PROTESTOS CONTRA TRUMP IRÃO CONTINUAR NOS EUA, AFIRMARAM LIDERANÇAS DE MOVIMENTOS POPULARES DO PAÍS
afinsophia 08/01/2026 0
CONTRA IMPERIALISMO
No próximo sábado (10), haverá novos protestos contra os ataques e as sanções à Venezuela
- SÃO PAULO (SP)
- BEATRIZ DRAGUE RAMOS
Ativistas de diferentes movimentos populares dos Estados Unidos estão se mobilizando contra a invasão do governo do republicano Donald Trump na Venezuela. Desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira dama Cilia Flores, ocorrido no último sábado (3), inúmeros protestos eclodiram pelo país. Manifestantes encheram as ruas das cidades de Chicago, Washington, Dallas, Nova Iorque, Filadélfia, Pittsburgh, São Francisco e Seattle. Com o sequestro de Maduro, Delcy Rodríguez assumiu o cargo de presidenta interina da Venezuela nesta segunda-feira (5).
A liberdade do presidente e da primeira dama venezuelana, o fim das agressões dos EUA contra a Venezuela — tanto os ataques militares, quanto as sanções — e o impeachment de Trump por crimes de guerra, são as principais reivindicações de movimentos, como o Answer Coalition (Aja Agora para Parar a Guerra e Acabar com o Racismo), dos Socialistas Democráticos da América (na sigla em inglês, DSA) e do Partido pelo Socialismo e Libertação (PSL).
“Estamos organizando mobilizações de massa para demonstrar a ação popular contra este ataque e temos dois dias nacionais de ações: 10 e 20 de janeiro. Legislativamente, estamos trabalhando com o restante da esquerda dos EUA para tentar aprovar uma nova Resolução de Poderes de Guerra (WPR, na sigla em inglês) sobre a Venezuela no Congresso”, diz Luisa Martínez, que integra o comitê político nacional do DSA.
A Resolução dos Poderes de Guerra (1973) é uma lei dos EUA que restringe o envio de forças armadas pelo presidente a um período máximo de 60 a 90 dias sem autorização do Congresso. Surgiu para evitar novos conflitos prolongados como o Vietnã, mas sua eficácia prática permanece um ponto de tensão entre os poderes, como no atual caso da invasão e de ataques à Venezuela. Nas últimas semanas, a Câmara dos EUA rejeitou duas propostas para controlar os poderes de guerra de Trump.
Luisa Martínez, que integra o comitê político nacional do DSA, pondera que a resposta dos congressistas dos EUA tem sido mista e insuficiente. “No fim das contas, é nossa responsabilidade como socialistas responsabilizar a essas elites do Congresso, e é por isso que temos estado e continuaremos a estar nas ruas exigindo o fim destas ações criminosas do governo. Faremos o nosso melhor para manter essa solidariedade avançando até encerrarmos esta ‘guerra’ contra a Venezuela.”
Gabriela Silva, integrante do Answer Coalition, ressaltou que alguns membros do Congresso se opuseram abertamente contra a ilegalidade das ações de Trump, ainda assim ela avalia que “eles não estão tomando medidas concretas necessárias”.
Um exemplo é a manifestação de Rashida Tlaib, a deputada democrata tem sido uma das vozes contra a ação. “O primeiro ato de Trump em 2026? Um ato ilegal de guerra contra outro país. Nosso governo sempre encontra dinheiro para violência e guerra. Nem um centavo para saúde”, disse na rede social X.

Martínez lembra que manifestantes em mais de 100 cidades dos Estados Unidos foram às ruas no sábado (3). “Esses protestos refletem o fato de que o povo dos Estados Unidos não quer uma guerra contra a Venezuela. É crucial que continuemos a nos mobilizar e a agir contra as agressões ilegais de Trump e que continuemos a crescer e fortalecer o movimento aqui.”
Os EUA investem 1 trilhão de dólares em guerra, valor que “roubam dos programas sociais e das necessidades básicas do povo estadunidense”, destaca Claudia De la Cruz, do Partido para o Socialismo e a Libertação (PSL) que também é diretora da Pastores pela Paz/IFCO, uma organização ecumênica que busca construir laços de segurança entre os povos e avançar nas lutas sociais.
“Se o governo continuar neste caminho, serão os jovens de comunidades pobres que serão enviados para lutar na guerra das empresas petrolíferas e da classe rica”, diz a ativista.

Para ela, a maioria da população estadunidense não quer agressões contra a Venezuela. “Há um setor que apoia as ações de Trump, mas é a minoria que, infelizmente, tem acesso aos meios de comunicação e todo o apoio para abafar as vozes das maiorias. O povo estadunidense não entende por que este governo investe em guerra na Ucrânia, genocídio em Gaza e agora na Venezuela, e não resolve o dia a dia da população dos EUA”, critica.
Grande parte da população está mais consciente dos interesses corporativos por trás dessas ações e entende que não é para “libertar” ninguém, relata. “Pelo contrário, essas ações de guerra são pelo petróleo e para derrubar um governo que não convém aos imperialistas dos EUA.”
A compreensão da ativista é retratada na pesquisa Reuters/Ipsos, divulgada na última segunda-feira (5), segundo o estudo 72% dos americanos disseram estar preocupados com a possibilidade de os EUA se envolverem demais na Venezuela, enquanto apenas 25% afirmaram não compartilhar dessa preocupação.
Diante deste cenário, ela também acredita que alguns dos democratas denunciaram a ilegalidade das ações, mas “não estão fazendo nada” para impedir novas ações como estas ou para revertê-las.
Michael Galant, pesquisador do Centro para Pesquisa Econômica e Política (CEPR, na sigla em inglês) e membro da Internacional Progressista, explica que há um longo histórico de abdicação do Congresso de sua responsabilidade de reagir e de afirmar seus direitos e sua autoridade exclusiva de autorizar uma “guerra”.
Segundo ele, desde a era Truman (ex-presidente dos EUA de 1945 a 1953) ações militares consideradas “bárbaras”, como as ocorridas na Coreia em 1950, são promovidas pelo país.
No exemplo citado pelo pesquisador, o ex-mandatário ordenou a intervenção militar das forças aéreas e navais dos EUA para apoiar a Coreia do Sul contra a invasão norte-coreana. Ele caracterizou a intervenção como uma “ação policial” liderada pela Organização das Nações Unidas (ONU), e não como uma guerra formal, para evitar uma escalada para a Terceira Guerra Mundial.
Dessa forma, Galant aponta que o que ocorre atualmente é um “reflexo disso”. De acordo com ele, o Congresso deve votar novas resoluções de poderes de guerra ainda nesta semana.
Ele avalia que as pessoas nos EUA estão, na verdade, preocupadas com o próprio custo de vida. “Ninguém acha que verá os benefícios do roubo desse petróleo. Tudo isso vai para as empresas petrolíferas. Então, parece um ato muito descarado, corrupto, ilegal e brutal. E acho que há muitos do lado democrata que estão batendo nessa tecla.”