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Dossiê Fintechs: ‘Porta giratória’ como conexão lucrativa

Ganhos da indústria do lobby no exterior e interesses estratégicos ajudam a explicar avanço do mecanismo no Brasil

 

Foto de Kevin Dunlap na Unsplash

Esta é a quinta reportagem da série Dossiê Fintechs, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar por dentro do Sistema Financeiro Nacional

 A cada ciclo de crise ou ajuste econômico, as fronteiras entre o público e o privado parecem se dissolver um pouco mais. Bancos, empresas e governos trocam executivos como se compartilhassem o mesmo corredor — e, de fato, compartilham.

E essa prática, chamada de “porta giratória” (ou revolving door), também tem espaço nos mercados internacionais, onde funciona de forma mais clara do que a vista no Brasil, tendo em vista o forte trabalho da indústria do lobby em países como os Estados Unidos. 

Um estudo publicado pelo U4 Anti-Corruption Resource Centre em 2014, intitulado “The Revolving Door Indicator: Estimating the Distortionary Power of the Revolving Door”, traz um alerta que segue atual: a porta giratória não apenas alimenta o risco de corrupção, mas distorce o funcionamento das economias — ao concentrar poder político e burocrático em poucas mãos e reduzir a produtividade tanto do setor público quanto do privado. 

O estudo cita evidências robustas de que esse fenômeno é um dos principais vetores de conexões políticas lucrativas: empresas com vínculos diretos com ex-reguladores tendem a ver seu valor de mercado aumentar, ainda que sem ganhos de produtividade, em um sinal que mais representa a captura do Estado do que inovação propriamente dita. 

Sem salário alto, mas com futuro lucrativo 

Uma das descobertas mais contraintuitivas sobre a porta giratória vem de uma análise de 22 milhões de registros de funcionários federais nos EUA. O estudo “Closing the Revolving Door” identificou um fenômeno chamado “agrupamento salarial” (bunching).

Funcionários públicos evitam deliberadamente promoções e aumentos para manter sua remuneração logo abaixo de um limite específico. Ultrapassar esse valor acionaria a proibição de se comunicar com sua antiga agência por um ano, limitando drasticamente suas oportunidades de emprego no setor regulado.

O sacrifício financeiro é calculado e significativo. Para preservar a opção de um futuro emprego lucrativo, esses funcionários abrem mão de, em média, US$ 6.388 anuais, o que representa 7,4% de seu salário médio.

O mais paradoxal é que, segundo o estudo, são justamente os funcionários de maior desempenho — aqueles que recebem mais bônus e promoções — que freiam estrategicamente suas carreiras ao se aproximarem do limite. Essa não é uma decisão casual; é uma escolha que demonstra o imenso valor que esses profissionais atribuem à possibilidade de atravessar a porta giratória no futuro.

O custo bilionário da influência futura

O debate sobre a porta giratória costuma girar em torno de duas hipóteses. A primeira é a do “quid pro quo”, na qual um regulador concede favores a uma empresa em troca de um emprego futuro. A segunda é a do “conhecimento”, onde a empresa contrata o ex-regulador por sua expertise técnica e seus contatos. O artigo “Exposing the Revolving Door” analisou contratos governamentais nos EUA e trouxe uma resposta clara.

A evidência mais forte aponta para a hipótese do conhecimento: as empresas se beneficiam massivamente após a contratação de ex-reguladores, recebendo um número maior de contratos governamentais. Mas a consequência é alarmante: esses mesmos contratos têm uma probabilidade muito maior de serem renegociados, gerando custos extras para o governo.

O estudo mostra que empresas com ex-reguladores conseguem renegociar aumentos de preço 24% maiores. No total, isso gerou um custo incremental para os cofres públicos de quase US$ 30 bilhões durante o período analisado. Esse padrão ocorre mesmo em contratos de baixa complexidade, o que enfraquece o argumento de que os ex-reguladores são contratados apenas para gerenciar projetos complicados.

Na União Europeia, a dinâmica é semelhante. A contratação de ex-funcionários aumenta o acesso de empresas de lobby a reuniões sobre a “agenda legislativa mais ampla”.

Isso é crucial porque esse acesso ocorre nos estágios iniciais do processo político, quando a “fricção institucional é baixa”. É nesse momento que as empresas podem moldar as políticas antes mesmo de serem redigidas, tornando muito mais difícil para outros grupos se oporem mais tarde.

“Passe livre” por tempo limitado e lobistas profissionais

Os benefícios da porta giratória, no entanto, não são universais nem permanentes. Um estudo sobre a União Europeia (“Revolving door benefits?”) adiciona uma camada importante de nuance, mostrando que essa influência tem limites claros.

Primeiro, o acesso obtido por ex-funcionários é mais eficaz para influenciar as fases iniciais da formulação de políticas, ou seja, a definição da agenda legislativa. É nesse momento, quando o “atrito institucional” é menor, que a influência é mais forte. Em fases posteriores, com regras mais rígidas, o benefício diminui.

Segundo, o maior aumento no acesso não é observado em empresas ou ONGs, mas sim em “firmas de lobby por contrato” – os profissionais contratados especificamente para influenciar o poder. A razão é que ONGs e grandes corporações possuem outras fontes de legitimidade, como a representação de uma causa ou de um setor econômico.

Para as firmas de lobby por contrato, cujo negócio é vender acesso, o ex-regulador é o principal ativo. Isso sugere que a porta giratória não é um “bilhete dourado” para todos, mas uma ferramenta especializada que mira pontos de vulnerabilidade específicos do processo político.

No Brasil, a prática virou um modelo de negócio

 As evidências mostram um padrão claro: o conhecimento e as conexões adquiridas no serviço público são monetizados no setor privado, muitas vezes em detrimento do bem comum. 

No Brasil, a porta giratória não é um fenômeno novo. Como aponta uma análise do cenário nacional, a prática é antiga, tornou-se um “lugar comum” e é “relativamente ‘aceita’ pela sociedade” – e o caso recente envolvendo Campos Neto é a continuação de uma prática entrincheirada. 

Essa transição se consolidou como um verdadeiro modelo de negócio, resumido na ideia de que ex-funcionários “conhecem todos os atalhos do setor governamental e depois vendem as ‘facilidades’, como consultoria ao setor privado”. 

Essa proximidade gera críticas contundentes sobre a integridade do sistema regulatório. Como aponta Juvandia Moreira, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), sobre as recentes contratações pelo Nubank: 

Esse é o típico mecanismo de porta giratória, que é a prática de pessoas que antes trabalhavam em cargos de relevância no setor público assumirem cargos no setor privado, e em instituições que antes supervisionavam. Existe aí um claro conflito de interesses e que compromete a integridade e confiança na direção do Banco Central.

Leia a quarta reportagem da série

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