“SE TRUMP VENCE ELEIÇÕES VIA AÇÃO JUDICIAL, SERÁ NOCIVO E PODE ATIÇAR BOLSONARO”
Sobre o discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, ele acredita que a comunidade internacional passou a enxergar o Brasil com “ceticismo”. Enquanto os dados indicam que as queimadas na Amazônia e no Pantanal estão aumentando, o presidente “não reconhece o problema e nega sua existência”, além apresentar alguns fatos “falsos” em seu discurso.
Entre os temas de pesquisa de Pereira estão as ditaduras militar brasileira, argentina e chilena e o tratamento que a Justiça desses países dava para os dissidentes políticos, criando o que chama de “legalismo autoritário”. Agora, o professor reflete sobre a presença dos militares como integrantes da burocracia no Governo Bolsonaro. Pereira afirma ser difícil enxergar os militares que ocupam ministérios como “figuras totalmente técnicas”, como eles se apresentaram e são vistos por parcela importante da opinião pública. “Eles estão fazendo uma aposta política e sinto que sabem que estão correndo risco, já que a imagem das Forças Armadas está ligada a um Governo que não responde aos anseios da população”, explica. Para o especialista, isso “pode ser positivo porque podem lutar para limitar os danos e buscar sair dessa situação sem a reputação rasgada”.
O brasilianista também opina que até os militares da reserva que estão no Governo “dificilmente pensam como civis”, mesmo que afastados da cadeia de comando da corporação. Assim, enxerga a defesa de interesses do Exército, como a aproximação com os Estados Unidos para troca de informações de inteligência e acesso ao sistema de defesa norte-americano, e dentro da máquina pública. “Podem defender um orçamento maior para eles ou agir de forma a beneficiar os interesses corporativos”.
“São mais de 6.000 militares nas várias camadas da burocracia federal, e alguns ainda estão na ativa, então existe potencial conflito de interesse”, argumenta. Acredita, porém, que a instituição possui correntes políticas diferentes, como em outras instituições. “Nem todos os militares são necessariamente bolsonaristas, isso é algo que temos que reconhecer.” Da mesma forma, acredita que existe dentro das Forças Armadas aqueles com mais afinidade à ideia de conservação da Amazônia e que consideram que “mais desmatamento gera atenção indesejável para a região”.
Para ele, Bolsonaro respondeu aos anseios de uma sociedade que passou a enxergar que todas as instituições estavam corrompidas. “Existe uma tentação de que precisamos provocar uma ruptura para limpar a democracia e começar de novo. Mas não resolve as coisas. Melhor qualidade de democracia significa mais democracia, e não menos”, defende. Ainda assim, diz enxergar uma “mobilização contrária” ao bolsonarismo no seio da sociedade civil, com pessoas “mais zelosas sobre as instituições e com pluralidade”. Ele acredita que as eleições municipais de 2020, e também as de 2022, podem refletir essa diversidade de interesses. “No longo prazo sou otimista. Vejo a disposição de muitas pessoas, de muitos jovens, de defender e participar das instituições democráticas”.