OS DOCUMENTOS DA CONDENAÇÃO DE PAULO FIGUEIREDO E JASON MILLER NOS EUA
Justiça dos Estados Unidos condenou a empresa de Paulo Figueiredo e a rede social Gettr, comandada por Jason Miller. Gettr foi obrigada a devolver US$ 21 milhões (cerca de R$ 115 milhões) relacionados ao caso. As sentenças decorrem do escândalo da falência de Miles Guo, condenado a 30 anos por fraude de mais de US$ 1 bilhão. Até o momento, nenhuma mídia brasileira ou americana havia noticiado essas condenações.
Série “Os quatro picaretas”, Parte 2 · documentos exclusivos da justiça americana
Eis o que o lobista do tarifaço, Paulo Figueiredo, não conta nas suas lives: sua empresa nos Estados Unidos, a International Treasure Group, foi condenada pela Justiça americana. A sentença saiu em outubro do ano passado, à revelia, das mãos de uma juíza federal de Connecticut: devolver 140 mil dólares (cerca de R$ 770 mil), mais juros, às vítimas de um dos maiores golpes da história recente dos EUA.
E não foi só ela. A Gettr — a rede social que contratou a empresa de Figueiredo — foi condenada no mesmo escândalo a devolver muito mais: 21 milhões de dólares (cerca de R$ 115 milhões) que recebeu das mesmas fachadas.
As duas sentenças nascem da falência de Miles Guo. O bilionário chinês foi condenado em junho a 30 anos de prisão, por uma fraude de mais de 1 bilhão de dólares (cerca de R$ 5,5 bilhões) contra a diáspora anticomunista chinesa.
O golpe de Guo funcionava assim: em lives diárias, ele se apresentava como o grande inimigo do Partido Comunista Chinês e pedia que os seguidores “investissem” na cruzada. Vendia de tudo — ações da sua rede de mídia, títulos de um clube privado de luxo, uma criptomoeda própria.
Um dos produtos mais vendidos era uma promessa: 5% da Gettr. Guo oferecia à audiência das suas lives pedaços da rede social, como se a plataforma fosse dele — e era, embora oficialmente a Gettr jurasse independência.
Milhares de famílias caíram. Segundo a Justiça americana, o dinheiro dessas vítimas virou iate de luxo, mansão em Nova Jersey e uma frota de carros esportivos — e Guo seguiu aplicando golpes até da cadeia, transmitindo lives pela própria Gettr.
É esse dinheiro roubado que a Justiça americana vem recolhendo, bolso por bolso. Dois dos bolsos levavam ao Brasil.
Voltemos ao brasileiro. Figueiredo ignorou o processo contra sua empresa por mais de um ano — e o advogado largou o caso em 2024 porque não foi pago.
A defesa formal dele só se manifestou em dezembro de 2025, depois da condenação, para pedir a anulação da sentença. As desculpas foram dadas por escrito e sob juramento.
A primeira: a correspondência da empresa ficava numa “área comum” da casa, “como a entrada ou a cozinha”, e podia ser recolhida “por mim, minha esposa atual, ou até minha ex-esposa”. A segunda: ele andava ocupado demais, com longas temporadas em Washington e “sérios problemas jurídicos e de segurança pessoal” ligados às suas atividades políticas no Brasil.
O aspecto particularmente irônico: a justificativa de Figueiredo para ignorar a Justiça americana é que estava ocupado articulando, em Washington, sanções contra o próprio país.
A desculpa carrega o mesmo cinismo da usada por Eduardo Bolsonaro, seu sócio nas cruzadas antibrasileiras. No processo por coação à Justiça que corre no STF, Eduardo contestou a maneira como foi notificado — embora desse entrevistas demonstrando estar perfeitamente ciente do processo.
A juíza ouviu os dois lados em fevereiro. O resultado do recurso pode ser publicado a qualquer momento.
O contrato do crime
Para se defender, Figueiredo cometeu seu maior ato falho: entregou, ele mesmo, o que negava havia quatro anos. Anexou ao processo os documentos que provam seu trabalho para a Gettr.
O Cafezinho analisou o pacote completo — e o contrato é inédito na imprensa. Assinado em agosto de 2021, garantia à empresa de Figueiredo um salário fixo de 35 mil dólares por mês (na época, cerca de R$ 180 mil).
Quatro meses, quatro pagamentos: exatamente os 140 mil dólares da condenação. Na página de assinaturas, dois nomes de próprio punho: Paulo Figueiredo — e Jason Miller, chefe-executivo da Gettr.
Os relatórios internos anexados mostram para que servia o dinheiro: implantar a Gettr no coração da política brasileira, às vésperas da eleição de 2022.
A plataforma comprava espaço publicitário em veículos bolsonaristas. Jovem Pan, Gazeta do Povo e o canal 4×4 aparecem nominalmente nos documentos como destinatários de pagamentos.
Patrocinava eventos de Eduardo Bolsonaro e de Carlos Jordy. Jordy é hoje um dos principais quadros do bolsonarismo no Rio, cotado ao Senado pelo PL — depois que Flávio Bolsonaro saiu para o projeto presidencial da família e Cláudio Castro foi cassado sob suspeitas de corrupção.
A Gettr bancou ainda a transmissão de um congresso de médicos do “tratamento precoce”, em plena pandemia. E encomendou uma pesquisa presidencial com regra combinada de antemão: resultado ruim para Bolsonaro, pesquisa na gaveta.
Ficha suja antes do exílio
A ficha de Figueiredo já era suja — muito suja — antes do autoexílio nos Estados Unidos. E o começo da história tem um nome familiar: Trump.
Em 2013, aos 29 anos, Figueiredo fechou com a Trump Organization o licenciamento do Trump Hotel Rio, na Barra da Tijuca — o primeiro da marca na América do Sul. Ele gostava de contar que conheceu Trump num campo de golfe na Flórida.
Trump não colocou um dólar no negócio: só alugou o nome. O dinheiro de verdade veio de onde sempre vem nesses esquemas — de fundos de pensão, que aportaram cerca de R$ 247 milhões no fundo de investimento do hotel.
Segundo denúncia do Ministério Público Federal, os aportes foram destravados na base da propina. Cerca de R$ 40 milhões teriam sido pagos a conselheiros e diretores do banco BRB para aprovar os investimentos sem análise técnica.
E o papel de Figueiredo, segundo os procuradores, não era decorativo: como presidente da empresa do hotel, cabia a ele autorizar os pagamentos de propina e assinar contratos com notas frias para gerar dinheiro vivo. O rombo do banco: R$ 348 milhões.
O hotel abriu às pressas para a Olimpíada de 2016, inacabado — 75 quartos prontos, dos 175 prometidos. Semanas depois de a Justiça abrir investigação, a própria Trump Organization arrancou o nome da fachada.
Quando a operação policial finalmente chegou, em 2019, Figueiredo ficou seis meses foragido. Acabou preso em Miami — e responde até hoje, como réu, por corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Do naufrágio sobrou ainda a conta do mercado financeiro. Em dezembro de 2024, a CVM aplicou a Figueiredo uma multa pessoal de R$ 102 milhões — a maior entre os oito condenados do caso — por superavaliação de ativos e emissão artificial de cotas do fundo do hotel.
O epílogo saiu semanas atrás: a empresa do hotel teve a falência decretada em junho, e o prédio foi parar nas mãos dos credores. Foi nesse ano de 2019, entre a fuga e a prisão, que Figueiredo passou a morar de vez na Flórida.
A empresa que receberia o dinheiro de Guo fora registrada dois anos antes. A vida americana de Figueiredo e a firma que o conectaria ao golpe nasceram juntas.
Hoje ele soma duas denúncias da PGR: trama golpista e coação à Justiça, esta junto com Eduardo. E é foragido de uma ordem de prisão do STF.
O padrinho de Washington
O homem que assinou o contrato de 35 mil dólares mensais é o mesmo que hoje faz a ponte entre o clã Bolsonaro e a Casa Branca. Jason Miller, ex-porta-voz de Trump, é o operador mais agressivo da campanha anti-Lula em Washington e peça central da articulação do tarifaço.
O elo não é figura de linguagem. Foi Miller quem abriu ao clã as portas do trumpismo: o próprio Eduardo Bolsonaro credita a ele a apresentação do “caso Brasil” a Trump.
E Miller cultivou essa ponte pessoalmente, no Brasil. Em setembro de 2021, discursou na CPAC de Brasília e foi recebido por Bolsonaro no Palácio da Alvorada; em 2022, assistiu ao 7 de Setembro eleitoral de Copacabana ao lado da militância.
Hoje, é com Miller que Figueiredo e Eduardo despacham em Washington. É essa engrenagem — o foragido, o condenado e o ex-chefe da Gettr — que produziu o tarifaço e o lobby por sanções contra ministros do STF.
Foi dele a frase de que Alexandre de Moraes seria “a maior ameaça à democracia no Hemisfério Ocidental”. Pois a Justiça americana cobra do próprio Miller a devolução de 353 mil dólares (cerca de R$ 1,9 milhão).
O dinheiro chegou ao bolso dele pelas mesmas firmas de fachada que pagaram a empresa de Figueiredo. Ou seja: até o salário do chefe da Gettr passava pela contabilidade do esquema.
Miller nega qualquer ligação entre o dinheiro e os crimes de Guo. E briga nos tribunais para não devolver.
A negativa, porém, esbarra nos autos. Os investigadores e os documentos do caso mostram que praticamente todo o dinheiro que sustentou a Gettr saiu dos esquemas criminosos de Guo.
A própria juíza do caso registrou que o chinês controlava a plataforma por meio de uma rede de empresas de fachada. Foram essas fachadas que despejaram na Gettr os 21 milhões de dólares da condenação — e delas também saiu o salário do chefe.
Os documentos internos revelam o que ele queria: usar a Gettr — subsidiada com dinheiro roubado — para interferir na política brasileira. Comprando mídia, patrocinando políticos e decidindo que pesquisa eleitoral podia vir a público.
As instituições brasileiras impediram o plano desde o primeiro dia. A PF o interrogou por três horas em Brasília, em 2021; o TSE exigiu contas da Gettr; o STF sufocou a milícia digital.
O ódio de Miller ao Brasil não é ideologia. É ressentimento pela oportunidade perdida de não ter conseguido replicar no Brasil o mesmo tipo de golpe de que participava nos EUA.
O que exatamente ele assinou, ordenou e recebeu nos dois anos em que o Brasil foi a menina dos olhos da Gettr? É o assunto da próxima parte desta série.
O placar dos quatro
O chinês vai apodrecer numa prisão federal americana. Eduardo Bolsonaro já foi condenado pelo STF.
Paulo Figueiredo, foragido do próprio país, está pendurado no recurso que tenta salvar sua empresa da condenação em Connecticut. Jason Miller também espera decisão judicial, no processo em que briga para não devolver o dinheiro recebido das fachadas de Guo.
E Miller ainda terá de responder, nos tribunais e diante da história, por suas ligações com um dos maiores golpistas da história dos Estados Unidos.
É por ele que continuamos na próxima parte. A primeira parte da série, “O elo perdido: a empresa no Texas que liga Eduardo Bolsonaro ao dinheiro do Master”, está publicada aqui.
Artigo publicado originalmente no portal O Cafezinho.
Baixe os documentos desta reportagem
Todos os arquivos abaixo são autos oficiais do processo movido pelo administrador da falência de Miles Guo contra a empresa de Paulo Figueiredo no Tribunal de Falências do Distrito de Connecticut (EUA), obtidos pelo O Cafezinho. Clique para baixar:
A condenação
- Decisão da juíza concedendo o julgamento à revelia contra a empresa de Paulo Figueiredo (30/10/2025)
- Termo de condenação: US$ 140 mil + juros (30/10/2025)
- Resposta do administrador da falência pedindo a manutenção da condenação (23/12/2025)
A defesa de Figueiredo 4. Pedido de anulação da sentença apresentado pela defesa (2/12/2025) 5. Minuta de decisão proposta pela defesa 6. Memorando jurídico com os argumentos da defesa (2/12/2025) 7. Declaração juramentada de Paulo Figueiredo — as desculpas da correspondência na cozinha e das viagens a Washington (2/12/2025)
Os documentos da operação Gettr no Brasil 8. Proposta “Brazil Large-Scale Launch” — o plano de implantação da Gettr no Brasil, aprovado com a assinatura de Jason Miller (16/8/2021) 9. Proposta GETTR v2, em português 10. Rascunho de proposta para discussão 11. Proposta de extensão do contrato (17/12/2021) 12. O contrato de US$ 35 mil por mês entre a Gettr e a empresa de Figueiredo, assinado por Jason Miller e Paulo Figueiredo (25/8/2021) 13. E-mail de Figueiredo a Jason Miller sobre a renovação do contrato, com a cúpula da Gettr em cópia (4/1/2022) 14. Relatório semanal da operação Brasil — a compra de mídia na Jovem Pan e na Gazeta do Povo, a pesquisa engavetável e os patrocínios bolsonaristas (4/12/2021) 15. Roteiro de briefing preparado pela empresa de Figueiredo para a cúpula da Gettr falar sobre o Brasil na imprensa 16. Segunda via do roteiro de briefing (anexo protocolado em duplicidade pela defesa)