CAMILA KOENIGSTEIN: CHILE – A CADELA DO FASCISMO ESTÁ NO CIO

 

A realidade é que, muito mais que a luta entre o velho liberalismo e a eterna “ameaça comunista”, há uma escalada desenfreada de discursos autoritários que flertam cada vez mais frequentemente com os ideais do Terceiro Reich.

Nueva Tribuna

Chile – A cadela do fascismo está no cio

por Camila Koenigstein

O medo dos fantasmas do nazismo e do fascismo aparentemente desapareceram. Não temer o passado ou acreditar que ele é uma espécie de ficção estão entre os maiores problemas da sociedade contemporânea.

O riso e o escárnio que vêm se consolidando quando falamos sobre política e sua importância dentro do corpo social mostram o real perigo da instalação do total obscurantismo e o retorno do que deveríamos combater, a anomia.

A realidade é que, muito mais que a luta entre o velho liberalismo e a eterna “ameaça comunista”, há uma escalada desenfreada de discursos autoritários que flertam cada vez mais frequentemente com os ideais do Terceiro Reich.

O racismo, a aporofobia, a homofobia, a misoginia e a xenofobia estão constantemente presentes nos discursos dos “políticos” da ultradireita. Quase sempre evocam o slogan da liberdade e da democracia, dois conceitos que necessitam de uma urgente revisão, uma vez que perderam sua dimensão no âmbito político e foram reduzidos ao mero desejo de expressar uma opinião sem nenhum compromisso com a coisa pública.

O que estamos presenciando, principalmente no continente, é o reino e o triunfo do indivíduo sobre a sociedade. O falso conceito de liberdade, que gera diversas mazelas sociais e a morte de milhares de pessoas por negligência de um Estado que se beneficia de sua falta de atuação efetiva, mostra que a ignorância do povo é um forte instrumento de manutenção do status quo da classe dominante e também dos oportunistas que aparentemente são somente uma piada de mau gosto, mas que ganham terreno com a falta de perspectivas e a banalização do conceito de liberdades individuais. Liberdade para morrer de fome não é liberdade, e uma democracia dominada para que a elite atue como deseja não tem relação real com a igualdade que o sistema democrático deveria garantir. Estamos, portanto, presenciando a deturpação de dois elementos fundamentais para o funcionamento social.

A política como a definiam os antigos era a arte de viver junto e a busca do bem comum, e o próprio princípio dessa busca e dessa arte era a distinção clara entre a esfera dos negócios comuns e o reino egoísta e mesquinho da vida privada e dos interesses domésticos. O retrato “sociológico” da alegria democrática pós-moderna assinalava a ruína da política, subjugada dali em diante a uma forma de sociedade governada pela única lei da individualidade consumidora.

Jacques Ranciere

O real perigo dos atuais “políticos” que surgem no cenário social catastrófico desenvolvido pela pandemia e o avanço desenfreado do neoliberalismo são alarmantes. As soluções fáceis propostas por eles para a complexidade social do momento presente chamam a atenção da população, mas a realidade é que são homens desprovidos do espírito democrático, são verdadeiros showmen que utilizam as plataformas e redes sociais para atrair os cidadãos, invocando a tal liberdade mercadológica e pseudodemocrática para gerar vínculos frouxos com o povo. No fundo representam nada mais que o desejo de poucos em detrimento de muitos. Esse é o caso de José Antonio Kast.

No dia 21 de novembro o Chile definiu os candidatos à Presidência que disputarão o segundo turno em 19 de dezembro.

A vantagem do candidato Antonio Kast (Frente Social Cristiano) sobre Gabriel Boric (coalizão Apruebo Dignidad del Frente Amplio y el Partido Comunista) despertou a atenção de todo o continente. Jornais como The Washington Post declararam o perigo do fascismo, enquanto os meios de comunicação tradicionais deram reduzida importância ao caso. O candidato da Frente Social Cristiano é muito mais que um tecnocrata conservador, ele carrega um discurso alarmante quando pensamos em desenvolvimento social. Sua grande simpatia pelo período ditatorial de Augusto Pinochet, a postura antiaborto e anti-imigração, o desejo de militarização da sociedade e a defesa intransigente dos ideais de um liberalismo nos moldes de Margaret Thatcher com pitadas de Le Penn, somados a um forte teor religioso que atrai tanto católicos como evangélicos, expõem o cenário devastador e retrógrado que pode ser instalado no Chile caso vença as eleições.

“Ele quer eliminar leis de proteção das dissidências sexuais, leis de proteção dos animais e tem uma proposta de fazer listas de perseguição política contra ativistas de esquerda. Ele não fala de direita, fala de um governo autoritário, fala do seu general. Ele quer dar imunidade a todos os que foram condenados por crimes de lesa-humanidade durante a ditadura. É anti-imigração, quer construir valas junto à fronteira para impedir a entrada de imigrantes no país, quer dar mais direitos às forças de ordem e às forças armadas. No Chile temos o Ministério da Mulher e dos Direitos, ele já disse que vai abolir esse ministério. Vai abolir a lei do aborto, impulsionada pelo governo de Michel Bachelet, que é o aborto em três causas: violação; risco de vida para a mulher; ou inviabilidade do feto. É um retrocesso enorme.”

Ana Figueiredo, docente universitária e investigadora em psicologia política

Quem é Kast?

José Antonio Kast nasceu em Santiago do Chile em 1966. Seus pais, Michael Kast Schindele e Olga Rist Hagspiel, eram imigrantes alemães. Michael foi oficial da Wehrmacht, as forças armadas unificadas da Alemanha nazi, desde 1935 até o fim da Segunda Guerra Mundial. Seu irmão, Miguel Kast, foi ministro de Estado e presidente do Banco Central durante a ditadura Pinochet.

Estudou em colégios alemães e posteriormente se graduou em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Chile.

Foi vereador de Buin de 1996 a 2000. Posteriormente foi deputado na mesma região. Representou o distrito 30 (Buin, Paine, Calera de Tanto e San Bernardo) de 2014 a 2018. Foi membro da Câmara dos Deputados representando o distrito 24 (Peñalolén e La Reina).

Em 2017 obteve o quarto lugar nas eleições presidenciais. Em 2019 fundou o Partido Republicano.

Com uma trajetória morna e sem grande destaque, Kast encerrou o primeiro turno com 27,95% dos votos, superando seu opositor e desvelando que, mesmo após a onda de protestos que marcaram o Chile em 2019, e que demonstravam a total insatisfação com o neoliberalismo que domina o país há décadas, suas propostas e negacionismo sobre a ditadura encontraram ressonância social, principalmente no cenário de instabilidade instalado nos últimos anos.

Segundo o analista político Jorge Schulson:

“Kast é um político extremamente conservador, implacável, anticomunista e inimigo de tudo o que considera “politicamente correto” […] Um adversário da modernidade, contrário ao matrimônio igualitário, ao aborto em qualquer forma, indiferente aos direitos da comunidade LGBTQ e ao feminismo”.

A possível vitória de José Antonio Kast é também uma ameaça à nova Constituição que viria a substituir a de 1980, um forte resquício do período Pinochet. O candidato já se mostrou completamente desfavorável à elaboração da nova Constituinte, o que seria mais um retrocesso social, principalmente para os povos originários.

No dia 29, Antonio Kast viajou para os Estados Unidos. O candidato teve uma série de reuniões com empresários e políticos. Enquanto isso, no Chile, Boric segue visitando as diversas comunidades e buscando estreitar os laços com a população, uma tentativa mais orgânica e real de fazer política.

Na cidade do México, nesta semana, o grupo de Puebla se reuniu e não deixou de mostrar preocupação com os rumos da política continental. Da ameaça à democracia peruana ao avanço da ultradireita, os mais de 150 políticos de viés progressista, entre eles os ex-presidentes Rafael Correa (Equador), Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (Brasil), Ernesto Samper (Colômbia), Leonel Fernández (República Dominicana), Evo Morales (Bolívia), Manuel Zelaya (Honduras), Martín Torrijos (Panamá), Fernando Lugo (Paraguai), José Luis Rodríguez Zapatero (Espanha) e Pepe Mujica (Uruguai), demonstraram os perigos do atual momento de enorme fragilidade que atravessa nosso continente, o que compromete a integração regional.

O coordenador do Grupo de Puebla, Marco Enríquez-Ominami, ex-candidato à Presidência do Chile, chamou a esquerda latino-americana no sentido de preservar os ideais democráticos e defender a sociedade contra o avanço da extrema direita.

“Acho que temos que confrontar. O erro que pode ser cometido em um segundo turno no Chile é não confrontar Kast. Ele é um candidato de extrema direita, um misógino e um fascista. Se não dissermos isso, não seremos audíveis.”

Enríquez-Ominami

Não sabemos o que ocorrerá no próximo dia 19 de dezembro. O certo é que a chegada de José Antonio Kast ao segundo turno já expõe os problemas que a esquerda latino-americana necessita combater.

Sem dúvida, resgatar as estruturas, a aproximação genuína com a classe trabalhadora e projetos sociais que visam ao bem-estar da maioria, e travar efetivo combate aos oportunistas políticos fazem parte da agenda da esquerda para o próximo ano.

A cadela do fascismo está sempre no cio, já dizia Bertold Brecht. A falta de entendimento que o fascismo ressoa fortemente no seio da classe trabalhadora quando essa é abandonada é um dos maiores equívocos que a esquerda vem cometendo, e já passou da hora de colocar os holofotes no povo, reduzir as demandas individuais e estabelecer a democracia como a arte do bem comum.

https://www.lavoz.com.ar/mundo/quien-es-jose-antonio-kast-el-candidato-que-lidera-las-encuestas-de-las-elecciones-en-chile/

https://www.rfi.fr/pt/programas/convidado/20211122-chile-extrema-direita-vence-primeira-volta-das-presidenciais

https://www.washingtonpost.com/es/opinions/2021/11/17/chile-elecciones-2021-jose-antonio-kast-derecha-extrema/

https://www.efe.com/efe/brasil/mundo/grupo-de-puebla-convoca-para-confrontar-extrema-direita-e-critica-bolsonaro/50000243-4687294

https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-59375009

Camila Koenigstein – Graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica – SP e pós graduada em Sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Política – SP. Atualmente faz Mestrado em Ciências Sociais, com ênfase em América Latina y Caribe pela Universidade de Buenos Aires (UBA). Colaboradora da Agência latino América de información e do Jornal Resumen latinoamericano. Colunista do Jornal GGN, portal de notícias Pragmatismo Político.

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