FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO AMAZONAS: DESAFIOS E ESPERANÇA DE UMA CONSTRUÇÃO COLETIVA
EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO AMAZONAS: DESAFIOS E ESPERANÇA DE UMA CONSTRUÇÃO COLETIVA
José Alcimar de Oliveira *
A terra sempre foi toda a alegria do índio. O índio desposou a terra. Sente que ‘a vida vem da terra’ e volta à terra. Finalmente, o índio pode ser indiferente a tudo, menos à posse da terra que suas mãos e seu alento lavraram e fecundaram religiosamente (José Carlos Mariátegui, 1894-1930)
01. Neste 2026, de 26 a 30 de janeiro, em Manaus, no coração da Amazônia Ocidental, professoras e professores indígenas de todo o Estado do Amazonas estão reunidas e reunidos, unidas e unidos, movidas e movidos por uma só força coletiva e por um só objetivo comum: enraizar e qualificar a educação escolar indígena como um direito dos povos originários e um deverconstitucional do Estado brasileiro em âmbito federal, estadual, distrital e municipal. Immanuel Kant (1724-1804) considera “um crime contra a natureza humana” negar às pessoas o direito ao conhecimento, porque avançar no “caminho do esclarecimento” é uma “determinação original” do ser humano.
02. Sem a potência da organização política, da formação permanente e do protagonismo dos povos originários não haverá caminho, não haverá saída, nem presente, nem futuro para a construção de um projeto de educação escolar indígena que responda a duas exigências inegociáveis: ser escolar enquanto um sistema orgânico, estruturalmente projetado para esse fim, e ser indígena enquanto um sistema educativo capaz de respeitar e afirmar a autonomia cultural de cada povo.
03. A primeira exigência, de natureza escolar, é a de garantir uma política educativa com um padrão de qualidade universal, o que inclui tanto a especificidade arquitetônicaindígena do prédio a ser construído quanto a formação docente das professoras e dos professores que vão trabalhar nessa modalidade educativa. A educação escolar indígena não pode ser um arremedo do que Durmeval Trigueiro Mendes chamava de “meia-educação”, que até hoje o Estado brasileiro continua a oferecer ao seu povo: “Se o ‘desengrossamento’ do povo, até a limpidez, é tão dispendioso e ‘incerto’, por que não admitirmos a meia-educação”?
04. A segunda exigência, de natureza ontológica, diz respeito à especificidade indígena desse modelo de educação escolar, o que implica o desafio cultural de construção de uma convivência simbiótica, anticolonialista e anticapitalista entre o mundo cartesiano dos brancos e o mundo multidiverso dos povos originários. Diferentemente do dualismo que caracteriza o dominante paradigma cartesiano da cultura ocidental, a matriz indígena do conhecimento não dicotomiza natureza e cultura. A cultura não se constrói contra a natureza. Os indígenas sabem, como escreve Mariátegui, que “a vida vem da terra e volta à terra”. “A terra sempre foi toda a alegria do índio”.
05. O que faz da cidade uma cidade? Desta palavra – polis, em grego – procedem os conceitos de política, cidadania e cidadão. É possível uma cidade apartada do ideal da cidadania? Ou uma cidade sem lugar para cidadãs e cidadãos? E se ao conceito de cidadania for adicionado o qualificativo indígena? Que cidadania Manaus e as demais cidades do Amazonas (e do Brasil) oferecem aos seus habitantes indígenas? Que lugar destinam aos descendentes dos povos que resistem para existir?Os indígenas que moram em Manaus têm direito a nome? Aqui vale uma comparação entre a grande São Paulo, cidade onde se registram inúmeros nomes indígenas de povos dizimados, e a Amazônia de Manaus, sempre incomodada com a presença de sua pluriétnica população indígena, sem direito formal e material de viver de acordo com a ontologia que sustenta seus nomes. Por isso temos: tantos nomes indígenas sem povos em São Paulo e tantos indígenas urbanos sem nomes em Manaus. A política anti-indígena da cidade de Manaus é uma afronta às suas origens e ao seu próprio nome.
06. Reproduzo de José Carlos Mariátegui (1894-1930), a quem recorri para epigrafar este breve texto, a sua revolucionária visão política sobre a relação entre luta indígena e socialismo:
A fé no ressurgimento indígena não provém de um processo de ‘ocidentalização’ material da terra quéchua. Não é a civilização, não é o alfabeto do branco, o que levanta a alma do índio. É o mito, é a ideia da revolução socialista. A esperança indígena é absolutamente revolucionária. O próprio mito, a própria ideia, são agentes decisivos no despertar de outros velhos povos… em colapso (…). A história universal tende hoje como nunca a se reger pelo mesmo quadrante. Por que haveria de ser o povo incaico, que construiu o mais desenvolvido e harmônico sistema comunista, o único insensível a essa emoção mundial? A consanguinidade do movimento indigenista com as correntes revolucionárias mundiais é demasiado evidente para que seja preciso documentá-la. Já disse que cheguei à compreensão e à valorização do indígena pela via do socialismo. (…) Valcárcel resolve politicamente seu indigenismo no socialismo. [Afirma] que o “proletariado indígena espera seu Lênin”. A linguagem de um marxista não seria diferente.
(…) O socialismo nos ensinou a colocar o problema indígena em novos termos. Deixamos de considerá-lo abstratamente como problema étnico ou moral para reconhecê-lo concretamente como problema social, econômico e político.
07. Rodrigo Montoya Rojas, que escreve o Prólogo da Edição Brasileira dos irredentos Sete ensaios de interpretação da realidade peruana(leitura que recomendo a cada participante desse Encontro Estadual de Educação Escolar Indígena em Manaus, em 2026), de autoria de José Carlos Mariátegui, afirma que “o pecado original do Peru é ter se formado sem o índio e contra o índio” e que é uma necessidade política “dar à luta indígena um caráter de luta de classes”. A luta indígena é também luta de classes, luta anticapitalista. Não há como pensar o incontornável bívio civilizatório entre socialismo ou barbárie sem que a tradição do materialismo histórico e dialético não reconheça o estatuto socialista do modo indígena de ser e pensar. Não há capitalismo sem catástrofe ambiental e humana. Nós, os que lutamos, se não nos apropriarmos da “esperança indígena”, esperança “absolutamente revolucionária”, nas belas palavras de Mariátegui, não temos como recuperar a alegria do bem-viver dos povos indígenas.
É preciso que a terra volte a ser, ainda em diálogo com o Amauta, “toda a alegria do índio”, porque ele sabe, mais ainda, “sente que a vida vem da terra e volta à terra”. Capital mais indígena do Brasil, Manaus poderia se converter na Capital Ecológica do Mundo. Diria mais: pela diversidade de sua população indígena, que luta pelo direito à cidade, Manaus guarda potencialidade ontológica e política para se converter na mais irredenta e organizada Comuna Indígena Pluriétnica do Brasil. Que cidade do mundo, do porte de Manaus, pode se ver e se banhar nas águas de um rio tão belo quanto o Negro, que geometriza sua geografia? Apartada de suas raízes indígenas, de seu saber originário, como manter viva essa geografia? Para nós, docentes da ADUA – Seção Sindical do ANDES – Sindicato Nacional, é um dever reforçar a luta coletiva dos nossos parentes originários pela construção de uma Educação Escolar Indígena enraizada nos valores que sustentam seu milenarmodo de viver e de pensar.
* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e obteve o mestrado e o doutorado. É também teólogo franciscano ex corde e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Desde Manaus, AM, em janeiro de 2026.