
por Eliara Santana
Nem bem o ano eleitoral começou e já estamos às voltas com as surpresinhas sem fontes dos jornalistas amantes da Faria Lima e atarantados com a possibilidade da reeleição de Lula. Para além do caso “Malu e o roteiro requentado da Lava Jato”, que marcou o encerramento de 2025, temos agora a reedição de “A gastança de Lula”. Quem inaugurou esse tema manjado e sem novidades foi Eliane Cantanhêde, em artigo no Estadão de hoje. Segundo a colunista,”Lula é favorito na disputa eleitoral e vai apostar na gastança. Entre um responsável equilíbrio de receitas e despesas e os gastos para a compra de votos no atacado, o petista não deixa dúvidas: a reeleição é sua prioridade.
E prossegue, na tentativa de ser uma espécie de Mãe Dinah jornalístico-eleitoral: “O ano de 2025 começou com Fernando Haddad nas alturas e Lula fora do jogo, mas evoluiu para Haddad despencando e Lula chegando a dezembro como candidato único da esquerda. O de 2026 chega com Flávio sob holofotes, Tarcísio de Freitas restrito a São Paulo e Lula reeleito. Mas essa é a foto de hoje, não o filme do ano. Ao vetar um reajuste de R$ 160 milhões para o Fundo Partidário, já no primeiro dia de 2026, Lula não estava preocupado com economia, apenas com um cálculo eleitoral. (…) Sim, as pesquisas, a falta de opção na esquerda, os erros e disputas na direita e as condições de hoje tornam Lula o grande favorito de outubro, mas é preciso combinar com os russos e com sua excelência, os fatos, além de avaliar com cautela o estado de saúde de Bolsonaro, a ramificação dos escândalos, principalmente do Banco Master, e até eventuais novas revelações sobre ministros chaves do Supremo”.
Pouco profunda e sem ocultar a decepção com a incipiente candidatura Tarcisio, que já nasceu quase morta, a incontinência retórica em forma de artigo tem um propósito bem claro: anunciar que Lula, em nome da reeleição, vai operar no país uma “gastança” e criar essa agenda. É esse o termo que a imprensa corporativa amante da Faria Lima usa para falar de investimento público para os mais pobres. Antes de Eliane, o jornal ao qual ela presta serviço havia anunciado que o aumento do salário mínimo era absurdo, despropostial, não fazia sentido, ia onerar os cofres públicos etc. etc. Tudo o que não se enquadra nos ditames do deus mercado é “gastança”. Vamos ouvir muito esse termo em 2026.
E os jornalões, como sabemos, atacam em bando, numa ação conjunta de dar inveja. Em coro com o Estadão, a Folha de S. Paulo de hoje estampou a manchete: “Política fiscal de Lula é insustentável, avaliam órgãos de pesquisa”.
Não podem atacar as políticas públicas, não podem atacar os resultados econômicos (desemprego cai, inflação está na meta, renda sobe), não podem atacar os investimentos em saúde e educação, tentam requentar o tema corrupção mas não conseguem, não podem ignorar que o Brasil melhorou e muito, então, tentam inventar problema fiscal – que ninguém sabe muito bem o que é. Segundo a Folha, “embora o bem-estar geral tenha aumentado desde 2023, despesas superiores às receitas estrangulam a máquina estatal”. É um descaramento sem limite.
O Brasil mergulhou fundo na lama com o bolsonarismo – que essa mesma imprensa ajudou a colocar no poder –, Lula e sua equipe conseguiram recuperar o país, e recuperar de verdade, com muito investimento e inversão de prioridades; conseguiram colocar o país de volta à cena internacional; conseguiram melhorar a vida dos brasileiros. É transparente que a imprensa quer fazer de Tarcísio, o vacilão, o próximo presidente, mesmo fingindo “imparcialidade”, essa invenção que somente alguns muito ingênuos dizem acreditar. E para isso, usam de todos os subterfúgios e tentarão todos os tipos de golpe – vamos lá retomar a memória e trazer à tona os meandros da Lava Jato, com aquela parceria midiática que querem reeditar a partir das denúncias contra o ministro Alexandre de Moraes.
E vou repetir: enfraquecer o STF – primeiro Xandão; depois, Dino – e sua atuação contra o golpismo bolsonarista, as maracutaias do Congresso e a liberdade sem cortes do deus Mercado é a cena dos próximos capítulos da novela “Eleições 2026 e a mídia”.
Por último, mas não menos importante: além das pegadinhas da imprensa corporativa, segue firme a mobilização contínua da extrema direita na produção e disseminação de mentiras, cada vez com mais criatividade. Nos estertores de 2025, o deputado rei da mentira atacou de novo e inundou as redes com a história de que o Governo vai taxar quem movimentar acima de cinco mil reais. Segundo a mentira espalhada pelo deputado que visitou Jair Bolsonaro com celular na prisão domiciliar, diaristas, pedreiros, autônomos que movimentem esse valor em 2026 vão ser taxados, terão de emitir nota fiscal e vão pagar mais de 27% de imposto. A rede Jovem Pan entrou com força na disseminação dessa mentira. Isso deveria ser tratado como crime grave.
A partir dos humores midiáticos deste segundo dia de 2026, esse é o cenário que vamos enfrentar no ano da eleição pra presidente (com Lula saindo à frente e a extrema direita ainda sem candidato forte) e da Copa do Mundo (até nisso 2026 se parece com 2014…), com a mídia corporativa e o ecossistema de desinformação da extrema direita atuando contra o presidente e seu governo – cada segmento atuando e atirando pra retirar Lula da cena eleitoral.
Mas dona Lindu segue de olho. E nós também.
Eliara Santana é jornalista, doutora em Linguística e Língua Portuguesa, com foco em Análise do Discurso. Ela é pesquisadora do Observatório das Eleições e integra o Núcleo de Estudos Avançados de Linguagens, da Universidade Federal do Rio Grande. Coordena o programa Desinformação & Política. Também Desenvolve pesquisa sobre desinformação, desinfodemia e letramento midiático no Brasil.