“DINHEIRO DE UMA VIDA INTEIRA”: XP E A SUSPEITA DE CHURNING
Maior corretora do país teria induzido investidores a realizarem operações alavancadas em COE sem conhecimento prévio
Uma das principais corretoras de investimento do país realizou operações financeiras sem autorização de seus investidores, o que gerou perdas milionárias para muitos e uma suspeita de crime financeiro no ar.
A corretora em questão é a XP Investimentos, considerada a maior corretora do mercado brasileiro: segundo a prévia do balanço da XP Inc, empresa responsável pela corretora, 4,5 milhões de clientes investiam R$ 1,1 trilhão em ativos apenas no quarto trimestre de 2023.
Contudo, reportagem do site Metropoles revelou que investidores perderam milhões em recursos investidos por receberem poucas informações sobre os investimentos em meio a promessas de lucros exorbitantes e o incentivo em papéis que podem ser pouco vantajosos, mas que rendem maiores pagamentos em taxa de corretagem.
Conversamos com uma pessoa que foi vítima desse golpe financeiro, conhecido no mercado como churning – a prática do gestor de recursos de realizar negociações em excesso para gerar maiores receitas de corretagem e comissões.
Investidora pega de surpresa
Entre as vítimas da XP Investimentos, uma pessoa entrevistada pelo Jornal GGN revelou que deixou suas “economias da vida inteira” nas mãos da corretora.
Sob condição de anonimato, essa pessoa diz que conversou com o corretor responsável pelos seus investimentos e deixou claro que é “totalmente leiga” no assunto.
“Falaram para eu não me preocupar, que a assessoria iria me explicar”, diz a investidora, lembrando que o assessor prometeu maximizar seus investimentos em até 80% como sendo “benefício exclusivo da XP” – deixando claro que todos os rendimentos obtidos acima do CDI seriam da investidora.
“Não entendo nada, não queria arriscar, tenho perfil conservador. O assessor me mostrou investimento, apresentou benefício exclusivo – ‘você vai ampliar seu investimento’. Eu estava nas mãos deles, deixei sempre tudo muito claro”, relembra.
A pessoa em questão começou a investir na XP em abril de 2022. Em outubro, ao fazer uma simulação de crédito para checar a possibilidade de realizar uma compra grande, a pessoa percebeu que um empréstimo de valor elevado foi tomado em sua conta e, ao entender que estava ligado à alavancagem da corretora no investimento, entrou em contato com a XP.
O corretor que lhe atendia explicou que a alavancagem “está atrelada ao seu investimento principal, que seria nos COEs (Certificado de Operações Estruturadas) IPCA Map Trend/NAN e Bolsa Americana”.
Em seu site, a XP diz que o COE, sigla para Certificado de Operações Estruturadas, “é um tipo de aplicação que combina a segurança da renda fixa com a rentabilidade da renda variável, através da diversificação de ativos”.
Voltado para investidores de perfil moderado a agressivo, o COE divide os investimentos entre ativos de renda fixa e expõe o investidor a ativos de renda variável, com retornos atrelados a indicadores como ações nacionais e estrangeiras; índices da B3 e Bolsas americanas; taxas de juros; commodities; e moedas.
Porém, a investidora em questão sempre deixou claro que tinha perfil conservador para investimentos, o que denota um investimento errôneo por parte de quem atendeu a pessoa física.
Vai e volta
Ao entrar em contato com a XP, ela deixou claro que “nunca tinha feito empréstimo algum” e chegou a pedir a troca do assessor pelo site da empresa – e diante da falta de resposta, ela precisou recorrer às redes sociais para ter algum posicionamento.
“Uma pessoa me telefonou, da mesa de qualidade – e o novo assessor me disse que não poderia fazer, e que se fosse desfazer aquele empréstimo ia perder dinheiro. ‘Não, lá para frente você vai ganhar, vai compensar’”, explicou.
“(Isso) começou a me incomodar muito, como posso fazer uma coisa tão arriscada se não posso fazer nada?”, disse. A desconfiança aumentou quando percebeu que sua carteira de investimentos, sempre direcionada ao perfil conservador, estava “desajustada” – a corretora a colocou como investidora de perfil moderado, o que tornaria o investimento em COE viável.
“Eu falei com o assessor e o gerente dele, e me foi dito ‘se você foi enganada, a gente reverte’”, afirma. “O valor do empréstimo hoje está mais alto que o valor que eu tenho por conta dos juros, é como se eu tivesse contraído um empréstimo de fato”.
Chegou-se a realizar uma reunião presencial com o novo corretor de investimentos, que na ocasião não mencionou alavancagem. “No final do ano passado, eu disse que não queria continuar, e não se resolveu, foi quando pedi a reunião presencial. Agora estou pendurada na XP tentando resolver”.
O que mais a preocupa é que o investimento envolve “toda a economia da minha vida”. “Eu choro porque fico irritada, não consigo entender. Estou nas mãos deles”.
