“QUANDO UMA MULHER ESCREVE, ELA TRAZ MUITO DE OUTRAS MULHERES”, AFIRMOU MAR BECKER, VENCEDORA DO APCA EM POESIA
afinsophia 04/02/2026 0
AMOROSO E TERRÍFICO
A autora gaúcha disse que foi surpreendida com a notícia do prêmio na categoria de livro de poesia
Ao ser avisada por um amigo que sido escolhida como vencedora na categoria poesia na premiação anual da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), a gaúcha Mar Becker inicialmente duvidou. “Vamos parar que tu tá me tirando”, respondeu. Mas a notícia era real. Noite Devorada, publicado pela Editora Fósforo na coleção Círculo de Poemas, foi a obra escolhidas pelos críticos paulistas.
“Fiquei muito feliz, claro, porque é um outro tipo de reconhecimento para o meu trabalho, e é a primeira vez que eu recebo um prêmio maior”, contou, em entrevista ao Conversa Bem Viver desta quarta-feira (4). “Claro que a gente sabe também que premiar, muitas vezes significa, também, deixar de lado outros livros tão bons, tão imensos”, prosseguiu, elogiando os trabalhos de alguns de seus colegas.
Nascida em Passo Fundo (RS), Mar Becker já publicou A Mulher Submersa (Urutau, 2020) e Sal (Assírio & Alvim Brasil, 2022), que foram reunidos em Portugal no volume Canção Derruída (Assírio & Alvim, 2023). Ela foi finalista do Jabuti com seu primeiro livro e recebeu os prêmios Minuano e da Associação Gaúcha de Escritores.
Em Noite Devorada, a autora afirma que apresenta um discurso de amor, mas também “um discurso terrífico que corre ao fundo”. “Amar outra pessoa é se deixar atravessar por ela, é deixá-la tocar nos nossos próprios lutos, nos nossos amores perdidos, nas primeiras experiências de perda”, disse.
“Eu não sou a última palavra em relação ao Noite Devorada, embora tenha escrito o livro. Acho que há diversas leituras possíveis, mas é assim que eu encaro aquilo que está ali”, completou.
Confira a entrevista completa
Brasil de Fato: Como que foi a recepção do prêmio? Você já esperava? Você já tinha sido indicada para Jabuti, outras grandes premiações importantes, tem livros traduzidos para o francês, publicações em Portugal…
Mar Becker: Eu não esperava. Eu fiquei muito tocada com uma situação do cachorro Orelha, que a gente viu no comecinho desse ano. Eu tenho dois cachorros e faço resgate [de animais] também. Então, o assunto me tomou completamente. No dia da notícia [da premiação], eu estava totalmente tomada, eu nem tava prestando atenção.
E aí o Ewerton [Ulisses Cardoso, editor] da revista O Odisseu, que que é meu amigo – e eu acompanho o trabalho da revista já faz um tempo, admiro muito – ele veio falar: “Parabéns pelo APCA”. A gente brinca muito, eu e ele, eu falei assim: “Ah, tu tá me tirando”. Eu falei: “Vamos parar que tu tá me tirando”. E ele: “Não, Mar, tá aqui”.
Então, foi inesperado para mim, embora o Noite Devorada já mostrasse uma boa recepção aqui, na edição em Portugal, também. Eu já já vinha percebendo do público uma leitura muito positiva em relação a esse livro. Agora, a gente sabe que nem sempre a recepção do público corresponde a uma posição de importância em prêmios. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Eu vinha percebendo muito do público. Não tinha noção prêmio.
Fiquei muito feliz, claro, porque é um outro tipo de reconhecimento para o meu trabalho e é a primeira vez que eu recebo um prêmio maior.
Claro que a gente sabe também que premiar, muitas vezes significa deixar de lado outros livros tão bons, tão imensos. Eu costumo ler poesia fazendo a minha estante particular, é muito raro que eu vá me basear naquilo que entrou em listas. Eu tenho por hábito um tipo de exploração da poesia muito espontâneo. Vou pela internet, aí eu percebo um autor, às vezes nem é alguém conhecido. Às vezes é alguém que nem tem livro publicado e no entanto me toca profundamente e eu já fico com o olhar bem atento.
Essas premiações de alguma maneira são enviesadas, porque a gente sabe que são pessoas que a princípio são super capacitadas, leram uma grande gama de livros, então têm um domínio sobre o que estão fazendo, mas são opiniões, são pessoas…
Eu acho que 2025 foi um ano em que foram publicados muitos livros bons. Só da minha estante, só do que eu fui acumulando, eu mesmo não saberia quem premiar, porque é muita gente muito boa, e são muitos títulos muito tocantes, escolhas estéticas que vão para direções diferentes, mas que mostram envergadura naquilo que propõem.
Quando tu faz alguma lista ou quando elege algum livro, faz um recorte. E esse recorte, deixa de lado outras propostas estéticas que são tão grandes quanto, que são tão boas quanto. A gente tem jurados muito capacitados para fazer isso. Mas perguntar para mim quem é o autor que mais gosto, qual é o poeta, qual é o livro que mais tocou na minha vida, aí eu vou precisar assim de umas 10 opções. Eu não vou conseguir selecionar. Se eu selecionar uma, eu vou pensar: “Ai, mas tenho tal que naquela fase da minha vida, ou que naquela situação foi muito importante”.
Então, acho que o recorte por si já é uma eleição e acaba editando um pouco o contexto. Mas claro que é muito interessante e muito bom, também.
Como você vê a luta por igualdade de gênero em relação à publicações na literatura?
Eu sinto que esse movimento tem ganhado força. Não é de hoje que ele vem ganhando força. Eu sinto que as mulheres trabalham a partir da emergência de certos temas que não se vê ganhar tanto destaque na escrita feita por homens. A minha atual leitura, aquilo que eu tenho lido, tem sido muito atravessado pelo que mulheres escrevem. O meu diálogo tem sido muito com mulheres, também. Alejandra Pizarnik, Maria Gabriela Llansol, Hilda Hilst. Citei aqui Portugal [Llansol], Argentina [Pizarnik], Brasil [Hilst]. Essas três estão muito no esteio daquilo que eu tentei desenvolver no Noite Devorada.
Acho que as mulheres têm publicado muito, esse movimento tem crescido, sinto como positivo. Talvez em um primeiro momento as questões de identidade viessem com muita força, e hoje a gente percebe que que elas estão ainda presentes, mas mulheres têm trabalhado com uma diversidade muito grande de outros temas. Também têm entrado em searas diversas.
O próprio Noite Devorada é um livro sobre amor. Tantos homens escreveram, tantos poetas escreveram sobre amor. Eu falava agora da Hilda [Hilst], que é muito recente, também e que influenciou muito o desenvolvimento desse tema no Noite.
Acho que as mulheres também têm se apropriado daqueles temas que até então eram considerados mais universais e de apropriação muito da mão escrevente masculina, por assim dizer. E isso é muito interessante. Elas trazem um quinhão de experiência própria que até então não tinha ganhado luz, pelo menos não dessa maneira. E isso é enriquecedor em termos de legado para a humanidade, em termos de expressividade, da língua, de lugares a serem explorados pela língua. Então, para mim é riquíssimo. E torço para que ganhe mais e mais força.
Em conversa com a Adriana Garcia, que é uma poeta contemporânea que me toca muito, ela fala também muito sobre esse movimento de mulheres que têm escrito e que vêm se engrandecendo e dialogando. Nós temos pares mulheres. Mulheres conversam com outras mulheres que escrevem o tempo todo e são atravessadas mutuamente nesse trabalho.
É um gesto político falar de amor? Como é essa relação?
Eu sinto, na verdade, que o Noite Devorada é um livro sobre a vulnerabilidade antes de ser um livro sobre amor. Eu sinto que o amor nos põe em estado de abertura que também nos coloca vulneráveis. Acho que o amor pode atravessar todo tipo de vínculo.
No segundo caderno do Noite Devorada, aparecem as filhas, as meninas, a mãe e um sentimento até de terror que está presente no livro. Existe uma abertura, existe um corpo que se vulnerabiliza e que na medida em que se vê fragilizado, que se vê aberto, se sente em risco, se sente em ameaça. Ele é ameaçado pelo outro nesse sentido.
Eu sinto que há esse discurso, essa lírica amorosa no Noite Devorada, mas também há um discurso terrífico que corre ao fundo, como certeza de que qualquer vinculação carrega no seu próprio seio algum risco. Amar outra pessoa é se deixar atravessar por ela, é deixá-la tocar nos nossos próprios lutos, nos nossos amores perdidos, nas primeiras experiências de perda, por exemplo.
A história do amor carrega em si, no próprio seio, a história da solidão, a história dos abandonos, a história dos lutos. E acho que nesse sentido, o Noite Devorada pode também ser lido como um livro político. Não se faz nenhum tipo de discurso, não se faz nenhum tipo de linguagem sem se fazer política – nesse sentido amplo, nesse sentido lato de política.
O uso da própria linguagem é um uso que vem de uma apropriação de um instrumento social que é comungado entre pessoas, Então, sim, há uma apropriação política, é uma mulher falando de amor, é uma mulher falando desde a casa, desde o quarto, que até então eram ambientes que não apareciam muito na língua.
Até um tempo atrás, alguns homens liam a minha escrita e torciam um pouco o nariz, dizendo: “Nossa, mas é a casa, é o ambiente privado, são as experiências privadas”. E eu sempre pensei comigo mesma que não há nada de mais universal do que a casa, do que a vinculação, do que a maternagem, do que as perdas primeiras, do que a infância. Todos nós passamos por alguma infância. Todos nós tivemos algum tipo de de tutoria, seja boa, seja má, seja traumática. Então, acho que sim, que é um livro atravessado por política nesse sentido.
É um livro em que o discurso amoroso aparece no raso, mas corre também pela superfície com todo aquele indício de pavor, de terror, próprio às trocas humanas, também. Então é assim que eu leio.
Eu não sou a última palavra em relação ao Noite Devorada, embora tenha escrito o livro. Acho que há diversas leituras possíveis, mas é assim que eu encaro aquilo que está ali.
A repórter Victoria Damasceno, da Folha de S. Paulo, escreveu sobre sua participação na Flip dizendo: “A obra de Mar Becker já foi descrita como ‘evânica’. A descrição faz referência a Eva, responsável por levar a raça humana ao sofrimento e à morte, segundo a Bíblia”. Como você encarou quando ela publicou isso?
Esse termo foi usado no posfácio do livro Sal. Quem escreveu foi José Francisco Botelho, e acho que ele trouxe esse termo para falar de certa imagem de arquetipia que tem a figura da mulher no Sal, que é um livro que trabalha muito a partir da imagem da mulher dentro da casa. Há algumas sessões que são específicas sobre a casa, que se debruçam sobre os objetos da casa e há essa figura feminina ali que pode ao mesmo tempo ser uma só mulher, mas pode ser também uma legião de mulheres. Ela não tem uma individualidade específica, pode ter um rosto de sombra que que emerge em qualquer uma.
Eu sinto que quando uma mulher escreve, ela também traz muito de outras mulheres e traz muito da história da mulher na cultura. Tem um pequeno dizer da Virginia Woolf, no livro Um Teto Todo Seu, que ela fala que se as paredes das casas pudessem fazer literatura, o quanto essas paredes não trariam daquilo que foi partilhado por mulheres, daquilo que foi calado por mulheres que estavam ali cerceadas no ambiente doméstico. É muito recente na história da mulher a saída para o mundo do trabalho, a saída para apropriação de papéis e funções que até então eram majoritariamente dominados por homens. Isso é muito recente.
Quando a mulher escreve, quando eu escrevo, quando a Aline [Bei] escreve, se apropriando desses lugares que são culturalmente ocupados por mulheres: a casa, o lar, a maternidade, o corpo como também um lugar a partir de onde se pode fazer poesia, onde se pode fazer literatura e expressar demandas próprias ao lugar da mulher. Acho que quando a mulher faz isso, ela traz alguma coisa de Eva, ela traz alguma coisa de evânico nesse sentido, porque ela tá recuperando uma história que a antecede, uma história que compõe uma cicatriz no modo como esse lugar da mulher foi elaborado na civilização e na cultura.
Claro que eu falo a partir da cultura ocidental. Também há especificidades. Eu sou uma mulher gaúcha, do interior do Rio Grande do Sul. A casa que aparece lá é uma casa onde o frio, os agostos são muito difíceis, por exemplo, as janelas embaçam. Essas são as características do meu interior próprio, mas também encontram reverberação no interior de Adriana Garcia, talvez no interior da Adélia [Prado], que está lá também. Há esse sentimento religioso, também, que cruza a minha escrita, que cruza a escrita da Adélia. Então, acho que são experiências que ressoam, que fazem reverberação.
Nesse sentido, acho que talvez nós todos carregamos alguma coisa de Eva, alguma coisa de de Lilith, talvez. E por aí vai.