GUERRA CONTRA O IRÃ PREJUDICA PRETENSÕES ELEITORAIS DE TRUMP E NETANYAHU, MOSTRAM PESQUISAS
afinsophia 15/04/2026 0
BATATAS ASSAM
Estadunidenses não veem vantagens no conflito e isralenses, na paz
- SÃO PAULO (SP)
- RODRIGO DURÃO COELHO
A maioria dos estadunidenses entende que entrar em guerra com o Irã não valeu a pena, enquanto a maior parte dos israelenses está frustrada com o possível fim do conflito, sem alcançar as metas anunciadas por Tel Aviv de derrubar o governo iraniano. As pesquisas de opinião são péssimas notícias tanto para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quanto para o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, que enfrentam eleições no segundo semestre.
À medida que os EUA avançam com o bloqueio do Estreito de Ormuz e a restrição do tráfego de petroleiros iranianos, 54% afirmam que a ação militar americana no Irã teve um impacto predominantemente negativo em sua situação financeira pessoal. Essa visão é compartilhada pela maioria dos democratas (65%) e independentes (56%), bem como por 40% dos republicanos.
As opiniões sobre os impactos mais amplos do conflito nos EUA e no Oriente Médio continuam a apresentar uma tendência negativa. Mais estadunidenses acreditam que a qualidade de vida da população do Irã irá piorar (51%) em vez de melhorar (17%) no próximo ano. As opiniões são semelhantes em relação à estabilidade no Oriente Médio — 52% dizem que vai piorar; 19% dizem que vai melhorar.
Os Estados Unidos se preparam para mais um ciclo eleitoral, com as eleições de meio de mandato de 3 de novembro definindo o tamanho do poder no Legislativo de Trump nos dois últimos anos de seu mandato. Todas as cadeiras da Câmara dos Representantes estarão em disputa, assim como um terço do Senado.
O Partido Republicano de Trump controla atualmente ambas as casas do Congresso, mas pesquisas indicam uma tendência de queda para os democratas, que retomariam o controle da Câmara. Analistas acreditam que o conflito com o Irã e suas repercussões, principalmente o aumento do custo de vida que deve ocorrer nos próximos meses, podem ser fatais para as esperanças do partido de manter, por uma margem apertada, o controle da Câmara. O analista político James Green disse ao Brasil de Fato concordar com essa visão, afirmando que Trump deve “perder o controle da Câmara e talvez o Senado”.
“A guerra realmente está desmoralizando a sua base e, se 2% ou 3% de seus eleitores não votarem — o voto é opcional nos Estados Unidos — e os democratas mobilizarem mais as pessoas, não somente Trump perde a Câmara, mas pode sofrer uma derrota fortíssima, que indica o enfraquecimento do seu movimento”, afirma o professor emérito da Brown University, em Rhode Island.
Green ressalta que um importante setor do eleitorado republicano é frontalmente oposto ao envolvimento dos EUA no exterior — o que inclusive foi bandeira eleitoral quando Trump foi eleito — e, ainda mais importante, os efeitos da aventura militar vão ser sentidos no cotidiano das pessoas.
“Daqui a um mês e meio começam aqui as férias do verão americano, época em que as pessoas adoram viajar internamente dentro dos Estados Unidos, e vai ser muito difícil fazer isso com preço do petróleo como está nesse momento”, afirma o analista.
A editora do People’s Dispatch, Zoe Alexandra, afirmou à reportagem que as pesquisas confirmam que a maioria da população dos Estados Unidos não apoia a guerra, nem sua política externa e interna agressiva. Mas outros assuntos também devem prejudicar seu desempenho nas urnas.
“Desde janeiro, o governo Trump realizou uma série de ações ilegais contra pessoas em todo o mundo e nos Estados Unidos, o que gerou indignação em massa. Das greves gerais em Minnesota, nos dias 23 e 30 de janeiro, contra os assassinatos de cidadãos americanos que protestavam contra a política de imigração de Trump, às manifestações com milhões de pessoas contra Trump e sua gestão do caso Epstein, como os protestos do Dia de Reis, o sentimento nas ruas é cristalino”, diz ela.
“Trump está se encurralando cada vez mais, e agora os números das pesquisas também refletem isso. Trump e o Partido Republicano estão, obviamente, em pânico com as eleições de meio de mandato em novembro e terão dificuldades para se recuperar dos seus sucessivos fracassos nos últimos meses, mas, ao mesmo tempo, os democratas ainda lutam para sobreviver, enfrentando seus próprios escândalos”, afirma.
Israel
Já em Israel, o cenário é também ruim para Netanyahu, mas por motivos opostos. Pesquisa do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS) revelou que 61% dos israelenses se opõem ao cessar-fogo entre EUA e Irã, anunciado pouco antes do prazo final imposto por Trump.
A sensação predominante é de frustração, pois o governo israelense havia prometido a queda do regime iraniano e o fim de seu programa nuclear, objetivos que não foram alcançados. A pesquisa mostra que a descrença na paz é alta: 73% dos entrevistados acreditam que os combates contra o Irã serão retomados dentro de um ano.
O sentimento é que a guerra iniciada em 28 de fevereiro de 2024 falhou em entregar a “vitória histórica” prometida pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Apesar do custo econômico e humano, o governo iraniano permanece de pé, com seu arsenal de mísseis parcialmente preservado e controle estratégico sobre o Estreito de Ormuz.
A maioria dos israelenses (69%) apoia a continuidade dos ataques no Líbano, que não foram incluídos no cessar-fogo e já resultaram em centenas de mortes na última semana. Analistas israelenses sugerem que Israel perdeu autonomia em sua política externa, tornando-se um “protetorado” que segue as instruções de Washington, algo que a oposição utiliza para atacar Netanyahu.
O primeiro-ministro enfrenta duras críticas tanto da esquerda quanto da direita. Seus rivais, como Yair Lapid e Yair Golan, acusam-no de mentir sobre a capacidade de vitória e de aceitar uma “capitulação” perante os EUA. Especialistas apontam que a falha em derrotar o Irã impede Netanyahu de desviar o foco público das falhas de segurança do 7 de outubro e da guerra em Gaza, consolidando sua imagem associada a desastres estratégicos.
Já em Israel, comentaristas políticos dizem que em relação aos possíveis resultados das eleições para o Knesset, as pesquisas sugeriram que a guerra não impediria Netanyahu de perder o poder.
A maioria dos entrevistados atribuiu notas baixas à liderança política, em contraste com a avaliação que fizeram da liderança militar.
Em pesquisa do Canal 12, os entrevistados foram questionados sobre quem seria o mais indicado para o cargo de primeiro-ministro. Os resultados mostraram Netanyahu ainda à frente de todos os rivais, embora o ex-chefe militar Gadi Eisenkot estivesse reduzindo a diferença. Em um confronto direto, Netanyahu liderava com 39% contra 35%.
No entanto, se as eleições fossem realizadas hoje, todas as três pesquisas indicaram que Netanyahu perderia o poder. A coalizão governista cairia de suas atuais 68 cadeiras para 49-51, enquanto a oposição conquistaria de 59 a 61 cadeiras, incluindo os partidos árabes, que devem garantir 10.