COMUNAS ASSUMEM DEFESA POPULAR DA VENEZUELA DEPOIS DOS ATAQUES E MANTÊM PRODUÇÃO DO PAÍS
afinsophia 12/01/2026 0
Demonstrators hold pictures of late Venezuelan President Hugo Chavez during a rally in support of ousted Venezuela's President Nicolas Maduro in Valencia, Carabobo state, Venezuela on January 10, 2026. The US State Department on January 10, urged Americans in Venezuela to leave the country "immediately," citing risks from armed militias searching vehicles for US citizens at roadblocks. (Photo by Jacinto OLIVEROS / AFP)
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MOBILIZAÇÃO POPULAR
Mobilização popular e produção de alimentos são base das comunas venezuelanas depois de sequestro de Nicolás Maduro
- BRASÍLIA (DF)
- LORENZO SANTIAGO
Dez dias depois do bombardeio estadunidense contra a Venezuela, as comunas do país ganharam ainda mais protagonismo dentro do processo político chamado pelo chavismo de revolução bolivariana. Mesmo depois de um ataque que abalou a América Latina, os comuneros seguiram trabalhando dentro dos princípios que formaram a criação dessa nova estrutura social: produção de alimentos, mobilização popular e a preservação da ideologia que busca transformar o sistema político da Venezuela.
Com caráter de autogestão, as comunas são os espaços onde se desenvolvem algumas das principais ideias do ex-presidente Hugo Chávez para um projeto de país com uma democracia participativa e a atuação direta da população na resolução de questões da vida em sociedade.
Nos últimos anos, as comunas se tornaram o epicentro do chavismo na Venezuela e, depois dos ataques estadunidenses, se mostraram um elemento essencial da sociedade venezuelana. Primeiro pelo abastecimento dos mercados do país.
Desde o ataque contra Caracas, as comunas não recuaram e mantiveram a produção de alimentos. O governo venezuelano se orgulha de 97% dos alimentos produzidos no país serem nacionais. E uma parte importante desse montante é de responsabilidade das comunas, especialmente as rurais.
Ainda que não tenha dados precisos sobre a produção, as comunas venezuelanas cresceram desde a formalização desse processo em 2010 e passaram a receber investimentos e autonomia para plantar e colher diferentes alimentos. O café, por exemplo, é majoritariamente produzido em comunas. Milho, arroz, feijão, legumes e frutas também têm uma grande participação nas produções comunais.
A reserva moral e produtiva das comunas ficou ainda mais explícita depois dos ataques dos Estados Unidos. Anaís Márquez é porta-voz da comuna 5 de março e afirma que os bombardeios representaram um ataque à moral da Venezuela e que isso dificulta os trabalhos, mas que as comunas são parte importante da resistência venezuelana.
“Apesar do que aconteceu, os trabalhos nas comunas seguem. Estamos retomando as assembleias comunais e os trabalhos produtivos. Sem dúvida fomos atingidos moralmente e continuar trabalhando nesse contexto é mais difícil porque baixa o ânimo, temos que ver quais são as estratégicas para avançar, como se reorganiza no território a partir do que aconteceu. Tudo isso precisa ser debatido, mas a produção segue”, disse ao Brasil de Fato.
Segundo o governo, a Venezuela tem 5.336 comunas ativas que ocupam cerca de 90% do território povoado do país. Elas mudaram a estrutura produtiva do país porque, ainda que as grandes empresas ainda sejam responsáveis por uma parte significativa dos produtos venezuelanos, a orientação do governo passou a ser a agricultura familiar e os pequenos produtores.
Hernan Vargas é vice-reitor da Universidade das Comunas e afirma que as comunas reestruturaram a economia venezuelana e colocaram a organização coletiva no centro da formação de um modo de produção alternativo.
“É vital fortalecer essa estrutura como um traço chave desse momento e ter uma estrutura central de desenvolvimento produtivo. A produção aumentou no país e as comunas são centrais. O modo de produção comunal fortaleceu os mecanismos de distribuição, de autogestão, produção, o encadeamento produtivo e uma lógica de produção de valor de uso e não centrado no valor de troca do mercado, mas para garantir o que precisa o país”, afirmou ao Brasil de Fato.
As comunas foram institucionalizadas na lei orgânica das comunas, criada em 2010 durante o governo de Hugo Chávez. Nos últimos 14 anos, os comuneros viram mudanças bruscas na sociedade venezuelana, desde a tentativa de golpes de Estado, até a implementação de sanções dos Estados Unidos em 2015 contra a economia venezuelana, que minou a capacidade de investimentos do Estado sobre os diferentes setores.
Depois dos ataques dos Estados Unidos, os comuneros entendem que o papel das comunas na construção do Estado venezuelano ficou ainda mais evidente, especialmente como espaços de preservação do chavismo e de uma linha política que tenha o socialismo como pilar.
Anais afirma que uma das atribuições das comunas é também formar politicamente os comuneros, especialmente quem não está envolvido de maneira direta com a política nacional ou mesmo que fazem oposição ao chavismo.
“Nós estamos resistindo e construindo o Estado na Venezuela, mesmo sem o nosso presidente. As comunas são a resistência política para construir um novo Estado que tenha como finalidade o fim do capitalismo. Devemos seguir sendo a resistência política e ideológica para que o projeto de Venezuela não caia e sigamos gerando consciência e seguir formando nossas pessoas para entender o que significa o socialismo na Venezuela”, disse.
Nos últimos 14 anos, os comuneros viram mudanças bruscas na sociedade venezuelana, desde tentativas de golpes de Estado até a implementação de sanções dos Estados Unidos em 2015 contra a economia venezuelana, que minaram a capacidade de investimentos do Estado sobre os diferentes setores.
Os desafios enfrentados pelo governo venezuelano a partir do bloqueio também refletiram na relação das comunas com o processo político e econômico da Venezuela e esses espaços ganharam maior protagonismo político. Uma dessas formas de mudança foi a distribuição de renda.
Os comuneros passaram a participar diretamente da alocação de recursos para projetos no território a partir das consultas populares. Essa ferramenta aproximou a Venezuela do objetivo de Chávez de uma gestão do Estado feita de baixo para cima, e que a decisão dos conselhos comunais tivesse peso na decisão coletiva.
Vargas entende que esse processo estimulou a distribuição de riquezas no país a partir de uma “nova concepção de democracia” que tem a comuna como um eixo central de um novo sistema político.
Isso tudo se traduziu na mobilização popular em defesa de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, sequestrados pelos Estados Unidos no primeiro sábado do ano. As marchas dos comuneros também pedia o fim da interferência estadunidense na Venezuela e a defesa da soberania nacional
“Boa parte dos recursos petroleiros foi diretamente para as consultas. Toda a população vota e o que é escolhido se executa pela própria comuna. Tudo isso se traduziu em um nível de politização muito importante. As comunas são uma frente na luta em todos os âmbitos: tanto econômico, de segurança, mobilização política. O resultado disso são as mobilizações de ruas, em um dos momentos mais tensos da nossa história”, disse Vargas.