos que até tiveram alguma, mas não conseguiram aproveitá-la. Para ambos, sobrava a vida no “refúgio dos infelizes”, na expressão barretiana.
Trata-se de uma visão crítica sobre o território do ponto de vista de quem ocupou a posição social de neto de escravizados durante a República Velha, período histórico marcado por hipocrisias, racismo e desigualdade.
“A descrição do subúrbio que surgiu na pesquisa é como um espaço em processo de transformação. De um lado, as antigas chácaras e, do outro, essa longa faixa que segue a linha férrea central. Dois espaços, dois tempos, um invadindo o outro, um espaço entremeio. Fica clara a crítica do autor ao processo de modernização considerado autoritário e excludente”, lembra Milena Dantas.
No universo de estudos sobre a obra de Lima Barreto, a pesquisadora optou por investigar de que maneira o escritor colocava em prática a sua concepção de literatura, isto é, como exercia o que acreditava ser o papel de um artista. O desenho metodológico da pesquisa segue a linha de pesquisa histórica interpretativa, porém com cruzamento multidisciplinar com teoria literária e geografia.
“A dissertação buscou tratar a obra de Lima Barreto como uma representação histórica atravessada por sensibilidades, experiências. Especialmente no sentido de buscar compreender os processos de construção histórica de sensibilidades, experiências subjetivas e formas de sociabilidade nos subúrbios cariocas”, acrescenta Andre Luiz Cavazzani.
Assim, partindo do princípio de que, para Lima Barreto, a função do artista é transformar ideias em sentimentos, assim como levar à luz aspectos sociais menosprezados pela literatura elitizada, o subúrbio se apresenta como o campo prático para esse exercício, uma versão da “estética de fachada”.
“Chama atenção a aproximação da crítica do Lima às obras de melhoramento concentrados na região central e nos arrabaldes [áreas também fora do Centro, mas sem o estigma pejorativo de subúrbio] com a avaliação feita pelo autor sobre a literatura preocupada com a aparência e não com o conteúdo. Isso aparece, igualmente, na construção de personagens”, avalia a pesquisadora.
O trem de passageiros como laboratório de personagens e histórias
É nessas contraposições que o trem de passageiros se torna símbolo do subúrbio, um significado do cotidiano que é central nas obras de Lima Barreto. Enquanto os bondes elétricos serviam e valorizavam a Zona Sul (os “arrabaldes chics”, como dizia a imprensa da época), os trens permitiam a ocupação da periferia por classes com menos recursos.
A Central do Brasil, antiga Estrada de Ferro Dom Pedro II, foi construída em 1858 e, no Rio de Janeiro, conectava a periferia das zonas Norte e Oeste ao centro comercial e político da cidade. O destino dos trabalhadores e o ponto de partida em direção ao subúrbio era a Estação da Central, situada no Centro, especificamente na área do Campo de Santana. Ao longo do seu itinerário, o trem passava por bairros onde as tramas das obras e da própria vida de Lima Barreto se desenrolavam, tais como Riachuelo, Engenho Novo, Todos os Santos, Méier, Engenho de Dentro, Piedade, Cascadura e Rio das Pedras.

Extinta estação de trem de Todos os Santos, entre as estações do Méier e do Engenho de Dentro, que ficava no bairro de Lima Barreto, em 1910. Foto: @orioquenãovivi/Instagram/Reprodução
Na obra do cronista da República, o trem da Central do Brasil é mais do que meio de transporte, sendo apresentado como eixo e laboratório social da vida suburbana. O subúrbio barretiano é um subúrbio definido pela ferrovia. Era descrito por ele como uma faixa linear de terra que se alongava desde as estações do Rocha ou São Francisco Xavier até Sapopemba, tendo a linha férrea da Central como coluna principal.
Para chegar à repartição da Secretaria da Guerra em que trabalhava das 10 às 15 horas, o escritor viajava diariamente até a Estação da Central vindo do subúrbio de Todos os Santos (onde morou na Rua Boa Vista e, depois, na Rua Major Mascarenhas). Esse deslocamento era um momento infeliz do cotidiano de Barreto, que registrou nos escritos que se sentia humilhado por ter que frequentar vagões lotados e perceber olhares desdenhosos de passageiros da primeira classe sobre as suas roupas puídas.
Ao mesmo tempo, a experiência fez do trem um ambiente central do fazer literário de Lima Barreto, conforme conclui a pesquisa. Sejam as expressões de desânimo no rosto dos trabalhadores ou as figuras da “aristocracia suburbana” (os funcionários públicos remediados) que circulavam pelas estações, o escritor tirou dos trens inspiração para a sua obra.
“Era um espaço de laboratório, de escolha de temas, de personagens, de observação da realidade. Por ser um espaço que aglutinava vários subúrbios no caminho até o centro, era como um microcosmo da vida suburbana, segundo o autor. Em uma análise de jornais suburbanos da época, em especial a Gazeta Suburbana, as estações de trem apresentavam um papel central na vida dos moradores suburbanos e era até espaço de lazer, lugar de encontro, espaço para ver e ser visto”, conta Milena Dantas.
A educação como escape para o suburbano, especialmente as mulheres negras
A pesquisa destaca, porém, uma esperança para o suburbano (real ou simbólico) que Lima Barreto deixou em sua obra. Os textos do escritor indicam que ele acreditava que a instrução possibilita romper com o destino social suburbano. Por essa via, Barreto sustentava que o suburbano poderia compreender melhor como a sociedade funciona, deixando de ser uma vítima das relações de poder.
Particularmente a instrução das mulheres negras foi uma preocupação levantada pela pesquisa, resultado do cruzamento entre o livro Clara dos Anjos e a obra autobiográfica Diário Íntimo. Mais velho de quatro irmãos, dos quais uma mulher, o escritor registrou a consciência de que haveria uma sina para mulheres negras daquela época.
“A questão da gravidez não planejada, de mulheres negras e pobres que tinham seus corpos usados, era algo relativamente comum na realidade que Lima observava”, analisa a pesquisadora.
Em uma sociedade recém-saída da escravidão e influenciada por teorias racistas, mulheres negras e indígenas eram socialmente lidas como corpos à disposição. Com isso, a honra dessas mulheres suburbanas era considerada frágil e sob suspeita. Para Lima Barreto, a situação exigia um escudo de defesa, um antídoto contra a ingenuidade e a desonestidade. No seu entender esse escudo era a educação, que trazia resultados melhores do que isolar e mimar as filhas, como via com frequência fazerem os suburbanos.
O histórico da educação do Brasil é de proibição por lei do acesso para pessoas negras (Decreto de 1837) até a abolição da escravatura, e de omissão estatal no pós-abolição. Assim, a defesa que Lima Barreto faz da educação é um elemento do seu acervo de literatura militante.
Um diferencial desse posicionamento é que frequentemente não parece definir a falta de consciência como natural da mulher. Isso vai na contracorrente dos intelectuais do período, que pendiam para o determinismo social, deslocando problemas da sociedade para a forma como o ambiente degenerado influía sobre a população e suas naturezas pré-definidas.
“Desse modo, a falta de consciência não é uma condição da mulher, mas fruto do espaço e das relações de poder que ali se desenvolvem”, avalia a pesquisadora.
Ao romper com isso, o escritor reflete sobre uma coletividade, mais do que sobre experiências individuais. Também se importa com o impacto da educação para os filhos da mulher que teve acesso a ela.
“As personagens de Lima Barreto apresentam uma característica importante, elas são representantes de um grupo, são pensadas com base em vivências universais, experiências compartilhadas por um grupo social”.
Leia mais detalhes na dissertação “O refúgio dos infelizes: o subúrbio sensível elaborado em Clara dos Anjos, de Lima Barreto, compreendido através das crônicas do escritor (1900-1922)”, defendida no Programa de Pós-Graduação em História da UFPR