AGRICULTORES REDUZEM POLUIÇÃO E COMBATEM A FOME COM USO DE BACTÉRIAS NO CAMPO
afinsophia 03/01/2026 0
Adoção de biofertilizantes representa economia estimada em US$ 25 bilhões por ano para os produtores de soja

A agrônoma brasileira Mariangela Hungria dedicou mais de quatro décadas ao estudo de bactérias capazes de retirar o nitrogênio do ar e transformá-lo em nutrientes para as plantas. A pesquisa, que revolucionou a produção agrícola no Brasil, rendeu à cientista o World Food Prize de 2025, considerado o “Nobel da agricultura”, por permitir o aumento da produtividade no campo, a redução do uso de fertilizantes químicos e o corte significativo das emissões de gases de efeito estufa.
O trabalho de Hungria mostrou que agricultores podem substituir fertilizantes nitrogenados caros e altamente poluentes por biofertilizantes à base de microrganismos que evoluíram ao longo de milhões de anos para fixar o nitrogênio atmosférico no solo. Atualmente, cerca de 85% da soja produzida no Brasil utiliza as bactérias desenvolvidas por ela e sua equipe, o que representa uma economia estimada em US$ 25 bilhões por ano para os produtores e evita emissões equivalentes às de 54 milhões de carros anualmente.
O reconhecimento internacional veio pela transformação concreta no sistema produtivo. As chamadas soluções biológicas já são usadas em diversas partes do mundo para reduzir a dependência de fertilizantes químicos, mas as técnicas aprimoradas por Hungria podem ampliar ainda mais a eficiência desses insumos em outros países, incluindo os Estados Unidos, além de impulsionar a produção de soja na África Subsaariana, onde a cultura ainda é recente e a fome afeta milhões de pessoas.
A trajetória de Hungria, no entanto, não foi simples. Ao iniciar sua carreira, em 1991, no centro de pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), poucos acreditavam na eficácia dos biofertilizantes. Formada em ciência do solo pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, com pós-doutorados em instituições dos Estados Unidos e da Europa, ela encontrou resistência de produtores acostumados ao uso intensivo de fertilizantes químicos.
Para convencer os agricultores, Hungria adotou uma estratégia pouco convencional no meio acadêmico: foi ao campo, organizou encontros informais e apresentou os resultados diretamente aos produtores. Em um país onde a troca de experiências no meio rural costuma ocorrer em eventos sociais, ela transformou churrascos em espaços de divulgação científica. A aproximação direta permitiu testar as técnicas em diferentes solos e climas e adaptar os microrganismos às condições brasileiras.
Além da atuação junto aos produtores, a cientista liderou pesquisas para identificar cepas de bactérias do grupo dos rizóbios mais adequadas aos solos do Brasil. Essas bactérias vivem em simbiose com a soja, formando nódulos nas raízes da planta, onde fixam o nitrogênio do ar em troca de açúcares. O uso correto dessas cepas permitiu não apenas substituir os fertilizantes químicos, mas também elevar a produtividade da soja em até 8% em relação aos métodos tradicionais.
A equipe de Hungria também incorporou outro aliado biológico, bactérias do gênero Azospirillum, que estimulam o crescimento das raízes e melhoram a absorção de nutrientes. Em estudos realizados ao longo de cinco anos em cerca de 3 mil propriedades, o uso combinado desses microrganismos aumentou o lucro dos produtores em mais de US$ 45 por hectare a cada safra. Além da soja, culturas como milho, trigo e arroz também passaram a se beneficiar da tecnologia, hoje aplicada em cerca de 19 milhões de hectares de milho no Brasil.
O impacto ambiental da substituição dos fertilizantes químicos é expressivo. A produção e o uso de fertilizantes nitrogenados respondem por cerca de 2% das emissões globais de gases de efeito estufa. Além disso, grande parte do produto aplicado no solo se perde, contaminando cursos d’água e contribuindo para a formação de algas tóxicas. Para especialistas em meio ambiente, os biofertilizantes representam uma alternativa viável para conciliar segurança alimentar e preservação ambiental.
Após transformar a agricultura brasileira, Hungria agora busca ampliar o alcance de seu trabalho. Ao receber o World Food Prize nos Estados Unidos, ela se reuniu com produtores de milho em Iowa para incentivar testes com as técnicas biológicas, ressaltando a necessidade de adaptar as bactérias às condições locais. Grandes empresas do setor agrícola e startups já investem em soluções semelhantes, embora enfrentem desafios para desenvolver produtos universais que funcionem em diferentes ambientes.
Segundo pesquisadores, o maior potencial de aplicação está em regiões tropicais e subtropicais, como a África Subsaariana e o sul da Ásia, onde se concentra a maior parte da população mundial em situação de insegurança alimentar. Nesses locais, os biofertilizantes podem reduzir custos, aumentar a produção e contribuir para a redução da fome.
Para Hungria, o futuro da agricultura passa necessariamente pela ampliação do uso de soluções biológicas. Ela defende que, no caso da soja e de outras leguminosas, os fertilizantes sintéticos podem ser totalmente substituídos, enquanto em culturas como milho e trigo o uso pode ser reduzido em até 25%.
*Com informações do The Washington Post.