“DESASTRE AMBIENTAL”: ENTIDADES APONTAM RISCOS EM OBRAS NA HIDROVIA ARAGUAIA-TOCANTINS, NO PARÁ
A local resident does her laundering on the banks of the Tocantins River near Maraba, Para state, northern Brazil, on June 19, 2011. The Tocantins river flows northward in central Brazil for 2,640 km through four Brazilian states: Goias, Maranhao, Para and Tocantins, giving its name to the latter, one of Brazil's newest states, formed in 1988 from the northern portion of the state of Goias. AFP PHOTO/Evaristo SA (Photo by EVARISTO SA / AFP)
Comunidades tradicionais temem impactos consideráveis na pesca, no equilíbrio ambiental e na sobrevivência da população
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Uma obra que pretende viabilizar a navegabilidade da hidrovia Tocantins-Araguaia durante todo o ano, inclusive em períodos de seca, leva preocupação a diversas comunidades tradicionais e populações originárias que vivem no Baixo Tocantins, no Pará.
O projeto prevê mudanças em trechos de pedreiras e corredeiras que ocupam mais de 40 quilômetros. A derrocada de pedras tem potencial para mudar a biodiversidade local e causar impactos significativos nos modos de vida das famílias da região.
Com indicações do governo federal de que o andamento do processo deve ser acelerado, entidades católicas divulgaram uma alerta pedindo que soluções sejam encontradas para que o empreendimento não cause prejuízos às comunidades.
Entre os potenciais danos listados estão a perda de área de pesca, a poluição por defensivos, resíduos e combustível das embarcações, os riscos à biodiversidade e os impactos nos modos de vida de quem vive no local.
O bispo da Diocese de Cametá (PA), Dom José Altevir da Silva, membro da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam-Brasil), afirma que a obra é mais uma na lista de projetos que se desenvolvem de “maneira brutal” na Amazônia brasileira.
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Repetição de erros históricos
Ele lembra da construção da hidrelétrica de Tucuruí, que atingiu fortemente a vida de populações do Rio Tocantins na década de 1970 e causou um trauma histórico na região.
“Vão ser repetidos os mesmos erros. A Amazônia foi sempre escravizada por empresas e projetos grandes e nada deixaram na Amazônia. Esse projeto da hidrovia vem de uma história longa e é muito ambicioso. É um canal para levar para fora do Brasil as riquezas produzidas aqui. Soja, minério, tudo para fora. Aqui vai ficar apenas a destruição do meio ambiente e dos pobres.”
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Conta não fecha
Os riscos que a ampliação da hidrovia pode trazer para as populações tradicionais impulsionam reações também entre movimentos sociais. Carmem Foro, secretária nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), acompanha a situação das famílias da região de perto e afirma que elas correm “todos os riscos possíveis” com o empreendimento.
Ela aponta que uma das justificativas para o projeto é o barateamento do transporte de cargas, mas a conta para a população não fecha.
“Estamos falando de populações que vivem secularmente às margens do Rio Tocantins, que vivem da pesca e usam o rio para tudo. Esse empreendimento pode acabar com tudo. Claro que isso afeta diretamente a economia”, diz Foro.
Implosão de quilômetros de pedreira
Nas palavras da ativista, “Implodir quilômetros de pedral, por si só, já é um desastre ambiental”. Segundo ela, “serão três anos de implosão e não vai ficar nada”. “Nessa área, tem muito pescado, que serve economicamente para o estado e para fora do estado. Imagine, três anos para destruir um pedral que a natureza construiu por milhares de anos”, destaca.
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Apreensão da comunidade
Entre as comunidades, o empreendimento gera apreensão. A quilombola e pescadora Maria José conta que, quando o projeto foi apresentado, as populações locais não foram consultadas e que, mesmo agora, o diálogo é insuficiente.
“Eles dizem que vai gerar emprego e muita coisa para a comunidade, mas nós sabemos que não é verdade, pela construção da hidrelétrica de Tucuruí. Nós estamos com muito medo de a miséria voltar. Água é vida e, com a escavação, nós vamos perder nosso rio. O que vai ficar para nós é só rejeito. Nós não queremos a hidrovia, nós queremos vida. O rio não é mercadoria, o nosso rio é vida”, defende.
A reportagem do Brasil de Fato entrou em contato com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para obter mais informações sobre o diálogo com a comunidade e a autorização para as obras.
Em nota, o Ibama informou que “a análise de viabilidade ambiental do empreendimento contempla, dentre outras avaliações, estudo do diagnóstico socioeconômico, que considera o impacto sobre as comunidades”, mas não deu mais detalhes sobre o processo.
Edição: Rodrigo Durão Coelho