JOÃO VICENTE GOULART, FILHO DO PRESIDENTE JOÃO GOULART, DISSE: “GOVERNO DE JANGO FOI INSPIRAÇÃO PARA O CHAVISMO NA VENEZUELA”

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CONVERSA BEM VIVER

Filho de João Goulart comenta sobre a situação do país vizinho e os desafios para enfrentar o imperialismo

O filho de Jango se soma às centenas de especialistas e lideranças políticas que rechaçam a operação norte-americana na Venezuela| Crédito: JUAN BARRETO / AFP

“Eles têm um reconhecimento muito grande”, destaca João Vicente Goulart, filho de João Goulart, ex-presidente do Brasil deposto pelo golpe militar de 1964, sobre a relação do chavismo e de Nicolás Maduro com o projeto político e as reformas de base defendidas por Jango

Em 2024, durante a posse do presidente venezuelano sequestrado no dia 3 de janeiro, João Vicente, que também é ex-deputado estadual, esteve no país vizinho e, segundo ele, o cenário lá era muito diferente do que a mídia comercial tentou fazer parecer.

“Nós estivemos lá a convite do governo venezuelano, integrando a delegação junto com outros brasileiros. Via-se uma alegria muito grande e muita população na rua comemorando com bandeiras”, relembra, em entrevista ao Conversa Bem Viver.

O filho de Jango se soma às centenas de especialistas e lideranças políticas que rechaçam a operação norte-americana na Venezuela, que, além de sequestrar Maduro e a deputada e primeira-dama, Cília Flores, deixou aproximadamente 80 pessoas mortas e atingiu alvos civis e militares. 

“Foi uma operação completamente invasiva da soberania de um povo e de um país, transportando-o para um julgamento em território americano. É um julgamento fake e que, inclusive, está sendo debatido no mundo inteiro como uma agressão violenta e cínica. Posteriormente, vimos pelas próprias palavras do presidente Trump que o verdadeiro objetivo é o petróleo venezuelano”, analisa. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – Como você recebeu a notícia de que a Venezuela havia sido atacada pelos EUA?

João Vicente Goulart – Um início de ano muito ruim para a América Latina e para os povos livres. Eu estava acordando, em casa, quando, na madrugada, soube que havia ocorrido na Venezuela uma invasão territorial, uma invasão melancólica da prepotência do imperialismo. 

Naquele primeiro momento, não se imaginava que pudesse ter havido uma operação tão linear, tão grave e tão cirúrgica para levar preso o presidente constitucional da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores. Eles foram levados para um helicóptero, posteriormente para um navio e, a partir de Guantánamo, em um avião para Nova Iorque. 

Foi uma operação completamente invasiva da soberania de um povo e de um país, transportando-o para um julgamento em território americano; um julgamento completamente provocador e fictício. 

É um julgamento fake que não se faz e que, inclusive, está sendo debatido no mundo inteiro como uma agressão violenta e cínica. Posteriormente, vimos pelas próprias palavras do presidente Trump que o verdadeiro objetivo é o petróleo venezuelano.

Acredito que temos uma bandeira de luta e de união dos povos latino-americanos em torno desse acontecimento. Temos que esperar o tempo passar, pois isto pode ter despertado a consciência de nacionalismo e de independência dos povos latino-americanos. Foi muito grave o que vivemos naquele dia 3 de janeiro e estamos vivendo toda essa expectativa. 

Vemos o desespero do capitalismo internacional e do imperialismo americano quando tenta, pela força, invadir países, com essa prepotência típica contra nações soberanas. Muito triste mesmo.

O senhor esteve recentemente na Venezuela durante a posse de Nicolás Maduro após as eleições de 2024. Qual era a condição do país?

Completamente diferente do que dizem. Nós estivemos lá a convite do governo venezuelano, integrando a delegação junto com outros brasileiros. Via-se uma alegria muito grande e muita população na rua comemorando com bandeiras. 

Quando saímos caminhando do palácio do governo para cruzar a avenida em frente, o local estava tomado de militantes, de povo, idosos e crianças, todos comemorando esse grande momento da Venezuela. 

Independentemente das críticas que possam ter existido sobre a condução das eleições, a Suprema Corte venezuelana autorizou e legalizou a posse do presidente Maduro, que possui um respaldo popular muito volumoso entre o povo venezuelano. Portanto, esse ato que vimos agora é uma violação total da vontade soberana do povo.

O quanto podemos comparar o que está acontecendo agora com, por exemplo, a Operação Condor, que completou 50 anos em 2025?

São operações diferentes, mas com interesses muito semelhantes: a conquista pela força sobre os países da América do Sul, sobre aquilo que eles chamam de “nosso quintal”. A Operação Condor foi uma consequência de anos de ditaduras militares na América do Sul. 

Ela surge como uma defesa daquelas ditaduras, porque naquele momento havia a proposta do presidente Carter sobre direitos humanos e abertura das ditaduras fomentadas pelo Departamento de Estado.

Não vamos esquecer que o Brasil iniciou esse processo na América do Sul; antes houve Arbenz na Guatemala, mas o golpe iniciado no Brasil em 1964 foi o marco. Com a posse de Carter, essas ditaduras foram elaborando uma distensão, que sucedeu no Brasil, por exemplo, com a outorga da Lei de Anistia em 1979. Hoje, tememos muito o novo tipo de operação. 

Teremos eleições este ano na América Latina, principalmente no Brasil e na Colômbia. Hoje, a metodologia envolve as big techs e agentes sicários que, tenho absoluta certeza, operaram na captura do presidente Maduro. Evidentemente, os Estados Unidos não teriam condições de invadir a Venezuela por terra para derrubar o governo.

Isso se nota também após a retirada ilegal de Maduro. O próprio Trump disse que a oposição venezuelana, como Corina Machado, não tinha condição de dirigir o país e afirmou que ele mesmo o dirigiria. Torcemos para que, na Venezuela, a Revolução Bolivariana se fortaleça, mesmo sem o presidente Maduro

O sistema capitalista imperialista está se deteriorando e o grande problema deles é a construção dos BRICS e a multipolaridade, o que afasta o dólar do sistema Swift. Isso gera um processo inflacionário nos Estados Unidos, pois, desde que Nixon retirou o padrão-ouro, eles emitem bônus do Tesouro que outros países compram, e usam esse recurso para comprar armas e lutar contra esses mesmos países. Esse sistema está em decadência. 

Os países estão percebendo, principalmente pela condução econômica da China, que devem ser mais solidários em seus intercâmbios comerciais. Os Estados Unidos tentam impedir isso pela força, mas assim acabarão se autodestruindo.

A Operação Condor foi o auge de um projeto que derrubou governos no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru e Bolívia. Em 1976, restava apenas a Venezuela de Carlos Andrés Pérez, que fornecia petróleo a três dólares o barril; por isso não precisavam derrubar aquele governo. Mas nossa “pátria grande” certamente se fortalecerá no futuro.

Jango conheceu a atuação de Hugo Chávez em vida?

Não. Meu pai faleceu em 1976 e o chavismo só surgiu no final dos anos 90, estabelecendo-se profundamente em 2002. No entanto, há vários pronunciamentos de Chávez onde ele fala muito sobre João Goulart e sobre como o império americano derrubava governos. 

O próprio Maduro, quando estive na Venezuela na sua posse, mencionou as delegações: ao passar a chilena, citou Allende; ao passar a brasileira, disse: “agora a delegação brasileira de João Goulart”. Ambos tinham uma referência muito grande ao presidente João Goulart e às ações que levaram o império a executar o golpe no Brasil, como a nacionalização das refinarias e o monopólio do petróleo para a Petrobras.

Eles têm um reconhecimento muito grande. Inclusive, quando estive lá, Maduro mandou pedir que eu ficasse um dia a mais para conversarmos pessoalmente. Ele e sua esposa, Cilia Flores, receberam a mim e a minha esposa, Verônica, na casa deles. Ele queria conversar sobre o antigo PTB, sobre as Reformas de Base e se haveria possibilidade de o Brasil retomá-las. 

Conversamos por quase duas horas. Inclusive, estivemos no local onde ele foi sequestrado. Era uma casa dentro de uma área militar muito fechada, com várias barreiras de segurança. Por isso, acredito que houve um complô. Como um helicóptero desce à noite em uma área militar dessas sem traição? Foram seis ou sete helicópteros. Houve resistência da guarda pessoal, mas não houve uso de mísseis para derrubá-los.

Acredito que a operação foi orientada por algum chefe militar ou sicário interno que vendeu informações. O treinamento da CIA foi baseado em informações perfeitas sobre a planta da residência. Houve traição, mas a Revolução Bolivariana se mantém de pé. Maduro se tornará um símbolo e uma bandeira de resistência para toda a América Latina.

Podemos dizer que o governo de Jango foi a maior inspiração brasileira para a Revolução Bolivariana?

Posso dizer que sim. Pelas conversas e discursos gravados de Chávez, e pelo o que Maduro me solicitou naquela reunião, pedindo inclusive que enviássemos informações detalhadas sobre as Reformas de Base. Acredito que elas ainda são a proposta para o desenvolvimento nacional do Brasil. 

Não adianta lutar contra o capital internacional e o rentismo nacional sem uma reforma econômica profunda para reindustrializar o país. O desenvolvimento nacional não se dá apenas pela área privada, que busca o lucro imediato; ele precisa de uma meta de Estado. O capital internacional não aceita isso e quer o Estado nas mãos de empresas particulares. É esse futuro que precisamos combater.

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