LIA RIBEIRO DIAS: BIG TECHS, O NOVO ATOR DO COMPLEXO MILITAR-INDUSTRIAL
Big techs, o novo ator do complexo militar-industrial
Por Lia Ribeiro Dias*
“As big techs e a guerra total”, livro do cientista social Sergio Amadeu da Silveira, revela como as empresas estadunidenses de tecnologia se tornaram as novas protagonistas da guerra.
Segundo o ensaio “As big techs e a guerra total” do cientista social Sergio Amadeu da Silveira, recém lançado pela Editora Hedra, essa é uma diferença relevante na maneira de fazer guerra que aconteceu com a introdução no cenário militar de novas tecnologias de Inteligência Artificial (IA), como os sistemas de aprendizado de máquina e aprendizado profundo. O palco de experimentação dessas novas tecnologias tem sido, principalmente, a Faixa de Gaza, onde já morreram (entre outubro de 2023 e agosto de 2025) mais de 70 mil pessoas, das quais 65%, de acordo com investigação do “Guardian” e de publicações israelenses, são civis, incluindo mulheres e crianças.
O ensaio não só trata de um tema mais que atual como tem como pano de fundo o horror produzido por Israel na Palestina, com o assassinato indiscriminado de civis numa guerra que ninguém mais dúvida de ser um genocídio planejado. E são as tecnologias do ecossistema de IA que permitem identificar alvos humanos fora da zona de guerra, e atacá-los.
Outra diferença essencial entre a guerra tradicional e a guerra que usa sistemas de IA é que a ética do guerreiro está sendo substituída pela ética do caçador. A ética do guerreiro, lembra Silveira baseando-se em Carl von Clausewitz e sua clássica teoria da guerra, valoriza o sacrifício e a reciprocidade e a exposição ao perigo de ambos os lados do combate. Ou seja, o soldado tem o direito de matar por assumir igualmente o risco de ser morto. Já a ética do caçador consiste em o atacante escolher seu alvo e executar seu objetivo, sem correr riscos na maioria das vezes. E o atacante pode estar a milhares de quilômetros de distância do alvo que não está em área de combate, mas está sendo caçado por mísseis ou drones por ter sido classificado como “possível terrorista” pelos sistemas algorítmicos.
A partir de dados introduzidos no sistema, os algoritmos definem padrões de comportamento que servem para classificar quem é alvo e quem não é. Como a definição de padrões é baseada em cálculos probabilísticos, existe uma margem de erro que não é desprezível. Por isso, a ética do caçador é contestada pelo autor, para quem “os usos letais do aprendizado de máquina com dados civis obtidos em dispositivos de comunicação, entretenimento e interações nas redes sociais deveriam ser considerados crimes de guerra, crimes contra a humanidade”.
Como as big techs conseguiram não só entrar no complexo militar-industrial mas se tornar essenciais à máquina de guerra, assumindo o gerenciamento de muitas operações? A resposta passa pelos dados e por seu papel na economia atual, onde são um insumo importante na reprodução do capital pois geram valor. As plataformas digitais, controladas pelas grandes empresas mundiais de tecnologia cresceram e ganharam o poder econômico e político que detêm hoje por meio da captura e tratamento de dados de seus clientes, obtidos via interações dos mais diferentes tipos que realizam no mundo virtual. Para armazenar essa gigantesca massa de dados, criaram empresas de data center onde os dados são guardados. São elas, portanto, que têm os dados em escala global, pois têm clientes em todos os continentes, e contam com os sistemas adequados de hospedagem onde os dados são tratados de acordo com a aplicação a que se destinam. Em grande medida, são transformados em produtos a serem comercializados.
A primeira iniciativa que levou as big techs para dentro do complexo militar-industrial (que Silveira classifica como complexo militar-industrial-dataficado) foi o projeto Maven, lançado pelos Estados Unidos em 2017, para tratar imagens e vídeos coletados sobretudo por drones militares, usando recursos de IA (aprendizado de máquina). Seu objetivo era identificar objetos e reconhecer pessoas, detectar e selecionar alvos de forma automatizada incrementando a capacidade de ação das Forças Armadas. O Google, que depois abandonou o projeto inclusive por pressão de seus funcionários, e outras empresas foram convocadas a integrar o Maven. Outro projeto, este de Israel conhecido como Nimbus, envolvia o fornecimento de armazenamento em nuvem para o governo e Forças Armadas. O contrato foi dividido entre Google e Amazon, e também provocou a reação de funcionários, que, em carta pública, condenaram o projeto e o envolvimento das empresas de tecnologia na máquina de guerra.
O projeto Nimbus, de armazenamento de dados, foi fundamental para a execução do projeto Lavander, que usou o aprendizado de máquina para mapeamento, identificação e fixação de alvos para eliminação na Faixa de Gaza. Do Lavander, segundo a publicação israelense +972 Magazine, participa a Microsoft com fornecimento de soluções de IA para o Ministério da Defesa. Há outros projetos em andamento em Israel, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo que descrevem a simbiose entre as big techs, que são primordialmente empresas de dados, e as máquinas de guerra.
No ensaio, Silveira diz que a dataficação da economia, em todos os seus segmentos, tornou a guerra um sistema tecnocrático onde dados e IA são tão cruciais quanto as armas, subordinando o poder militar aos interesses das empresas de tecnologia e criando um cenário de vigilância e violência automatizadas. Essa subordinação, em sua percepção, forma uma perigosa aliança antidemocrática: “A gestão da guerra virando unidade de negócios das big techs pode levar à monetização de conflitos contínuos com baixo custo e alta lucratividade”.