LUIS NASSIF: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL ABRE SÉRIE DE INVESTIGAÇÕES SOBRE MANOBRAS DE NELSON TANURE

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UPCON Incorporadora, WOTAN e BRAZIL REALTY são operações que apresentam um mesmo modelo de engenharia financeira fora do aceitável

Reprodução

1. A empresa

A UPCON Incorporadora S/A era uma empresa fechada do setor imobiliário, especializada em empreendimentos residenciais e comerciais. Seu controlador, Gilberto Benevides, detinha 82,94% do capital. Em 2019, a empresa entra no radar da Gafisa, gigante do setor imobiliário de capital aberto.

O preço final: mais de R$ 240 milhões.

2. O conselheiro

Naquele momento, Nelson Tanure ocupava uma cadeira estratégica: era acionista relevante da Gafisa e membro do Conselho de Administração. Isso lhe dava acesso direto a informações sigilosas sobre operações societárias relevantes — incluindo a compra da UPCON.

Segundo a denúncia, Tanure não era um espectador do negócio. Ele estava dentro da sala onde as decisões eram tomadas.

3. A informação que não era pública

A estrutura da operação, a forma de pagamento e o cronograma só seriam divulgados ao mercado em 31 de março de 2020. Antes disso, apenas um grupo restrito tinha acesso aos detalhes.

Gilberto e Tanure estavam nesse grupo.

O MPF afirma que eles usaram essa vantagem informacional para arquitetar uma manobra financeira: comprar ações antes do anúncio público e estruturar um esquema de financiamento cruzado.

4. O truque do valuation

O preço da UPCON seria calculado com base no indicador P/VPA (Preço sobre Valor Patrimonial por Ação). Gilberto sabia disso.

Com apoio financeiro de Tanure, ele injeta R$ 150 milhões no capital da própria UPCON pouco antes da venda.

Efeito direto:

• aumenta artificialmente o patrimônio

• infla o preço da empresa

• força a Gafisa a emitir mais ações e debêntures

Ou seja: a empresa fica “mais cara” sem que nada mude na operação real.

5. Quem bancou

O dinheiro não caiu do céu.

Tanure operou por meio do fundo SINGULAR PLUS e da Planner Corretora. Foi emitida uma Cédula de Crédito Bancário de R$ 118 milhões para a UPCON.

Garantias dadas:

• ações da própria UPCON

• futuras ações da Gafisa

Na prática, segundo o MPF, Tanure financiou Gilberto para comprar dele mesmo depois.

6. O resultado

Gilberto:

• vende a empresa por valor inflado

• entra no Conselho da Gafisa

• indica o filho para cargo executivo

Tanure:

• compra ações antes do anúncio

• garante papéis a preço inferior

• amplia sua participação

• consolida poder dentro da Gafisa

7. Por que não houve acordo

O MPF se recusou a oferecer acordo a Tanure. O motivo: reincidência, insider trading, ocultação de controle via offshores, abuso de poder de controle, operações coordenadas

8. O que vem a seguir

A denúncia trata apenas da UPCON. Mas o inquérito é maior.

Outras operações estão na mira:

• WOTAN

• BRAZIL REALTY

O MPF já pediu o desmembramento do processo.

CONCLUSÃO

A compra da UPCON não foi um negócio comum. Segundo o MPF, foi um experimento de engenharia financeira onde informação virou arma, fundos viraram escudo e o mercado virou palco.

Se a Justiça não agir a tempo, o caso não será enterrado por falta de provas — mas por excesso de tolerância institucional.

Como o mesmo roteiro reaparece em outra operação

Se a UPCON foi o laboratório, a WOTAN foi a confirmação. Segundo o MPF, a operação envolvendo a empresa WOTAN revela a repetição do mesmo padrão: uso de fundos como biombo, ocultação de controle, vendas coordenadas e engenharia para ampliar poder dentro da Gafisa sem aparecer formalmente.

1. O objetivo oculto

Após a UPCON, a meta de Nelson Tanure era clara: aumentar seu controle sobre a Gafisa sem disparar alertas regulatórios. Para isso, segundo a investigação, ele recorreu novamente a veículos intermediários.

A WOTAN surge como peça-chave desse tabuleiro.

2. Quem é a WOTAN

A WOTAN era uma empresa adquirida pela Gafisa em operação estruturada por meio de:

• debêntures conversíveis em ações

• compra indireta

• participação de fundos ligados a Tanure

Formalmente, Tanure não aparecia como comprador.

Na prática, segundo o MPF, o controle era dele.

3. A omissão estratégica

Um ponto central destacado na denúncia: a Gafisa não informou ao mercado que a WOTAN era parte relacionada a Tanure.

Essa omissão é grave porque: altera a percepção de risco do investidor, mascara conflito de interesses e  esvazia a transparência exigida pela CVM

4. O descarte antecipado

Antes da emissão das debêntures que viabilizaram a compra da WOTAN, fundos ligados a Tanure realizaram venda coordenada de grande volume de ações da Gafisa, com redução artificial de preço

Depois, houve a recompra posterior, mais barata, e aumento indireto de participação Clássico jogo de empurra: derruba para comprar.

5. A bomba escondida

A denúncia revela outro detalhe explosivo:

A WOTAN possuía: passivos ambientais relevantes, execuções fiscais em curso, riscos ocultados do mercado. Mesmo assim, foi vendida como ativo estratégico.

6. O padrão se repete

O MPF faz uma conexão direta:

• fundos como intermediários

• Tanure fora do radar formal

• engenharia para ampliar poder

• ocultação de vínculos

7. Impacto para os acionistas

Quem pagou a conta? Acionistas minoritários e investidores que compraram sem saber dos riscos

A operaçã diluiu participação, transferiu riscos ocultos e concentrou poder

8. O que o MPF investiga agora

A operação WOTAN ainda está em apuração.

O MPF quer saber:

• quem financiou

• quem lucrou

• quem sabia

• quem omitiu

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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