BOLSONARISTA NUNES MARQUES, PRESIDENTE DO TSE, CRIA TEORIA DA CONSPIRAÇÃO SOBRE PESQUISAS ELEITORAIS

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Segundo ministros, Nunes Marques suspeita que institutos manipulem pesquisas eleitorais e quer fazer do tema prioridade no TSE

Decisão de Nunes Marques que censurou pesquisa AtlasIntel será julgada pelo plenário do TSE – Foto: Luiz Roberto/TSE

Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alimenta uma teoria da conspiração sobre pesquisas eleitorais ao levantar, sem apresentar evidências públicas, a suspeita de que institutos manipulem levantamentos para favorecer determinados candidatos. A avaliação é compartilhada por ministros do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo apuração da colunista Bela Megale, de O Globo.

De acordo com a publicação, Nunes Marques manifesta essa desconfiança em conversas com outros magistrados desde 2025. Ao tratar do assunto, o ministro costuma mencionar supostos episódios ocorridos no Piauí, seu estado natal. Os exemplos citados por ele, no entanto, não foram detalhados publicamente nem acompanhados de elementos técnicos que sustentem a acusação de manipulação.

A suspeita ganhou peso institucional porque Nunes Marques comandará o TSE durante as eleições de 2026. Ministros ouvidos pela colunista avaliam que o presidente da Corte Eleitoral deu espaço a uma narrativa conspiratória que pode influenciar as regras, a fiscalização e o julgamento de casos relacionados à divulgação de pesquisas durante a campanha.

Nunes Marques tentou premiar pesquisas que “acertassem” eleição

A teoria defendida nos bastidores ajuda a explicar a proposta apresentada por Nunes Marques para criar um “selo de acurácia eleitoral”. A ideia era conceder uma premiação aos institutos cujos levantamentos divulgados nos dias anteriores à votação ficassem mais próximos dos resultados registrados nas urnas.

A proposta foi apresentada em 14 de julho, durante uma reunião do TSE com representantes de institutos de pesquisa. Oficialmente, Nunes Marques afirmou que o encontro buscava ampliar a transparência, a segurança jurídica e a confiança pública nos levantamentos eleitorais, sem interferir na autonomia técnica das empresas.

O selo, porém, foi recebido com críticas por profissionais do setor e integrantes do próprio tribunal. O principal problema apontado foi o erro conceitual de tratar pesquisas como previsões. Os levantamentos retratam a intenção de voto de uma amostra da população em determinado período, dentro de uma margem de erro, e não têm a função de antecipar com exatidão o resultado da eleição.

Também houve preocupação com o risco de a premiação oficial estimular institutos a ajustar metodologias ou resultados para buscar maior proximidade com as urnas, em vez de retratar com fidelidade o cenário encontrado durante o trabalho de campo. Após a reação, Nunes Marques recuou e sinalizou que poderia abandonar o selo, embora tenha mantido as pesquisas como prioridade de sua gestão.

Suspensão da Atlas expôs ofensiva contra os institutos

A atuação de Nunes Marques sobre o tema já havia provocado controvérsia em junho, quando o ministro suspendeu a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel a pedido do Partido Liberal. O levantamento avaliava a reação dos eleitores a um áudio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o empresário Daniel Vorcaro.

Na decisão, o presidente do TSE apontou indícios de que o uso do áudio no questionário poderia induzir as respostas dos entrevistados e comprometer a metodologia. A medida abriu uma discussão sobre até onde a Justiça Eleitoral pode interferir na elaboração das perguntas feitas pelos institutos e sobre o uso de vídeos, áudios e outros materiais durante as entrevistas.

O Ministério Público Eleitoral se manifestou contra a suspensão e defendeu que a pesquisa fosse liberada. O parecer sustentou que não caberia à Justiça Eleitoral impedir previamente a divulgação do levantamento com base em uma análise subjetiva sobre a metodologia utilizada, especialmente sem demonstração concreta de fraude.

Nunes Marques também pretende ampliar as informações exigidas no registro das pesquisas, como dados sobre financiamento, locais de coleta, perfil dos entrevistados e histórico de atuação das empresas. Embora essas medidas sejam apresentadas como instrumentos de transparência, ministros veem risco na combinação entre novas exigências e a suspeita, sem base técnica conhecida, de que institutos atuem deliberadamente para beneficiar candidaturas.

O movimento ocorre às vésperas de uma eleição presidencial marcada pela ofensiva bolsonarista contra pesquisas que mostram resultados desfavoráveis a seus candidatos. Indicado ao STF por Jair Bolsonaro, Nunes Marques estará à frente do tribunal responsável por julgar pedidos de suspensão, impugnações e acusações contra os levantamentos. Para integrantes das cortes superiores, sua teoria da conspiração transforma um instrumento técnico de medição da opinião pública em alvo político da Justiça Eleitoral.

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