FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: PAULO FREIRE, EDUCADOR DO OPRIMIDO COMO CLASSE

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José Alcimar de Oliveira *

O otimismo, em sua essência, não é um ponto de vista sobre a situação presente, mas uma força vital,
uma força da esperança onde outros resignam, uma força para manter a cabeça erguida quando tudo
parece falhar, uma força para aguentar reveses, uma força que jamais cede o futuro ao adversário,
mas o reclama para si. Certamente existe também um otimismo covarde, tolo, que deve ser rejeitado.
Mas ninguém deve colocar sob suspeição o otimismo como vontade voltada para o futuro, mesmo que
ele erre centenas de vezes (Dietrich Bonhoeffer, 1906-1945, pastor protestante executado a mando de

Hitler no dia 09 de abril de 1945).

01. É neste ano, de acelerada regressão cognitiva e política, que o
Brasil que se recusa a entregar o futuro às forças do ódio organizado como
forma de governo, celebra o centenário de nascimento de seu maior
educador, Paulo Freire, nascido em 19 de setembro de 1921. A Pedagogia
do Oprimido, de 1968, seu livro mais conhecido e objeto de estudo nas
principais universidades dos cinco continentes, é a terceira obra na área de
ciências sociais e humanas mais citada no mundo, segundo a London
School of Economics. Exilado do Brasil pela ditadura empresarial-militar
em 1964, Paulo Freire só pôde regressar à sua pátria em 1979 por força da
Lei da Anistia e sua volta definitiva ocorreu somente em 1980. Em maio de
1982 esteve pela primeira vez em Manaus, calorosamente recebido e
saudado pela população, sobretudo estudantes e trabalhadores da educação.
Guardo até hoje comigo, em folhas amarelecidas, as anotações que fiz de
seu encontro na Universidade Federal do Amazonas. A Manaus de 2021
ganharia muito se revisitasse, pelo exercício da memória, a Manaus que
recebeu Paulo Freire em 1982.

 

02. Quase 40 anos depois de sua vinda a Manaus e no ano do
centenário de seu nascimento, o Patrono da educação brasileira está, há
pelo menos cinco anos, sobretudo a partir do golpe jurídico, parlamentar e
empresarial de 2016, submetido à mais retrógrada campanha de
desqualificação que já se fez a um pensador brasileiro. Paulo Freire é
vítima de um duplo exílio no Brasil: em vida em 1964 e em morte neste
2021. Parece que a boa consciência da estupidez quanto menos o conhece
mais o detesta. Enquanto seus leitores, estudiosos e militantes de sua práxis
educativa e libertadora sentem-se intimidados e muitos nem ousam
pronunciar seu nome, os fanáticos andam à solta, nas instituições de ensino
e fora delas, a atacá-lo sem que jamais tenham tido contato com o seu

legado pedagógico. Vítima do ódio e da ignorância de gente boçal e
reacionária, Paulo Freire é de outro Brasil. O Brasil de Paulo Freire, o
nosso Brasil, é o país da educação “como prática de liberdade”, da
educação como “um ato de conhecimento, (como) uma aproximação crítica
da realidade”. Em Paulo Freire método não é procedimento técnico, é antes
teoria do conhecimento. Paulo Freire não criou um método, mas uma teoria
dialética (porque dialógica) da educação.

 

03. O que ocorre neste 2021 é a demonstração da parte de um Brasil
que regride rumo às sombras. As sombras da ignorância avançam mais
rapidamente do que as luzes da razão histórica. É triste verificar, sobretudo
nas redes sociais, pessoas que nunca leram uma só linha da grandiosa obra
de Paulo Freire seguirem esse andor de ignorância e intolerância. Sou um
leitor e admirador de sua obra teórica e de sua práxis política e educativa
desde 1978, quando iniciei o Curso de Filosofia e Teologia no antigo
Cenesch, vinculado à CNBB Norte I. Triste do país que desonra seus
mestres. Triste do país que promove o fanatismo. O fanático vive da
vontade de crença e sua cabeça obstinada é permanentemente reativada por
um tipo de dissonância epistemológica: estado cognitivo de uma
mentalidade que faz da alienação seu alimento cultural, fidelizada que é
pela ignorância, e que consiste em rejeitar de forma quase instintiva
aqueles conteúdos cuja consciência foi programada para rejeitar,
independentemente da força objetiva da prova. O fanático é um prisioneiro
mental, alguém possuído pelo objeto de sua crença. É escravo de um duplo
ódio: ao conhecimento e à política. Combina misologia e misogoria.

 

04. Para falar de suas raízes e de sua grandiosa e orgânica origem
intelectual, Paulo Freire é um filho legítimo do pensamento dialético de
Sócrates, Jesus, Hegel, Marx e dos grandes pensadores e educadores do
século XX. A sua pedagogia dialógica, cujo conteúdo classista é devedor
da tradição materialista histórica e dialética da filosofia, se constitui não a
partir do sujeito burguês, pertencente a um ambiente cultural e político que
Habermas denomina de comunidade ideal de fala, mas antes a partir do
sujeito histórico submetido como classe à situação estrutural da exploração
da burguesia sobre o proletariado. Sua pedagogia é a da superação do
mutismo a que o povo é condenado a viver, impedindo-o de falar de si
como oprimido e de falar contra a opressão de classe. O sujeito social e
histórico a quem Paulo Freire dedica sua Pedagogia do oprimido é
revelador de sua opção classista: “aos esfarrapados do mundo e aos que
neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas,
sobretudo, com eles lutam”.

 

 

05. Dentre os pensadores e educadores do século XX, um pensador
brasileiro pouco lembrado é Álvaro Vieira Pinto, a quem, na sua Pedagogia
do oprimido, Paulo Freire chama de “mestre brasileiro”. A este grande
mestre (de Darcy Ribeiro, inclusive) Paulo Freire manifesta seu
agradecimento por ter consentido que citasse sua portentosa Ciência e
existência: problemas filosóficos da pesquisa científica ainda antes da
publicação. Já disse mais de uma vez que a melhor definição de Paris,
cidade que até hoje não conheço, e que há 150 anos foi palco do primeiro
Governo Operário e Comunal da História, me veio de Walter Benjamin:
um imenso salão de biblioteca atravessado pelo Sena. Quisera que o maior
monumento de Manaus fosse uma biblioteca de frente para o rio Negro.
Que povo poderá se assenhorar das armas da crítica e do conhecimento
num país em que a política de governo incentiva e facilita mais a circulação
de armas do que de livros?

 

06. Em homenagem a Álvaro Vieira Pinto, reproduzo uma citação de
Ciência e Existência feita por Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido:
“O método é, na verdade, a forma exterior e materializada em atos, que
assume a propriedade fundamental da consciência: a sua intencionalidade.
O próprio da consciência é estar com o mundo e este procedimento é
permanente e irrecusável. Portanto, a consciência é, em sua essência, um
‘caminho para’ algo que não é ela, que está fora dela, que a circunda e que
ela apreende por sua capacidade ideativa. Por definição, a consciência é,
pois, método, entendido este no seu sentido de máxima generalidade. Tal é
a raiz do método, assim como tal é a essência da consciência, que só existe
enquanto faculdade abstrata e metódica”. Diria que pelo método a leitura
da palavra, sempre antecedida pela leitura do mundo, é que o oprimido
pode dialetizar o mundo e a palavra. Alfabetizar, em Paulo Freire, não é
soletrar mecanicamente fonemas. É ler a palavra a partir do mundo do
oprimido. É agendar no calendário dialético a práxis da undécima Tese de
Marx sobre Feuerbach.

 

07. Paulo Freire lidava com pessoas, com nome-carne-e-osso, de mil-
e-tantas-misérias, como diz o grande Guimarães Rosa; falava com o
oprimido, do oprimido e a partir do oprimido como classe social.
Diferentemente da burguesia inflada de si, ressentida, contente e assassina,
que lida apenas com números. A burguesia conta com meios para assepsiar
a realidade, tergiversar, manipular os fatos. Para a linguagem burocrática
dos tecnocratas a manipulação das consciências está sempre na ponta da
língua e os problemas reais do povo são facilmente escamoteados. O Brasil
hoje converteu-se numa usina de falsificação da história, de destruição da

memória e de mitificação da realidade. Tudo dentro e sob o controle da
ordem do crime, da barbárie e da necrocracia. Sem indignação ética e justa
revolta, e sob o método da luta de classes, não cessará a torrente de
morticínio desta pandemia, sobretudo devastadora para a classe que vive do
trabalho e produz a riqueza de que é impedida de se apropriar. Vida longa à
memória irredenta do educador Paulo Freire, que fez da práxis educativa
um ato de conhecimento e um itinerário de libertação do oprimido como
classe.

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do
cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, no dia 19 de setembro do ano do morticínio de 2021.

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