ALUGUEL, RETRATO DE UM SEQUESTRO DAS CIDADES

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Sonho da casa própria desmorona no Brasil. Mercado começa a ver mais lucros no aluguel que na venda. Imóveis viram ativos financeiros com plataformas como o Airbnb. E o poder público troca políticas habitacionais por “auxílio aluguel” precário. Quais são os caminhos para resgatar o direito à moradia digna?

Favela do Metrô-Mangueira (Rio de Janeiro). Foto: Tânia Rêgo (Agência Brasil).

 

Paula Santoro em entrevista a Rôney Rodrigues

Pode ser o retrato silencioso de uma transição habitacional? O sonho da casa própria, ainda alimentado por nove em cada dez brasileiros sem imóvel, vem naufragando para dar lugar a uma nova realidade: o aluguel. Em nove anos, o país viu o número de moradias alugadas saltar 54,1% — de 12,3 milhões (18,4% do total), em 2016, para 18,9 milhões (23,8%), em 2025. No mesmo período, a fatia dos imóveis próprios e quitados encolheu de 66,8% para 60,2%. A esperança de deixar o “perrengue” do aluguel e fincar raízes na segurança da casa própria afunda. Enquanto isso, nos últimos doze meses, o preço dos aluguéis subiu 13,5% — e só em janeiro de 2026, a alta foi o triplo da inflação. Os dados são da PNAD Contínua deste ano.

Muitos buscam explicações em planilhas: afinal, com a taxa Selic estratosférica, o crédito para financiar a casa própria tornou-se inacessível à maioria das famílias. É verdade. Mas o problema exige um olhar para além da superfície do economiquês. Na última década, a precarização da vida atingiu milhões de brasileiros. O trabalho temporário, a informalidade, a pejotização são retratos de um mercado de trabalho; e mesmo com a redução do desemprego no governo Lula 3, a “carteira-assinada” ainda paga mal e explora demais. Numa casa sustentada por dois salários mínimos, por exemplo, alimentação e aluguel consomem mais de 60% da renda. Sobram, então, cerca de 900 reais para o resto: transporte, remédios, luz e água, lazer, gás de cozinha, internet, material escolar, roupas, manutenção da casa… Como conciliar a conta zerada e tantos boletos chegando?

Uma das consequências é o endividamento. Ele flagela 80,4% das famílias brasileiras — o maior índice da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). Hoje, 29,7% do orçamento familiar já está comprometido com o pagamento de dívidas. Nesse cenário, comprovar renda para dar entrada num imóvel é simplesmente impossível. E, mesmo as famílias que conseguem fazê-lo, tornam-se prisioneiras da hipoteca: acabam pagando, só em juros, quase o valor de outro imóvel; e as parcelas são grilhões por décadas.

As cidades brasileiras sempre foram marcadas pela grande concentração patrimonial. Em São Paulo, por exemplo, dados de 2020 indicam que apenas 1% dos proprietários concentra 45% do valor imobiliário da cidade. Sobre esse solo desigual, entrou em cena a financeirização da habitação. Mas agora o mercado sacou algo novo: é mais lucrativo alugar do que vender moradias. Muitos apartamentos novos já nascem não para morar, mas como ativos para investidores. Surgem modelos como o multifamily — prédios inteiros construídos exclusivamente para alugar — e a gestão por plataformas de aluguel temporário, que buscam garantir renda fixa aos proprietários. Colocar um imóvel no Airbnb costuma gerar faturamento bruto 20% a 40% maior do que no aluguel tradicional, apesar de exigir mais trabalho de gestão.

O impacto é enorme, pois esse novo modelo tensiona o mercado de locação de longa duração. Ele se concentra em áreas com boa infraestrutura — próximas a turismo, hospitais, universidades — elevando o preço médio para todos e expulsando moradores locais. No Brasil, a regulação dessas plataformas ainda é embrionária, sobretudo se comparada à de cidades como Barcelona e Berlim, que já impuseram restrições para proteger seu parque habitacional permanente.

Há outro fator. Em vários municípios, programas habitacionais vêm sendo substituídos por Bolsa Aluguel — especialmente no contexto de catástrofes climáticas e remoções de áreas de risco. Em São Paulo, por exemplo, uma lei aprovada na gestão Ricardo Nunes, em 2022, criou um mecanismo que acelera remoções ao oferecer indenizações como “solução” habitacional. Quatro anos depois, uma investigação do LabCidade revelou: famílias removidas de moradias consideradas irregulares — em áreas onde a Prefeitura planeja obras ou que a Defesa Civil classifica como de risco — recebem, como indenização, apenas um quarto do valor de uma unidade social adquirida pelo município. E vem o absurdo: a lei prevê essa indenização como atendimento habitacional definitivo. Quem a recebe fica, portanto, para sempre impedido de voltar a receber auxílio-aluguel ou de se inscrever em qualquer programa habitacional — municipal, estadual ou federal. Diante da precariedade do auxílio-aluguel — hoje fixado entre 400 e 600 reais, insuficiente até mesmo para um aluguel nas favelas de São Paulo — e da longa espera por moradia, as famílias acabam pressionadas a aceitar propostas insuficientes. As indenizações, assim, operam como um mecanismo de redução artificial da fila habitacional. 

Como enfrentar esse cenário de crise? Seria possível desmercantilizar a moradia — transicionando da “ideologia da casa própria” para o conceito de habitação como serviço público universal, como é a saúde com o SUS? Afinal, a locação social não deveria ser apenas uma alternativa “menos pior” que a propriedade, mas sim um modelo no qual o Estado mantém a posse do patrimônio e garante aluguéis justos e para quem mais precisa, em vez de alimentar a especulação imobiliária.

Convidamos Paula Santoro, professora de Planejamento Urbano e Regional da Universidade de São Paulo (USP) e uma das coordenadoras do LabCidade, para nos ajudar a compreender a profunda transformação em curso no perfil da moradia no país: o avanço do aluguel. Na entrevista, ela analisa como esse fenômeno é impulsionado pela financeirização da habitação, pela precarização do trabalho e pela insuficiência das políticas públicas — e discute possíveis saídas para um dos grandes dramas do brasileiro: o aluguel que já não cabe no bolso.

Dados do IBGE indicam uma mudança significativa num país onde a casa própria sempre foi um dos principais objetivos de vida: cada vez mais famílias brasileiras vivem de aluguel. O que explica essa transformação?

O fato de as famílias alugarem mais revela uma dificuldade de acesso ao mercado de compra e venda — e também ao financiamento. Isso mostra que o nosso quadro de necessidades habitacionais é, sobretudo, o das famílias de menor renda, sem emprego. Estamos vivendo um mundo do trabalho que se alterou completamente. Essas famílias já não têm empregos fixos, mas trabalhos temporários; ganham uma hora, outra não; têm dificuldade de comprovar renda. E são justamente essas famílias que mais sofrem com o déficit habitacional. Na cidade de São Paulo, 87% das pessoas em déficit habitacional têm renda de zero a um salário mínimo. Quando falamos em política habitacional, estamos falando de uma política voltada para quem não necessariamente tem renda estável, mas precisa ter casa.

Estas famílias, em tese, não poderiam comprometer mais de 30% da renda com habitação, mas estão gastando bem mais do que isso. É claro que esse cálculo é um número meio mágico, do Norte colonizador, que fez uma conta matemática de quanto se gasta para comer, se vestir e se transportar, e definiu que o que sobrasse deveria dar conta da habitação. Mas, muitas vezes, essa conta não fecha: a pessoa deixa de comer para pagar o aluguel, ou vai se endividando. A realidade é muito diferente da narrativa do mercado, que diz: “as pessoas estão alugando mais porque querem morar perto do trabalho”. Como se fosse uma escolha. Mas o que vemos é o contrário: as famílias estão sem escolha — e gastando muito com aluguel. O movimento de moradia costuma dizer que alugar é um perrengue. E o aluguel aparece como fracasso por não ter conseguido comprar a casa própria. 

Como o mercado está atuando frente a este cenário?

O mercado está criando produtos imobiliários voltados para o aluguel. A própria classe média passou a olhar esses produtos como forma de investimento. Quando visitamos estandes de venda, a pergunta é direta: “É para morar ou para investir?” Claramente, foi definido que existe um tipo de imóvel pensado para investimento — ou seja, para ser colocado em aluguel e gerar renda a partir dessa propriedade. Não é só no mercado imobiliário. Há também muitas famílias que viram no aluguel uma forma de complementar a renda, sobretudo entre as mais pobres. A pessoa já ganha muito mal, então aluga a parte de trás da casa para conseguir um dinheiro extra. Ou se aposenta e tem no aluguel uma forma de complementação de renda. O mercado está se ampliando!

Isso é perceptível nos microapartamentos caros no centro e no aluguel temporário. O mercado vem se estruturando em uma espécie de renda fixa. Passou a lançar empreendimentos imobiliários e, ao mesmo tempo, oferecer para quem comprasse a possibilidade de contratar uma gestora privada de aluguéis, que garante essa renda fixa ao proprietário que coloca seu imóvel nesse circuito: mesmo que o imóvel fique vazio, ele continua recebendo — e, muitas vezes, a propriedade é destinada ao aluguel temporário. Muitos imóveis em áreas turísticas, próximas a universidades e hospitais, por exemplo, estão sendo sugados para o mercado de aluguel temporário. Aqueles que antes eram destinados à moradia passam a alimentar este circuito. Com isso, perdemos moradias. Isto ainda não virou pauta dos movimentos de moradia, mas deveria.

O preço do aluguel está ficando mais caro pela competição com o aluguel temporário, que cobra mais caro por períodos curtos — e consegue essa fluidez porque recebe estrangeiros e pessoas de fora. O mercado define o preço. E o preço do aluguel sobe para todo mundo. 

Veja: estamos vendo surgir o modelo multifamily, em que as unidades não são feitas para vender para famílias, mas para serem colocadas nas mãos de uma gestora e alugadas — e inacessíveis para os mais pobres. É a lógica proprietária: “tenho um imóvel, alugo e ganho renda”. É o oposto de uma política baseada na desmercantilização da moradia: aluguel acessível ou totalmente subsidiado pelo poder público para os mais pobres, fora dos preços definidos pelo mercado e com regulação do aluguel temporário.

É um novo ciclo de investida rentista nas cidades?

Estamos vendo uma expansão do aluguel no âmbito das políticas habitacionais. Durante muito tempo, tivemos políticas que simplesmente não olhavam para o aluguel. De repente, o mercado imobiliário diz: “tive uma superprodução, não estou conseguindo vender minhas unidades. Por que não abrir um programa de aluguel?” E, assim, o próprio mercado vai desenhando as políticas públicas, em que o poder público entra com um subsídio, um voucher: R$ 600, por exemplo, e a família precisa complementar o restante do próprio bolso. Quem é dono do imóvel pode alugá-lo pelo preço de mercado — um valor que a família, apenas com sua renda, não conseguiria pagar. Assim, a política pública acaba por garantir o preço de mercado.

A lógica de voucher, a Bolsa Aluguel ou Auxílio Aluguel, se fortalece mais como assistência social do que propriamente política habitacional, já que não garante que a pessoa efetivamente conseguiu uma solução de moradia, pois pode pegar o dinheiro e ir morar com familiares ou em outro lugar. Não existe, de fato, um controle sobre esse recurso. Em São Paulo, cerca de 30 mil famílias estiveram nessa situação de auxílio aluguel, o que afetou, inclusive, o mercado nas áreas precárias. Funciona assim: remove-se uma favela, concede-se esse auxílio enquanto as famílias não recebem a solução definitiva. E para onde essas famílias vão? Como não precisam comprovar que estão alugando um imóvel formal, acabam entrando no próprio mercado informal, geralmente em territórios próximos de onde já viviam, o que acabou provocando uma elevação dos valores dos aluguéis em ocupações e favelas. Tem um caso estudado na FAU, onde dou aula, em Paraisópolis, a partir de uma pesquisa do professor João Meirelles, que observou uma produção imobiliária nas áreas precárias voltada para aluguel. É aquele modelo de térreo mais três andares, tudo colocado para alugar, acompanhado de uma transformação imobiliária do território: sai o barraco, entra um prédio; no térreo, comércio; em cima, casas e apartamentos.

E por que o auxílio-aluguel virou uma das principais políticas habitacionais do país?

Essa solução precária está muito disseminada nos municípios brasileiros. Na última pesquisa do IBGE, mais da metade dos municípios afirmou ter algum tipo de política de aluguel baseada em auxílio-aluguel. Ou seja, é uma política que se espalhou pelo país, pois também atende, por exemplo, situações de desastre ambiental. O que fizeram em Porto Alegre [RS] e Tubarão [ES]? Dar auxílio-aluguel para as famílias irem procurar alguma solução no mercado, sem uma política habitacional articulada a esse instrumento. Precisaremos pensar em estratégias para construir um parque público de moradia. Sabemos que, como resultado das mudanças climáticas, os desastres vão acontecer — e já não dá mais para “a família se virar”. 

Outra tendência que está se ampliando nos governos é o abono pecuniário — o dinheiro dado às famílias na forma de bolsa-aluguel, sem controle efetivo se é destinado à moradia. É uma assetização das políticas habitacionais, transformadas numa espécie de “renda mínima”. A própria política vira um ativo diante das crescentes demandas habitacionais. Em São Paulo, o maior programa habitacional hoje é este auxílio precário. É um fenômeno novo, que articula políticas públicas e produção imobiliária, tanto no mercado formal quanto informal, a partir do aluguel. O poder público diz estar dando uma solução habitacional: remove famílias, concede este auxílio, remove mais famílias, mais auxílios, e assim sucessivamente. Quando o custo fica muito alto, restringe-se o programa: “só receberá por dois anos”, “você precisa se recadastrar”… 

O aumento do aluguel parece estar conectado com a financeirização das cidades. Como esse processo funciona na prática?

É outro fenômeno, mais complexo, e tem a ver com a financeirização. Nossas cidades já não vivem mais do período industrial, da produção, mas da geração de rendas. E o capital imobiliário ocupa um lugar privilegiado, sobretudo em cidades onde o preço da terra é alto. Vemos o setor imobiliário se transformar, de diferentes maneiras, numa frente de investimento.

O rentismo tradicional baseia-se na propriedade como fonte de renda: ser dono já garante ganhos com a valorização do imóvel ao longo do tempo, mesmo que se more nele. Há também o rentismo por aluguel: além da valorização, obtém-se renda fixa com a locação. O setor imobiliário foi fortemente financeirizado — e isso não acontece apenas com o aluguel direto. É possível colocar um imóvel em um fundo imobiliário ou em uma gestora privada de aluguel e receber uma renda fixa. O imóvel se transforma, então, em um investimento estável. Além disso, tanto os fundos quanto os contratos de aluguel, uma vez inseridos no mundo financeirizado, podem ser convertidos em dívida negociável — como os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI). Com isso, criam-se ganhos abstratos e produtos financeiros derivados do fluxo de renda gerado pelo capital imobiliário. O papel privilegiado do aluguel também permite que, numa parceria público-privada, o concessionário produza unidades habitacionais e, em vez de vendê-las, as coloque para aluguel, passando a ganhar renda também nessa parceria. 

Como seria uma política habitacional de aluguel social robusta e mais eficaz? Como o Estado poderia resolver essa questão fora da lógica de captura pelo capital imobiliário?

Seria sair da lógica proprietária, mas até as receitas para isso têm, contraditoriamente, os seus desafios. No caso das políticas sociais, tínhamos programas habitacionais em que o poder público construía as moradias, mantinha a propriedade e destinava essas unidades às famílias, muitas vezes por meio de concessão de uso. Há também o modelo de locação social, como o de São Paulo: as famílias pagam um aluguel abaixo do mercado, pensado para baixa renda, e podem morar ali indefinidamente, sem ameaça constante de remoção. Nos dois casos, a propriedade continua sendo pública. Se a família sai ou melhora de vida, o imóvel retorna ao poder público, que o destina a outra família em situação semelhante de necessidade.

Outra frente é pensar formas de propriedade e gestão coletiva da moradia. Já existe, com muitas aspas, um modelo de aluguel em pequenas unidades de áreas ocupadas — e ele costuma ser bastante inclusivo. Envolve movimentos de moradia e pessoas que não conseguem acessar o mercado formal. O aluguel informal é essencial para quem está com a vida suspensa: egressos do sistema prisional, jovens que saem da Fundação Casa, imigrantes. Essas pessoas não conseguem alugar no mercado formal — então alugam onde podem, muitas vezes em moradias de qualidade razoável. Existe, portanto, um mundo coletivo organizado em torno da moradia que poderia também organizar formas de aluguel — não apenas com preços acessíveis, mas voltadas para famílias que, por vários motivos, não conseguem acessar o mercado formal.

Pensar a lógica proprietária em contraste com a propriedade pública e coletiva é central para enfrentar a renda gerada pelo aluguel — já que essa renda se baseia justamente na lógica proprietária. O problema é que a política habitacional atual tem reforçado essa mesma lógica. O maior programa habitacional de São Paulo hoje é o “Pode Entrar Aquisição”, da Prefeitura, que compra imóveis diretamente no mercado — imóveis que o próprio mercado disponibiliza por meio de edital de chamamento público.

Estamos vendo gerações inteiras refinanciando hipotecas, com juros que saem de 6% e vão para 17%, 18%. Ou seja, você passa a viver para pagar a hipoteca — aquilo que os norte-americanos chamam de “prisioneiros da hipoteca”. E a gente está ficando igual. Ontem mesmo vi uma notícia sobre os níveis de inadimplência e endividamento no Brasil, que são altíssimos. A gente refinancia uma coisa, vêm mais juros, mais juros, e assim por diante. No fim, estamos pagando duas vezes pela habitação: pagamos uma vez pela casa e outra pelos juros.

O problema é que, hoje, é mais fácil para a política simplesmente comprar do mercado do que produzir moradia diretamente. Temos um Estado falido: ele não produz unidades habitacionais, mas também não regula, não garante qualidade e não controla o preço do aluguel ofertado. No Brasil, nunca vi isso de forma estruturada — embora já tenhamos tido experiências importantes. Nos anos 1940, no governo Getúlio Vargas, houve congelamento de aluguéis, mostrando que a ideia não é nova. Também já existiram políticas que entendiam o aluguel como serviço habitacional. No Rio de Janeiro, nos anos 1940, Carmen Portinho — arquiteta bastante estudada — coordenou experiências que defendiam o aluguel como serviço de moradia nos grandes conjuntos habitacionais públicos. Ou seja, já houve ensaios relevantes. É algo possível.

As experiências internacionais de movimento de inquilinos, como na Espanha, que busca frear aluguéis altíssimos, podem inspirar ações no Brasil? Qual seria o caminho para não deixar o capital imobiliário livre e solto, e conter essa financeirização?

Hoje, o poder público opera como garantidor do mercado de aluguel e imobiliário: “Não conseguiu vender? Eu compro. Não conseguiu alugar? Crio uma política e subsidio parte do aluguel para a família conseguir pagar.” Isso representa a substituição da provisão por uma monetização da habitação. Uma lógica contrária exigiria outra pergunta: o que é considerado serviço de moradia? Há disputas teóricas em torno disso.

A situação pode piorar — e os mundos de extrema-direita e neoliberais radicais podem levar a isso. Na América Latina, vemos retrocessos. Na Argentina, Milei cancelou a Lei do Inquilinato, que equilibrava a relação entre proprietários e inquilinos. Ao deixar tudo nas mãos do mercado, você pode se mudar e logo depois ser forçado a sair, ao bel-prazer do proprietário. É um mega retrocesso. Há hoje uma campanha muito forte para que a lei seja restaurada.

Uma das lacunas é a necessidade de regular bem o aluguel como um todo — não apenas o temporário. Às vezes, a regulação é tão tradicional que beneficia mais o proprietário do que o inquilino, como no caso chileno. É preciso ter governos que entendam o equilíbrio de interesses e o cuidado com quem vive nas propriedades. No Brasil, temos alguma regulação do aluguel temporário e uma Lei do Inquilinato que todos tentam burlar, mas que ainda preserva um mínimo que conseguimos manter. As pautas incluem, por exemplo, a ampliação do parque imobiliário destinado à locação de longa duração. Outra reivindicação muito presente é a ampliação das garantias aos inquilinos. Isso porque, no mercado atual, muitos inquilinos precisam até pegar empréstimos para pagar caução ou deixar três meses de aluguel adiantados. Esse dinheiro fica parado e às vezes nem volta para o inquilino no final do contrato.

A grande preocupação é pensar uma regulação voltada para os inquilinos, porque esse universo de inquilinos provavelmente vai se ampliar — por causa das mudanças climáticas, dos abonos pecuniários que os governos oferecem como solução habitacional ou da própria dificuldade crescente de comprar um imóvel. A política da casa própria nunca foi para todo mundo, e não é possível acreditar que um dia ela chegará para todos, apesar de termos imóveis disponíveis. Nenhum país que eu conheça zerou seu déficit habitacional. Estamos falando de um mundo que já não atende a todos e que está se tornando cada vez mais inacessível.

Mas e quanto à regulação das plataformas?

Primeiro, é preciso entender que as plataformas de aluguel temporário estão, sim, alugando imóveis e, portanto, têm responsabilidade sobre esse aluguel. O argumento delas é que oferecem um serviço habitacional — e, sendo um serviço, não seria exatamente habitação. Assim, há uma disputa em torno da ideia de “serviço”, usada justamente para escapar da regulação. Hoje se discute se o aluguel temporário deve ser enquadrado como aluguel, conforme define o Código Civil brasileiro.

A segunda questão presente no debate é como tributar esse aluguel. Várias reformas tributárias tentaram fazer o “match” entre quem aluga, quem oferta o imóvel e quem é inquilino — justamente para evitar evasão fiscal. As plataformas têm um papel importante nisso: já operam sistemas de cobrança e poderiam recolher e repassar os impostos, auxiliando no controle. No fundo, o que elas fazem são contratos atípicos — não é locação, nem hospedagem. Essa indefinição interessa muito tanto às proprietárias quanto às plataformas.

Mas, para além da regulação tributária, há um impacto urbano do aluguel temporário. A oferta se concentra em determinadas áreas da cidade: regiões turísticas, próximas a universidades, hospitais, locais de shows. Isso exige pensar em restrições, inclusive quantitativas. Por exemplo: limitar a quantidade de imóveis por anfitrião, para evitar grande concentração nas mãos de poucos proprietários — que acabam, assim, tendo poder para determinar os preços nesse mercado.

Poderiam ser adotadas, por exemplo, restrições como a limitação da quantidade de dias ou de visitantes por ano — ou seja, quantas vezes uma habitação pode ser alugada. Estabelecer limites de oferta em determinadas áreas da cidade, impedindo novas unidades voltadas para esse tipo de aluguel. É uma medida, claro, difícil de gerir. E restrições qualitativas: definir o tipo de acomodação, requisitos de segurança e outras condições para esse tipo de oferta.

Soluções como estas estão se tornando muito centrais nas cidades, especialmente na Europa.

Sim. Barcelona quer eliminar gradualmente as licenças das plataformas até 2028. Berlim proibiu totalmente em 2014 e retomou com restrições em 2018. Nova York permite apenas o aluguel de partes da casa com o proprietário presente. O olhar sobre o aluguel temporário considera que ele pode ser interessante para a economia local e para as famílias quando funciona como complemento de renda ou está em áreas sem oferta de hotéis. Além de regular o mercado de aluguel temporário, é preciso também controlar os preços, para que eles não afetem o mercado de estadia de longa duração. O problema é quando o aluguel temporário vira um negócio concentrado nas mãos de proprietários que possuem muitas unidades — mais de dez imóveis, por exemplo. Em Londres, há empresas que controlam metade do mercado de aluguel. São as chamadas senhorias corporativas.

Agora vemos Nova York discutindo o congelamento do aluguel, o chamado freeze the rent. Nova York é um exemplo de como a moradia se transformou numa luta por direitos. O prefeito eleito Mandami tem feito coisas interessantes: colocado a sociedade civil para pensar o preço-teto do aluguel, tentado congelar o aluguel em algumas áreas e limitar a compra de unidades em massa por empresas. Tudo isso num contexto em que o aluguel está caro, existem poucos proprietários e eles tentam não diminuir o parque de aluguel controlado. Mas não é porque o imóvel tem teto que a situação é segura para todos. Em Nova York, grande parte do aluguel privado é paga com dinheiro público, por meio de vouchers para as famílias. E aí vemos: quando o mercado quer ampliar o aluguel, ele corta o aquecimento central. Há formas de despejo muito violentas. Isso parece um mundo ideal, um modelo norte-americano? Não. Mesmo com preço controlado, a pressão sobre os inquilinos continua sendo muito forte.

O debate está avançando no Brasil ou ainda é muito tímido? 

Está tudo muito embrionário. O grande desafio é transformar o debate sobre o impacto urbanístico do aluguel temporário numa luta por moradia — tirar essa discussão do campo da renda e recolocá-la no campo do direito à moradia. É o movimento de moradia dizer: “Estamos cansados de perder moradia no centro para o aluguel temporário, para essa lógica da renda.A gente quer morar, a gente quer viver.” Vamos ter que entender — e isso é muito difícil, porque parece algo abstrato, distante da vida cotidiana, difícil de mobilizar — que a expansão do aluguel temporário afeta diretamente o acesso à moradia de quem precisa dela.

Enquanto isso, o movimento de moradia ainda concentra sua energia em conseguir algumas unidades habitacionais. Os governos estão comprando imóveis no mercado. E parte dessas unidades também vai para os movimentos. Então existe um certo apaziguamento da luta, na medida em que alguma coisa está sendo entregue. Mas onde está a luta contrária? Onde está o momento em que as pessoas percebem que isso afetou concretamente suas vidas e transformam isso em movimento? Está muito difícil. Porque, em tese, ainda existe um Minha Casa Minha Vida Entidades. É pouca coisa — poucas unidades, 1% do orçamento, poucos recursos —, mas isso não se transformou em luta política. Estamos num momento muito difícil de perceber isso.

   

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