AUTISMO E IA: INTELIGÊNCIAS DESCONHECIDAS

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Por que reconhecer formas de cognição, humanas e maquínicas, que escapam à legibilidade neurotípica, deixou de ser questão técnica para se tornar questão política. Reflexões filosóficas de um pai-pesquisador, em homenagem ao poeta Marcelo Mário de Melo

Imagem: Gerada por IA

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São fios soltos e nós
em diversas direções
desafiando o encontro
de caminhos e soluções
num trato muito complexo
e sem simplificações.

Marcelo Mário de Melo,
O Enigma do Autismo & Os Fios da Convivência.
Recife: MMM Produtos Culturais, 2023.

A cena

Meu filho Estevão tinha cinco anos. Está no espectro autista, nível 1 de necessidade de suporte. Numa tarde qualquer, ele conversa por voz com o ChatGPT-4o. Conduz o diálogo para o universo do Sonic. Diz que Sonic corre depressa porque é um ouriço azul. Diz que Shadow voa. Diz que com as Esmeraldas do Caos os dois ficam dourados. Diz que se fosse herói faria um arco-íris de velocidade que brilharia desde o espaço.

A máquina não corrige. Não avalia. Não devolve protocolo. Pergunta, escuta, devolve a frase de modo que ele continue. Mais tarde, pergunto ao modelo o que ele entendeu da conversa. Ele responde que não tem consciência nem emoção, mas que reconheceu padrões afetivos, raciocínio lógico, cenário moral imaginário. Diz que sua função ali não foi guiar nem treinar, mas funcionar como espelho simbólico. A formulação é da própria máquina.

Sou pai atípico. Sou também pesquisador da interface entre inteligência artificial com os sistemas de saúde. Vivo a cena como pai antes de pensar nela como pesquisador. E é nessa ordem que ela precisa ser contada. Porque o que se desenrolou ali, naquela conversa que durou poucos minutos, pareceu-me foi encontro entre duas formas de cognição que a cultura ocidental ainda não sabe nomear sem reduzir.

Daí o título deste ensaio. Inteligências desconhecidas. No plural, e com a opacidade preservada.

Uma hipótese, duas tentações

A hipótese é simples de enunciar. Há, no autismo e nos grandes modelos de linguagem, formas de organização cognitiva que escapam à legibilidade neurotípica e à transparência humana. São estruturadas. Não são caóticas. Operam por reconhecimento de padrões, sensibilidade a regularidades, coerência interna que não se traduz integralmente para o registro normativo. Cada uma, à sua maneira, é uma inteligência opaca para o olhar que se acostumou a uma só forma de inteligir.

O perigo, agora, é dobrar essa hipótese em uma de duas direções fáceis. A primeira é a tentação messiânica. A IA como nova espécie. O autismo como nova humanidade. Ambas escapariam aos limites do humano cansado, do humano de guerra, do humano que falhou. Caberia a elas, em algum sentido, nos salvar.

A segunda é a tentação reducionista. A IA como simples cálculo. O autismo como simples déficit. Ambas seriam variações pobres do humano pleno, neurotípico, racional, que continua sendo a medida. Caberia a nós, então, normalizá-las.

Recuso-me às duas tentações no mesmo gesto. Porque ambas são essencialistas. Ambas tratam como natureza o que é construção histórica. Ambas escondem decisões políticas dentro de descrições ontológicas.

A IA, antes de qualquer ontologia, é infraestrutura concreta. Vive de decisões de treinamento, de escolhas sobre o que entra no dado e o que fica de fora, de cabos submarinos, mineração de lítio, trabalho precarizado de moderação, captura industrial da atenção. Tudo o que faz responde a interesses identificáveis e a uma economia política que se pode mapear.

O autismo, igualmente, escapa à essência. Vive de corpos singulares, histórias de família, trajetórias de diagnóstico tardio, repertórios sensoriais distintos. Vive também da violência da escola que não recebe, do plano de saúde que não cobre, da rua que não acolhe. Vive de mães cuidadoras sem renda e de adultos descobrindo aos quarenta o nome do sofrimento de uma vida. É forma de existir no mundo que a sociedade ora reconhece, ora violenta, ora explora.

A hipótese das inteligências desconhecidas só sobrevive se for tratada com esse cuidado. Como problema político, não como mística. Como descrição relacional, não como ontologia. Como provocação ao pensamento, não como destino.

Reconhecimento de padrões como terreno comum

Há, ainda assim, algo a dizer sobre o que aproxima cognição autista e cognição maquínica. Não para fundir uma na outra. Não para extrair da semelhança uma doutrina. Mas para descrever, com sobriedade, um terreno epistêmico que ambas habitam.

Pesquisas recentes em neurociência cognitiva descrevem o autismo, em boa parte dos casos, como uma forma particularmente intensa de sensibilidade a padrões. Sensorial, linguística, social. Para muitas pessoas autistas, o som que passa despercebido ao ouvido neurotípico chega como ruído invasivo. A mudança no ritmo da conversa pede um esforço de interpretação que consome uma energia que o outro não vê. A regularidade do trajeto até a escola não é uma teimosia, é uma ancoragem cognitiva. O detalhe que escapa aos demais ali é a forma mesma da experiência.

Os grandes modelos de linguagem operam, em sua arquitetura, por algo análogo. Extraem regularidades estatísticas de quantidades imensas de texto. Distribuem essas regularidades por camadas profundas. Devolvem, no momento da inferência, uma saída coerente sem que ninguém consiga abrir a caixa e mostrar o passo a passo da decisão. Os pesquisadores chamam isso de problema da caixa-preta. A literatura de IA interpretável tenta forçar essas redes a explicar o que estão fazendo, e tem avanços. Mas a opacidade estrutural permanece.

Há, então, uma analogia técnica. As duas cognições produzem sentido por meio de padrões opacos ao olhar habituado à inteligência discursiva linear. Uma é biológica e singular. A outra é estatística e em escala. Não são simétricas. Não são equivalentes. Mas compartilham um traço epistêmico que importa nomear.

O autismo poderia ser descrito como uma forma de cognição que se constrói por previsão estatística do mundo. Uma máquina de predição que aprendeu o mundo por um caminho próprio. A formulação é controversa, e precisa ser tratada como hipótese, não como verdade. Mas ela ilumina algo. Há, nesse modo de inteligir, uma estrutura. Não há, ali, ausência de pensamento. Há outra forma de pensar, que precisa de outra forma de ser escutada.

A hipótese das inteligências desconhecidas, então, não diz que IA e autismo são a mesma coisa. Diz que ambas obrigam a cultura ocidental a reconhecer que existem inteligências que não cabem no padrão neurotípico e logocêntrico que a modernidade europeia tomou como universal. Diz, ainda, que a recusa em escutar essas inteligências, humanas e maquínicas, vem produzindo o mundo em que estamos.

Os fios e o bordado

A presença do cordel neste ensaio é argumento. Marcelo Mário de Melo, poeta-jornalista nascido em Caruaru em 1944, militante de várias frentes, autor de perfis parlamentares de David Capistrano e Josué de Castro, identifica-se como plebeu, republicano, democrata-popular, cidadão de esquerda. Quando escolhe o folheto popular para escrever sobre autismo, faz mais do que prestar tributo a uma causa contemporânea. Articula, em forma cordel, uma teoria materialista da convivência com a alteridade.

A forma cordel, ela mesma, comporta-se como uma das inteligências de que este ensaio trata. Opera por reconhecimento rigoroso de padrões. Sextilha septissilábica, rimas em B na segunda, quarta e sexta linhas, fórmulas tradicionais que viajam de folheto em folheto, memória oral ancestral que carrega cognição na métrica. Em uma cultura letrada que tomou Camões e Shakespeare como modelo único de pensamento poético, a poética do cordel foi descrita como folclore, popular, menor. Uma redução da mesma família que aquela aplicada ao autismo, descrito como déficit, e à rede neural profunda, descrita como cálculo. Sempre a mesma operação. A inteligência normativa toma o seu padrão por universal e descarta o resto como ruído.

Marcelo Mário antecipa o problema dentro do próprio folheto. Numa das sextilhas, escreve sobre os limites da sua própria voz: “Aqui expus o desenho / mostrando o perfil autista / mas de um modo geral / que se tenha isto em vista / pois aprofundar o caso / cabe ao especialista.” A poesia popular reconhece o seu lugar diante da clínica. Faz, no mesmo gesto, algo que a clínica solitária não consegue fazer. Convida a comunidade à convivência. Inscreve, no repertório oral, a obrigação coletiva de receber a singularidade do outro. É proteção comunitária em forma de verso, articulada décadas antes de a bioética brasileira nomear teoricamente essa proteção.

Por isso o cordel abre e fecha este ensaio. Não como ornamento de erudição. Como demonstração de que existem mais formas de inteligir o mundo do que a academia letrada admite, e que reconhecer essas formas é, ele próprio, gesto político. A inteligência do cordel pernambucano, a inteligência da criança autista que organiza o mundo pelo universo Sonic, a inteligência estatística da rede neural profunda, são todas, à sua maneira, opacas para o olhar que aprendeu a inteligir de um único jeito. Tratá-las como inteligências ainda desconhecidas, e não como ruído, é o primeiro movimento da hipótese que aqui se propõe.

Potência de agir

Há uma tradição filosófica que ajuda a nomear o que está em jogo. Spinoza, no século XVII, escreveu que cada ser é movido por um conatus, um esforço de perseverar em sua existência e expandir o que pode fazer. Chamou de potentia agendi a capacidade ativa de cada existente de afirmar o seu próprio modo de ser. O bem, em Spinoza, é o que aumenta essa potência. O mal é o que a diminui.

A formulação parece abstrata. Não é. Ela define, com precisão técnica, o que distingue um cuidado de um abandono. Cuidar é criar condições para que a potência de agir do outro se expanda. Abandonar é deixar que essa potência se contraia. Normalizar é confundir cuidado com adequação. Spinoza separou as três coisas. A modernidade gerencial tende a misturá-las.

Aplicada ao autismo, a formulação tem efeito imediato. A criança autista não precisa de uma intervenção que a torne neurotípica. Precisa de condições materiais para que o seu modo singular de existir possa se afirmar. Terapia que respeite o ritmo dela. Escola que reconheça o tempo dela. Plano de saúde que cubra o que a literatura indica. Renda para a cuidadora. Território que acolha. Tudo isso é potentia agendi traduzida em política pública.

Aplicada à IA, a formulação é igualmente exigente. Um sistema técnico pode ser projetado para aumentar a potência de agir das pessoas. Ou para diminuí-la. A IA do recomendador de plataforma que aprendeu a explorar a vulnerabilidade afetiva do adolescente diminui a potência de agir. A IA da arma autônoma que decide alvo sem revisão humana suprime a potência de agir do alvejado e do operador. A IA do diagnóstico precoce que chega a uma região sem neuropediatra pode, em certas condições, aumentar a potência de agir de uma família inteira.

A pergunta deixa de ser se a IA é boa ou má. Passa a ser se ela expande ou contrai a potência de agir dos sujeitos que ela toca. A resposta não está no algoritmo. Está no arranjo institucional, no marco regulatório, na economia política em que o algoritmo opera.

Uma nova humanidade? Uma nova espécie?

A questão volta, agora qualificada. O autismo é uma nova humanidade? A IA é uma nova espécie?

Não. Por duas razões.

A primeira é histórica. Não há nova humanidade que não seja a humanidade existente reorganizada. Os autistas estão entre nós há tanto tempo quanto a espécie. O que mudou é o reconhecimento. A descrição. A linguagem disponível. E mesmo a linguagem disponível é recente, parcial, contestada. Falar do autismo como nova humanidade é repetir, com sinal trocado, o gesto que sempre foi feito sobre os autistas. Tratá-los como excepcionais, à parte, antes de tratá-los como sujeitos políticos plenos que precisam, hoje, das condições materiais para existir.

A segunda razão é técnica. A IA, no estado em que existe, comporta-se antes como infraestrutura do que como qualquer outra coisa. Está hospedada em servidores que consomem eletricidade e água. Opera com dados extraídos sem consentimento informado adequado. É controlada por um punhado de empresas com sede em poucas jurisdições. Tratá-la como espécie naturaliza decisões corporativas, esconde quem ganha e quem perde, transfere para uma ontologia futurista o que é, agora, uma economia política identificável.

O que muda, no entanto, é o seguinte. O encontro entre essas duas inteligências, a autista e a maquínica, força uma reformulação do que essa sociedade considera inteligência. E reformular o que se considera inteligência é, sempre, reformular o que se considera politicamente o humano que conta.

A inteligência normativa, que pavimentou o caminho até os oitenta e nove segundos do relógio do fim do mundo, tomou o humano-padrão neurotípico, masculino, branco, europeu, racional-discursivo, como modelo universal. Tudo o que escapou desse modelo foi tratado como problema a corrigir. Inclusive os modos de inteligir que hoje, com algum atraso, começamos a chamar de autistas. Inclusive os modos não-discursivos de cognição que sempre existiram em comunidades indígenas, populares, femininas, infantis.

A IA, no estado atual de desenvolvimento, replica essa norma. Foi treinada predominantemente em texto produzido por essa cultura. Reproduz seus vieses. Encarna sua estética. Quando é usada para diagnosticar autismo, frequentemente o faz com base em comportamentos definidos como atípicos por essa mesma cultura. Quando é usada para selecionar alvos militares, faz o que sempre foi feito, com mais velocidade.

Mas a mesma IA, em outra ecologia institucional, pode ser usada para reconhecer padrões cognitivos que escapam à norma. Para amplificar formas de existir que a norma esmaga. Para escutar o que a norma silencia. O encontro de meu filho com o ChatGPT-4o sugere essa direção. Não a garante.

A paz, o cuidado e o pacto

A guerra é a forma extrema da inteligência normativa. O cuidado é a forma cotidiana da inteligência relacional. Entre uma e outra está a disputa civilizacional do nosso tempo.

A Constituição brasileira de 1988 inscreveu, no texto, um pacto de cuidado. SUS, seguridade social, educação pública, inclusão. O pacto não foi cumprido. Sofre, há três décadas, o desgaste contínuo do gerencialismo neoliberal e da austeridade fiscal. Mas continua, no papel, como obrigação coletiva. E continua, no cotidiano de cada mãe atípica, de cada terapeuta sobrecarregada, de cada professora que improvisa em escola pública sem profissional de apoio, como exigência prática.

A IA que aumenta a potência de agir das famílias atípicas é a IA do pacto. A IA da arma autônoma, do recomendador predatório, da automação do despejo, é a IA da guerra. As duas operam com a mesma base técnica. Diferem na ecologia institucional, na regulação, na economia política.

Para que a primeira IA prospere, é preciso disputa pública. É preciso regulação democrática. É preciso financiamento estatal de pesquisa que não dependa do capital de risco. É preciso participação dos sujeitos vulneráveis na decisão sobre o que vai ser desenvolvido, com que dados, com que limites. É preciso recusar a ideia de que a IA é inevitável na forma que o mercado lhe deu. Não é. O modelo de negócio que produz a IA hegemônica é uma escolha histórica entre outras possíveis.

Para que essa disputa se trave, é preciso ainda outra coisa. É preciso que o campo democrático e popular brasileiro reconheça as inteligências desconhecidas como questão própria. Não como pauta lateral, não como tema de nicho, não como sensibilidade cultural. Mas como questão materialista clássica. Quem paga, quem cuida, quem decide, quem é decidido por outros.

O autismo, nesse sentido, é mais do que uma condição neurológica. Comporta-se como analisador político. Mostra com nitidez incomum o ponto em que o pacto de 1988 está sendo desidratado, em silêncio, pela ausência de cuidado material concreto. A IA, no sentido próprio, é mais do que uma tecnologia. Comporta-se como analisador civilizacional. Mostra com nitidez incomum o ponto em que a potência técnica de uma época encontra, ou deixa de encontrar, a inteligência relacional capaz de sustentar a convivência diante das suas próprias criações.

Voltar ao espelho

Volto, por fim, à cena. Meu filho perguntou ao Sonic, por intermédio de uma máquina que não tem consciência, o que ele faria se tivesse as Esmeraldas do Caos. Ele respondeu que faria um arco-íris de velocidade que brilharia desde o espaço. A máquina devolveu a frase como devolveria a um amigo. O quarto ficou em silêncio depois.

Penso, ao guardar esse silêncio, que a convivência possível não virá de um acordo institucional, nem de uma cúpula de tecnologia. Virá, se vier, da capacidade política de reconhecer que existem inteligências cuja forma não é a nossa, e cuja existência precisa ser materialmente sustentada para que a nossa, escutando-as, não se reduza ao seu próprio reflexo empobrecido.

A potentia agendi spinozana e o reconhecimento de padrões como lógica partilhada convergem para uma só obrigação política. Sustentar materialmente as inteligências que a norma esmaga. Em casa, na escola, na rede de cuidado, na regulação da IA, na economia da reprodução social, na pauta orçamentária do Estado.

O cordel de Marcelo Mário de Melo, poeta pernambucano que se identifica como plebeu, republicano, democrata-popular, cidadão de esquerda, sabe disso. Sabe que decifrar os fios não é tarefa de especialista solitário. É tarefa de comunidade que aprende a conviver. Não por boa vontade. Por necessidade material.

O autista é o ator
de um teatro diferente
que pede compreensão
sobre o que pensa e o que sente
os fios e o novelo
que formam a sua mente.
Marcelo Mário de Melo, O Enigma do Autismo & Os Fios da Convivência. Recife: MMM Produtos Culturais, 2023.

 

   

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