AÇÃO DE TRUMP NA VENEZUELA “RASGA O VÉU DA MORALIDADE”, AVALIOU ESPECIALISTA EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS

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IMPERIALISMO

O governo dos EUA, desta vez, deixou claro que o interesse é apenas econômico

A política externa de Trump marca uma nova era para o imperialismo| Crédito: Official White House Photo / Daniel Torok

Poucos dias após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o governo dos Estados Unidos retirou a acusação de que ele chefiaria o suposto “Cartel de los Soles”, grupo que nunca existiu. O recuo, aliado às declarações de Donald Trump sobre o controle do petróleo do país sul-americano, deixam claro que o motivo do ataque é puramente econômico.

Para a professora de Relações Internacionais Carolina Pedroso, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o episódio mostra que, agora, as justificativas publicadas pelos EUA para outras ações, como as realizadas no Iraque ou no Afeganistão, não são mais vistas como necessárias.

“Rasga-se realmente o véu da moralidade com que os Estados Unidos, pelo menos ao longo das últimas décadas, tentou se mostrar para o mundo em relação à justificativa das suas intervenções, sejam na América Latina, sejam no Oriente Médio”, afirmou a professora, convidada desta quarta-feira (7) do podcast BdF Entrevista, do Brasil de Fato.

Para a especialista, o cenário é preocupante. Enquanto nas campanhas anteriores o governo dos EUA tentava apresentar à população e à comunidade internacional algum elemento palatável, como o combate a armas químicas ou o restabelecimento da democracia, desta vez, não há nem esse verniz.

“Neste momento, a justificativa simplesmente se esvai e fica muito claro que o objetivo realmente é, primeiro, ter esse domínio sobre o setor que é o mais estratégico da Venezuela, o setor petroleiro; e, segundo, passar um recado muito claro para as lideranças políticas sul-americanas e para as potências globais: que a América Latina é realmente o quintal dos Estados Unidos e aqui eles podem fazer o que bem entendem”, pontua a professora.

A escolha da Venezuela como alvo, porém, não é novidade do governo Trump. Mesmo quando focava suas campanhas militares no Oriente Médio, com a chamada “guerra ao terror“, após os atentados de 11 de setembro de 2001, o governo dos EUA já via o presidente Hugo Chávez como alguém mais próximo de inimigo que de amigo.

“A figura de Donald Trump ganha muito destaque até pela forma como ele verbaliza e como ele se comunica com seu público interno e externo, mas é preciso ser justa nessa avaliação: essa situação das sanções [à Venezuela] é muito anterior ao governo de Donald Trump. O primeiro governo que realmente começa a colocar restrições econômicas à Venezuela é o governo do [George W.] Bush”, relembra Pedroso.

Bush, assim como Trump, é filiado ao partido Republicano, que é tradicionalmente mais conservador e ainda mais à direita que o Democrata. Mas a Venezuela também foi alvo dessa legenda de oposição: quando Barack Obama passou pela Casa Branca, o chavismo também foi visado.

“No governo do Obama foi a primeira vez que a Venezuela entrou na narrativa norte-americana como uma ameaça à segurança nacional. Isso se dá já no segundo mandato do Obama, em um contexto de piora da situação econômica e social na Venezuela. Uma interpretação do governo Obama é que por conta dessas denúncias que começam a surgir de violação dos direitos humanos, o governo de Nicolás Maduro precisava sofrer sanções para que isso, de alguma maneira, repercutisse na situação interna do país”, destacou a especialista.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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