RAQUELL GUIMARÃES: A ESTILISTA QUE COSTURA OPORTUNIDADE E DIGNIDADE DENTRO DAS PRISÕES
afinsophia 14/11/2025 0
Empresária e primeira-dama de Itabira (MG) defende que o país precisa trocar a lógica da punição pela da oportunidade

Era Raquell Guimarães, estilista, empresária e primeira-dama de Itabira (MG), que há 18 anos mantém oficinas de produção de sua marca dentro de penitenciárias, oferecendo trabalho e qualificação profissional a pessoas privadas de liberdade.
“Estar onde poucos foram e as minorias estão. Trazer para onde a maioria vive um conceito de justiça e transparência com os recursos materiais e humanos”, diz o conceito da marca de Raquell, a @doiselles.
Raquell começou sua trajetória quando o tema da ressocialização ainda era tabu. Com a serenidade de quem conhece o cárcere “por dentro”, ela desmonta os clichês do senso comum.
“Imaginava que fosse encontrar resistência naquela época, quando tudo era mais engessado. Mas encontrei homens com uma força de vontade imensa para agarrar uma oportunidade. Vi nascer essas facções, vi muita coisa mudar em duas décadas. Mas, principalmente, entendi que tudo é muito maior do que esse jovem preso. As pessoas têm um recorte muito limitado do que realmente é o sistema prisional e do que leva um jovem de periferia a ser encarcerado”, explica a empresária à TV GGN [confira o link abaixo].
Hoje, seu projeto está dentro de uma unidade APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados), metodologia prisional criada em Minas Gerais, em 1972, baseada na confiança, no voluntariado e na autonomia do preso.
“A APAC é um sonho dourado. Não tem força policial. É um sistema de colaboração e responsabilidade. É a única metodologia que realmente oferece chance de ressocialização”.
Para ela, o país precisa humanizar o olhar sobre quem está preso. “O sistema comum tira a porção humana do sentenciado. Ele deixa ali só o artigo penal. É uma brutalização. A APAC devolve dignidade e mostra que é possível transformar o sistema se olharmos para o preso como pessoa”.
“Um dia eu levei aulas de dança, e alguns começaram a ensaiar. Os outros gritavam do pavilhão: ‘Lá vão as costureiras!’ Depois, ‘Lá vão as bailarinas!’ Até que um deles, enorme, gritou com voz firme: ‘Lá vão as ricas!’ Porque o trabalho remunera, e quem está recebendo ganha status dentro do sistema. É o orgulho de ter um salário, de poder dizer à família que está produzindo algo que não é o crime. Tem uma frase muito importante na APAC: ‘Aqui dentro entra o homem, o delito fica do lado de fora.’”
O colapso do sistema prisional
Raquell aponta a mudança na lei de drogas, em 2006, como um dos principais motores do colapso prisional brasileiro. Segundo ela, a alteração que ampliou o conceito de tráfico e deixou a distinção entre usuário e traficante a cargo da interpretação policial e judicial, acabou encarcerando em massa jovens pobres, negros e periféricos.
“A mudança da lei é responsável por esse fracasso multimilionário que é o sistema prisional brasileiro. Ela prende o peixinho do aquário e deixa o tubarão nadando livremente. Hoje, quem é encarcerado é o pequeno, o varejista, o da ponta do iceberg. Já os verdadeiros articuladores do tráfico, que lavam dinheiro e movimentam fortunas, continuam em liberdade, com CNPJs, cargos públicos e influência política. É um sistema que pune a pobreza e protege o poder”.
Para Raquell, é preciso discutir a raiz da crise carcerária, que nasce da desigualdade e da ausência do Estado na vida das crianças das periferias. É ali que o destino de muitos jovens é traçado, diz ela.
“Esse menino começa a se aliar ao crime saindo da primeira infância. Com 11 anos ele já está soltando foguete avisando que a polícia chegou. Com 14, segura o fuzil. E com 18 é preso. Mas a expectativa de vida dele é de 21 anos. É uma loucura”.
Para a empresária, o caminho mais eficaz — e mais humano — para quebrar o ciclo da violência começa muito antes da repressão. Nesse contexto, o papel das prefeituras é fundamental. Cabe a elas atuar na base, construindo segurança pública a partir da prevenção, da educação e da geração de oportunidades.
“Nos municípios, o papel é garantir escola em tempo integral, esporte, lazer, saúde pública. É impedir que esse jovem se seduza por essa vida de guerra”.
Assista à entrevista completa pelo link abaixo:
