FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: JESUS DE NAZARÉ E GADAMER: AS ARMAS DA CURA EM MÃOS LIVRES E DESARMADAS
Por José Alcimar de Oliveira*
Habita, pois, na essência da saúde
manter-se dentro de suas próprias medidas
(Gadamer)
01. A liturgia cristã católica de Rito Romano divide o ano
litúrgico em A, B e C, ao longo dos quais, respectivamente, são lidos os
Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. O de João é especialmente
destinado aos tempos especiais, como as grandes festas e
solenidades, tal como a da Semana Santa. Neste 2021 estamos no
Ano B, com o Evangelho de São Marcos. Neste domingo, dia 07 de
fevereiro de 2021, o texto do Evangelho lido em todas as missas,
para Roma e para o mundo, Urbi et Orbi, vem de Marcos 1,29-39,
com o relato de uma cura feita pelas mãos de Jesus de Nazaré. A
pessoa curada, não de Covid-19, mas de uma febre, foi a sogra de
Simão Pedro. Grande parte da missão do Nazareno foi dedicada à
cura e à dimensão pedagógica que Ele dispensava aos enfermos.
02. Não sou antropólogo. No máximo dialogo com a
Antropologia Filosófica, que para Kant seria o caminho para tatear
uma resposta à pergunta “o que é o homem?”. Para Kant, pensador
incontornável quando se pensa o conceito e os limites da razão, esta
pergunta, “o que é o homem?”, resumiria as três questões em que
poderiam caber as maiores preocupações da Filosofia: o que posso
conhecer?, o que devo fazer? e o que me é permitido esperar? O
evangelista João relata que Jesus de Nazaré, que não foi um leitor
de Kant, tinha conhecimento do que havia no homem (Jo 2,25). Não
tinha necessidade de ouvir relatos fulanizados. Estamos aí diante de
uma afirmação com peso ontológico.
03. O diálogo entre Saúde e Sabedoria atravessa o pensamento
dos povos. A tradição do pensamento grego nos mostra que a
palavra, o verbo, o logos, é um tipo de phármakon (veneno) que, a
depender da medida dosada, pode igualmente curar e matar.
Epicuro, sempre lido com reservas pela ortodoxia cristã, nos deixou
de herança o chamado tetra phármakon, ou quádruplo remédio,
que, por obra de um fiel discípulo, de nome Diógenes, deixou
gravado num muro (um tipo de outdoor da época) na cidade de
Enoanda, na Turquia atual. Eram quatro princípios para manter a
saúde da alma. Em todos os povos se registra o cultivo dos
phármakons. Os phármakons dos povos da Hileia, a despeito do
descaso daqueles que imaginam a Hélade como a referência das
referências da História da Medicina, têm igual direito a um estatuto
filosófico, se por Filosofia compreendemos a ideia de Sabedoria de
vida. O grande Agostinho nos diz que a verdadeira medida da alma
humana é a Sabedoria.
04. Edgar Morin, Filósofo que emplacará 100 anos neste 2021,
inclui Jesus de Nazaré entre seus Filósofos prediletos. Se tomarmos
a Filosofia num sentido gramsciano, Morin está certíssimo. Para um
cultor da Filosofia encastelada nos muros acadêmicos e devedora
dos carimbos da lattescracia (e o genial César Lattes, com razão, não
gostaria de ver seu nome associado a esse tipo de delinquência
refinada), seria algo herético chamar Jesus de Filósofo ou Médico.
Para mim, em sentido largo e sapiencial, ele é as duas coisas: Sábio
e Curador. Pajé e Benzedor. Nos relatos dos Evangelhos Jesus de
Nazaré combina, de forma sábia e solidária, medicina preventiva e
medicina curativa. A cura do corpo não pode prescindir da cura da
alma. O prevalente e disseminado negacionismo e ódio à Filosofia e
à Ciência atentam contra a unidualidade das duas práticas.
05. Ao curar a sogra de Simão Pedro, acamada em razão de
uma forte febre, Jesus de Nazaré trabalhou o espírito e o corpo da
genitora de seu intrépido Apóstolo. Tão logo viu-se ela livre da
febre, começou a servi-los. Tornou-se, à época, uma agente da
Pastoral da Saúde. A prática da cura operada por Jesus de Nazaré
implica a clínica e a prevenção. Mãos e mentes à obra. Porque tinha
mãos e mente livres e desarmadas, indignava-se com os milagreiros
da época. A única vez que recorreu às armas, no caso um pequeno
chicote, foi para expulsar os que oprimiam e enganavam o povo por
meio da negociata venal das curas e ofertas legitimadas pela religião
do templo. A dignidade do benzedor e de sua benzedura não
admitem troca venal.
06. As armas de Jesus de Nazaré eram as da Fé emancipada de
superstição. Fé e Vida. Fé e Consciência. Fé e Liberdade.
Conhecereis a Verdade e o Conhecimento da Verdade os fará Livres.
Mãos que curam não se ocupam de armas. A indústria farmacêutica
se alimenta da doença e funciona, com a conivência e do Estado
burguês, como um dos braços armados do sistema do capital. A
Saúde pública, preventiva, cada vez mais é marginalizada e objeto
de reservas nos Cursos de Medicina. Investir em política de saúde
coletiva não engorda nem satisfaz a avidez de lucro da indústria
farmacêutica. Há uma proporção inversa entre o aumento do
número de drogarias e higidez coletiva. Na necrópole de Manaus,
em que se respira o ar da doença e da morte, deveria causar
estranheza a quantidade, sempre crescente, de drogarias de sua
degradada geometria urbana.
07. O tratar e curar com as mãos está entre os invariantes
culturais da história dos povos. Essas práticas milenares, e ainda
presentes e vivas nos povos indígenas da Hiléia, não encontram
abrigo, nem mesmo como objeto de estudo, na estrutura de ensino
dos Cursos de Medicina. Nesse regime de apartação cognitiva
perdem ambos, com a diferença de que a perda maior e irreversível
pende para o lado da medicina originária. Antônio Luz Costa,
tradutor do livro O caráter oculto da saúde, de Hans-Georg
Gadamer, chama nossa atenção para a aproximação que há, na
língua alemã, entre “tratar” (behandein) e “mão” (Hand). A
excessiva confiança na instrumentalização diagnóstica tem
concorrido para o desprestígio do tratar com as mãos praticado por
Jesus de Nazaré. Segundo Gadamer, “não é apenas o progresso
científico da medicina clínica ou a infiltração de métodos químicos
na biologia que faz o grande médico”.
Jesus e Gadamer comporão
uma mesa no Grande Simpósio sobre a Verdade de Bela Vista, em
Manacapuru – AM.
*José Alcimar de Oliveira iniciou o curso primário em Jaguaruana, CE. É professor do
Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e
filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos sete dias do mês
de fevereiro do ano (renitentemente) coronavirano de 2021.