CÚPULA DOS POVOS: MOBILIZAÇÃO POPULAR HISTÓRICA TENSIONA CORRELAÇÃO DE FORÇAS NA COP30
afinsophia 17/11/2025 0
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BALANÇO
Mobilização global reforça denúncia de falsas soluções climáticas e pressiona por mudanças estruturais na COP30.
- BELÉM (PA)
- ERALDO PAULINO
A Cúpula dos Povos, realizada de 12 a 16 de novembro, entrou para a história como uma das maiores articulações globais pela justiça climática, contra o racismo ambiental e de denúncia das grandes corporações no agravamento da crise. O desafio agora, segundo a articulação, é ampliar a pressão popular na semana decisiva da COP30 e fortalecer alianças internacionais capazes de enfrentar as falsas soluções que maquiam — e aprofundam — as causas estruturais da emergência climática.
Em coletiva realizada no domingo (16) para apresentar o balanço da Cúpula, a organização avaliou que a força popular já influenciou decisões do governo brasileiro, como a formação da delegação mais diversa da história das COPs e a inclusão, na Carta de Belém e na zona azul, de temas como racismo ambiental e financiamento climático direto às comunidades tradicionais.
“No lema da cúpula a gente fala: ‘Da Amazônia para o mundo – na luta por justiça climática e combate ao racismo ambiental’. Isso foi construído há um ano e meio e provoca não só a sociedade civil, mas o governo brasileiro a olhar pra COP a partir das lentes que a Cúpula estabeleceu, que é a lente de combate ao racismo ambiental”, afirmou Thuane Nascimento, da Perifa Connection e Coalizão Negra por Direitos, e integrante da coordenação política do evento.
Ela destacou que a expectativa é de que o tema continue em debate na COP, garantindo que africanos, afrodescendentes e outros povos representados na Cúpula sejam mencionados nos textos oficiais. As referências já feitas, afirmou, são um avanço histórico, “mas ainda falta muito para que isso se traduza em financiamento climático direto a essas populações”, concluiu.
Já Darcy Frigo, do Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos e membro da Comissão Política da Cúpula, avaliou que a correlação de forças na conferência ainda é profundamente desigual — e que a mobilização social busca justamente tensionar essa lógica.
“Grande parte das delegações mais influentes na COP são compostas por representantes das petrolíferas, do agronegócio e de grandes corporações que são responsáveis pela destruição do planeta. Não podemos esperar grandes soluções numa conferência com essa correlação de forças. Por isso, nesta semana, muitos de nós estaremos na zona azul, interferindo nos debates e fazendo pressão política para que nossas vozes sejam ouvidas”, afirmou.
Rachitaa Golp, coordenadora global da Campanha para Demandar Justiça Climática (DCJ) e integrante da Comissão Política da Cúpula, reforçou que a COP em Belém pode não apenas apresentar avanços tímidos, mas também consolidar a financeirização e a privatização de florestas e rios, caso não haja contraponto internacional articulado. “Precisamos denunciar a falácia do crédito de carbono e de falsas soluções que tentam lucrar com a destruição do planeta.”
A coordenação política ressaltou que o embate político, a disputa de narrativa não se dá apenas no âmbito da COP 30. Dentro do próprio governo federal, onde há quadros como Sonia Guajajara, Marina Silva e Guilherme Boulos, que têm franco diálogo com setores populares, há setores que representam o agronegócio, responsável pela emissão de 74% dos gases de efeito estufa no Brasil. “Não alimentamos ilusões, mas não abrimos mão da esperança”, concluiu Darcy.
A Cúpula dos Povos em números
- Mais de 1,1 mil organizações signatárias da Carta Política.
- Representantes de mais de 60 países presentes.
- 25 mil credenciados e cerca de 20 mil pessoas circulando por dia no campus da UFPA.
- Mais de 300 veículos de imprensa nacionais e internacionais cobrindo o evento.
- Cozinha solidária histórica: entre 9 mil e 12 mil refeições servidas por dia, na maior compra pública do PAA em mais de 20 anos — um marco da agroecologia e da soberania alimentar.
Confira aqui a Carta Final da Cúpula dos Povos
Confira aqui a Carta das Infâncias, produzida na Cúpula dos Povos