FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: IN PRINCIPIO ERAT VERBUM (Jo 1,1) OU SOBRE A BELEZA DA TEORIA
Por José Alcimar de Oliveira*
01. No reino do negacionismo e da ostentação da ignorância
arrogante alçou-se a estatuto de regra a demonização da teoria. A postagem
converteu-se em critério de verdade. É tudo muito rápido. Caiu no esgoto,
em que hoje a mentira programática transforma e tolda boa parte das redes
sociais, é peixe. O velho Sócrates, e a quem interessar posso disponibilizar
o WhatsApp dele, reconhecia diante dos seus acusadores “que não se tenha
por difícil escapar à morte, porque muito mais difícil é escapar à maldade;
ela corre mais ligeira que a morte”. Devemos a Sócrates o cultivo da única
ignorância que possui estatuto epistemológico: a ignorância que reconhece
os limites do saber humano. Este princípio socrático mereceu um belo
estudo, intitulado De docta ignorantia (Sobre a douta ignorância), do
pensador Nicolau de Cusa (1401-1464), lá pelos finais da chamada Idade
Média.
02. Sócrates e Nicolau de Cusa merecem ser revisitados nesses
tempos sombrios e presididos pelo obscurantismo. Como pensar dá
trabalho e exige a chamada paciência do conceito (Hegel), o indivíduo
recorre, célere, ao que já está mastigado. Peirce faz incômoda advertência
aos que optam por uma filosofia mastigada. Estes terminam, na sua pressa
e na inconsciência própria ignorância, ou mesmo má fé, por ingerir
alimento estragado. Dentre as muitas mercadorias produzidas pelo mercado
pós-moderno ainda não se encontra filtro cognitivo com efeito imediato. E
não creio que se produzirá nos tempos próximos. Vacina contra o
coronavírus já há várias. A única vacina contra o vírus social da ignorância
já existe desde os tempos da Grécia e Roma antigas, do Antigo Testamento
e dos Povos Orientais.
03. No Livro dos Provérbios, reconhecido como o mais
representativo da literatura bíblico-sapiencial, escrito entre os séculos IV e
III a. C., encontramos esta precisa e atualíssima admoestação contra os
odiadores da sabedoria: “Até quando, insensatos, amareis a tolice, e os
tolos odiarão a ciência?” (1,22). Sócrates, em sua Defesa – na verdade a
mais bela defesa da Filosofia conhecida, e escrita por Platão – sustenta
altivo diante de seus acusadores, todos já devidamente encaminhados à
lixeira da história, que uma vida carente de reflexão é vida indigna do ser
humano. Todas as formas de autoritarismo vicejam e se alimentam da
propagação da ignorância. A ignorância é essencialmente monocrática. É
um deserto verde, como a de uma extensiva plantação de soja comparada à
riqueza de biomas como os da Amazônia ou da Mata Atlântica.
04. O tempo da pressa, da razão pós-moderna, do consumo
compulsivo, é intrinsecamente inimigo da Teoria e da Filosofia. Dotada de
pernas e ideias curtas, a mentira recorre à pressa para se impor. Mas o
apressado come cru e come mal. A Ave de Minerva, associada à Filosofia
desde os tempos antigos, não alça voo premida pela resposta instintiva. A
resposta instintiva, necessária à sobrevivência do ser vivo, dispensa teoria,
porque restaria insensato, diante de um carro em desgoverno, pensar
primeiro tempo e espaço como formas de sensibilidade a priori e somente
depois dar o pulo salvífico. No pulo do gato, mais do que formas a priori,
tempo e espaço são da natureza do instinto. Schopenhauer tinha um cão
filosófico, mas não há notícia de que Kant tivesse um gato afeito a ideias
puras.
05. A Filosofia respeita o instinto, mas não tem nele sua fonte. Por
segurança e prudência, ela não alça voo ao cantar do galo. Aguarda o
entardecer, como nos relata o conceito imagético de Hegel. Para voar alto,
e ver as contradições sob a visão dialética da totalidade, ela não cede à
impulsividade do agir irrefletido. Ela demora a dar a mordida e se abstém
das iscas e dos efeitos enfeitiçadores que tomam o instinto pela razão. A
sua teoria nasce da práxis, da síntese dialética, para escapar à miséria do
teoricismo e ao imediatismo voluntarista. A Filosofia não se move em linha
reta, o que não significa ausência de retidão. Se a Filosofia não descarta o
aparente, também não o toma como suporte primeiro da verdade. A
sabedoria popular já indica que é na casa da aparência que o engano
encontra conforto.
06. Para que a Filosofia cumpra o que dela espera Wittgenstein:
neutralizar os efeitos enfeitiçadores que a linguagem exerce sobre o
pensamento, é preciso ir além do procedimento analítico do discurso e
submetê-lo ao crivo da práxis. O que vale para Deus não vale
necessariamente para o ser humano. Se desde o início, que não teve início,
o Verbo é o princípio (in principio erat Verbum) e a própria Verdade, na
espécie humana a verdade é busca. Não é, a rigor, nem ponto de partida,
nem de chegada. Karl Jaspers afirma que a Filosofia se move mais pela
busca do que pela posse da verdade. Deus pode prescindir da dialética, o
homem jamais. No reino do que é Eterno, Onisciente, Onipresente,
Imutável não há lugar para a dialética, que se fundamenta no devir.
07. A ideologia da pressa pós-moderna, que almeja resultado sem
processo, retorno imediato sem a fadiga das mediações, infesta as
consciências, sobretudo da juventude – mas não poupa nenhuma faixa
etária – com a crença de que cinzenta e inútil é a Teoria, e tanto mais a
Filosofia. No Fausto, de Goethe (1749-1832), Mefistófeles tenta incutir na
mente do jovem estudante a sentença de que “aquele que desfruta o
momento fugaz, esse é para mim um homem verdadeiro”, que para
alcançar a felicidade imediata e cintilante deve-se abandonar o penoso
caminho da reflexão, porque, afinal, como tenta ele, o príncipe das
artimanhas, deve o jovem reconhecer “que cinzenta, caro amigo, é toda
teoria, verdejante e dourada é a árvore da vida!”. Já numa idade quase
imune aos interesses e investidas de Mefistófeles, tento me proteger de sua
lábia sedutora recorrendo a Bachelard, um dos meus santos de profana
devoção, ao afirmar que “a ciência é a estética da inteligência”.
* José Alcimar de Oliveira, vacinado contra o negacionismo, é professor do Departamento de
Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios
Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, no dia 14 de fevereiro do ano (ainda coronavirano) de
2021.
Caríssimo Mestre José Alcimar , suas Reflexões Filosóficas são como um antivírus contra a estupidez dos humanos . Sou sou fã Incondicional .