PAULO BLIKSTEIN E TECNOLOGIA NA EDUCAÇÃO: “O FUNDAMENTAL AINDA É O PROFESSOR”
Professor da Universidade Columbia analisa os riscos da padronização digital, critica a dependência de grandes plataformas e defende a formação contínua e crítica de docentes
Engenheiro de formação pela Escola Politécnica da USP e educador com passagem pela escola da filha de Paulo Freire, Blikstein é hoje diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Columbia University. Em entrevista, ele compartilhou reflexões sobre a chamada “Missão Ásia” — expedição liderada pela Fundação Itaú à China e Coreia — e discutiu os rumos da tecnologia educacional no Brasil.
“É importante entender que as tentativas de substituir o professor por máquinas, desde os anos 1950 até hoje, fracassaram”, ressalta. Para ele, o papel central da escola continua sendo o de um espaço de interação entre seres humanos, e não uma simples transmissão automatizada de conteúdo.
A ilusão da neutralidade tecnológica
Blikstein alerta sobre o crescente domínio de plataformas educacionais controladas por empresas privadas estrangeiras. “Estamos delegando decisões pedagógicas — como chamar 1964 de golpe ou revolução — a engenheiros de 22 anos no Vale do Silício”, critica. Para o pesquisador, o uso dessas tecnologias sem supervisão democrática pode enfraquecer valores fundamentais da educação pública.
Ensino técnico e desigualdade
Blikstein também chama atenção para o ensino técnico no Brasil. Embora considere essencial valorizá-lo, ele alerta contra o risco de que essa modalidade seja usada para reforçar desigualdades. “Toda criança tem o direito de sonhar alto. Não podemos restringir os filhos da classe trabalhadora apenas ao técnico, enquanto os filhos da elite vão para a universidade.”
Ele defende que o ensino técnico deve ser orientado para as profissões do futuro, incluindo áreas como IA, design de jogos e engenharia de sistemas de aprendizagem, e não baseado em modelos ultrapassados dos anos 1970.
Formação contínua para professores
Para que a tecnologia realmente melhore o ensino, Blikstein destaca a necessidade de uma formação docente sólida e contínua. “Colocar computador na sala não basta. O professor precisa saber quando e como usar cada ferramenta, como um pintor com sua paleta de cores.”
Segundo ele, a formação atual muitas vezes é rasa e não acompanha a complexidade das tecnologias inseridas nas escolas. “Quanto mais tecnologia, mais formação precisamos oferecer aos professores”, alerta.
A disputa pelo controle da IA
Ao abordar os avanços da inteligência artificial, Blikstein reforça que a questão central não é a tecnologia em si, mas quem a controla. Ele se mostra preocupado com o uso político e comercial das ferramentas por grandes corporações. “A IA tem potencial transformador, mas precisamos garantir transparência, regulação e acesso democrático a essas tecnologias.”
Ainda assim, ele enxerga oportunidades. “O Brasil pode não competir com os gigantes globais na criação dos modelos mais caros, mas pode se destacar no desenvolvimento de aplicações relevantes para a sua realidade social.”
Caminhos para o futuro
Para Blikstein, o fortalecimento das universidades públicas é essencial para qualquer política séria de desenvolvimento tecnológico e educacional no Brasil. “Eu sou um produto da universidade pública brasileira. Sem ela, não teríamos os cientistas, engenheiros e educadores necessários para enfrentar os desafios do século 21.”
Ele também defende uma retomada do movimento de software livre e da criação de tecnologias abertas, mas reconhece que isso só funcionará se vier acompanhado de políticas públicas de incentivo, financiamento e formação técnica qualificada.