“MILTON SANTOS NOS ENSINOU A ENXERGAR A AMÉRICA LATINA NO MUNDO”, DISSE SUA NETA, NINA SANTOS NO ANO DO CENTENÁRIO DO GEÓGRAFO

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CONVERSA BEM VIVER

Nina Santos defende que avô segue atual e comenta sobre a importância do seu legado acadêmico e político

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Nascido na Bahia, se estivesse vivo, Milton Santos completaria 100 anos em maio de 2026| Crédito: Itaú Cultural (autor desconhecido)

Neste ano, comemoramos o centenário do cânone da geografia crítica, Milton Santos. Nascido na Bahia, em maio de 1926, este ano marca seu centenário. Santos era reconhecido internacionalmente por sua contribuição a debates sobre globalização, desigualdades socioespaciais e questões urbanas, entre outros.

Foi professor universitário e exilado após o golpe militar de 1964 no Brasil, além de ter atuado na Organização das Nações Unidas (ONU) e na Organização Internacional do Trabalho (OIT). Para celebrar um século do nascimento do intelectual, sua neta, Nina Santos, resgata memórias com o avô e comenta sobre a importância do seu legado acadêmico e político.

“Embora as coisas tenham mudado do ponto de vista comunicacional, muitas inquietações encontram caminhos de resposta na obra dele. O mérito da obra de Milton Santos é o nível de atualidade que permanece. É raro um intelectual manter tamanha relevância por tanto tempo. Ele é uma inspiração pessoal, profissional e principiológica. Ele buscou pensar maneiras de transformar o mundo, e esse é o princípio que me guia”, destaca, em entrevista ao Conversa Bem Viver.

Nina Santos é pesquisadora em comunicação e Secretária Adjunta de Políticas Digitais na Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Quais são as memórias que você tem de Milton Santos e da relação com o seu avô?

Nina Santos: Foi uma convivência bastante intensa até os 13 anos. Eu sou de 1988, o ano da Constituição, e ele faleceu em 2001. Nesse período, convivemos bastante, sobretudo nos períodos de férias. Vale lembrar que meu avô começou a carreira dele como professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foi exilado do país no ano de 1964 por conta da ditadura militar, que o impediu de continuar as suas atividades profissionais.

Ao retornar ao Brasil, ele teve que buscar uma nova colocação. Foi primeiramente para o Rio de Janeiro (RJ), como professor substituto, e depois de maneira mais permanente para São Paulo (SP), na Universidade de São Paulo (USP), como professor do Instituto de Geociências.

Portanto, quando eu nasci, ele já estava radicado em São Paulo e convivíamos muito nas minhas férias e nos períodos em que ele ia a Salvador (BA) para palestras, cursos e eventos diversos. Dessas férias em São Paulo, tenho muitas lembranças, seja dos momentos em casa em que o silêncio era absolutamente necessário, ou do seu escritório, onde sabíamos que não podíamos circular livremente. Era um lugar que precisava de silêncio, com livros que não acabavam mais, o que despertava muita curiosidade para uma criança.

Lembro muito dos nossos passeios na USP. Em geral, era a Marie-Hélène que o levava, pois meu avô não dirigia. O programa de férias era visitar o Instituto Butantã, andar no bosque da USP, comer nos vários restaurantes e cantinas universitárias. Era muito em torno do próprio campus e de parques como o Villa Lobos.

Outra memória marcante é de quando nos falávamos pelo telefone na década de 1990, naquelas ligações familiares em que o aparelho ia passando de mão em mão. Meu avô sempre perguntava como eu estava na escola e fazia uma piada que eu só fui entender muito tempo depois: “Está lendo algum livro meu na escola?”. Para uma criança de nove anos, aquilo não fazia o menor sentido.

Além disso, falava-se muito francês na casa de meu avô, pois a Marie-Hélène é francesa e meus pais fizeram doutorado lá e falavam fluentemente. Eu e meu irmão éramos os únicos que não entendíamos nada. Eu sentia que algo importante estava sendo dito e eu estava perdendo. Por isso, pedi para minha mãe me colocar em aulas de francês bem novinha para tentar entender. Mal sabia eu que saber francês era a menor das barreiras para compreender o que estava sendo discutido ali.

Em que momento da vida você percebeu que seu avô, além de presente e afetivo, era um cânone da intelectualidade mundial, que quebrou paradigmas da geografia humana e atuou em órgãos como a ONU e a OIT? 

Houve um momento curioso em Salvador, quando ele foi fazer uma palestra na reitoria da UFBA. Estávamos com ele no hotel e fomos para a reitoria. Muitas pessoas vieram cumprimentá-lo. Minha mãe fez questão de me levar para ver sua palestra pela primeira vez. Ao terminar, eu achei que iríamos embora juntos, como tínhamos chegado. Mas era tanta gente querendo falar com ele que minha mãe disse: “Filha, vamos, depois falamos com seu avô”.

Aquilo não fazia sentido para mim. Por que iríamos embora sem ele? Aquele foi o primeiro momento em que me dei conta de que ele significava algo para outras pessoas além do nosso círculo íntimo. Havia muitas pessoas interessadas em ouvi-lo e trocar ideias.

Depois, isso se consolidou no ensino médio, quando comecei a ver discussões sobre a obra dele, especialmente sobre globalização. Na faculdade de jornalismo na UFBA, as menções a Milton Santos eram frequentes em debates sobre tecnologia, território e cultura. Hoje é mais fácil lidar com esse estranhamento entre o avô Milton e a pessoa pública.

Embora ele tenha nascido em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, ele se criou na capital baiana. Quanto você percebe que o desenvolvimento intelectual e a sensibilidade dele vêm da Bahia?

Não é por acaso que ele é baiano. Não é uma identidade qualquer. A relação dele com a Bahia teve várias fases: o nascimento na Chapada, a juventude e a formação em Direito em Salvador, e a fase em Ilhéus, na região cacaueira. Em Ilhéus, ele conheceu minha avó, Jandira, e essa experiência marcou sua percepção sobre o território e a relação entre espaço, sociabilidade e cultura.

Mais do que um olhar para a Bahia, ele desenvolveu um olhar a partir da Bahia para o mundo. Ele dizia que ninguém olha o mundo a partir do mundo, mas, sim, de um lugar. O fato de olhar a partir de um lugar inusual — fora do eixo Rio-São Paulo ou dos centros intelectuais europeus e americanos — permitiu que ele concebesse estruturas e prioridades a partir de outro ângulo. Mesmo tendo construído grande parte da carreira fora, seu olhar era marcado por essa origem.

Quanto do seu trabalho é inspirado nos ideais dele? Se ele estivesse aqui hoje, com o avanço da inteligência artificial e da desinformação, você acha que ele estaria ao seu lado nessas pesquisas?

Dizer que ele estaria ao meu lado seria pretensão, mas muitas das questões atuais sobre redes sociais, desinformação e o papel das big techs já estavam colocadas nas discussões que ele trouxe nos anos 1990 e 2000. Embora as coisas tenham mudado do ponto de vista comunicacional, muitas inquietações encontram caminhos de resposta na obra dele.

O mérito da obra de Milton Santos é o nível de atualidade que permanece. É raro um intelectual manter tamanha relevância por tanto tempo. Ele é uma inspiração pessoal, profissional e principiológica. Ele buscou pensar maneiras de transformar o mundo, e esse é o princípio que me guia. Às vezes, nos meus sonhos, troco ideias com ele sobre temas contemporâneos, mas certamente eu teria muito mais a aprender com ele do que o contrário.

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