FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: SOBRE QUINO E MAFALDA

SOBRE QUINO E MAFALDA

Joaquín Salvador Lavado – Quino -, o mais conhecido cartunista do
mundo hispânico, nos deixou hoje, 30 de setembro de 2020, aos 88
anos, completados no dia 17 de julho.

 

Sua Mafalda, segundo Umberto Eco "uma criança zangada

que se recusava a deixar de ser criança",
nascida em 1962, continuará sempre com seis anos de idade.
Ela nasceu com seis anos. Pela cronologia real, teria nascido em
1956, no ano em que morreu Brecht e, assim, teria hoje a minha
idade, 64 anos.

 

Quem não gostaria de ter uma irmã como a Mafalda?
Sempre criança e sábia. Sabedoria ontológica, fenomenológica,
existencial.

Uma, quem sabe a mais famosa sentença filosófica da Mafalda, "justo
a mim me coube ser eu", que ouvi pela primeira vez num curso sobre
Fenomenologia no velho ICHL-UFAM, ministrado pela Professora
Dulce Mara Critelli, da PUC-SP, julgo estar à altura das grandes
sentenças dos pensadores originários, de um Anaximandro, por
exemplo, autor da mais antiga e enigmática sentença filosófica do
mundo ocidental.

 

O que seria de Quino sem a Mafalda? Em tempos de mediática
imbecilização das crianças, moldadas pela tirania do consumo, a
Mafalda de Quino e o Quino da Mafalda parecem restituir a todas as
crianças, pelo devir emancipatório da arte, o direito à verdade da vida,
à inocência da imaginação e ao uso público da linguagem filosófica.

 

Mais do que filosofia para as crianças, Mafalda é a filosofia da criança
em sua expressão mais socrática. Sócrates teria muito a aprender
com Mafalda, que não relutaria em exigir do célebre ateniense uma
defesa a mais consistente do direito à cidadania negado às crianças
na Cidade-Estado de Atenas.

 

Companheiro Quino, presente!

 

Ninguém melhor do que Mafalda para manter viva sua memória.

*José Alcimar é filósofo, escritor, teólogo-não ortodoxo, articulista, doutor e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

1 thought on “FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: SOBRE QUINO E MAFALDA

  1. Muito carinhosa essa forma de expressar Quino e Mafalda como dois seres que ficaram na nossa memória, pela forma de pensar e expressar o pensamento pela linguagem. Mafalda nos ensinava o óbvio, sob o ponto de vista de uma criança inteligente e intransigente, que levava à reflexão necessariamente do seu leitor. Que ela permaneça com seu discurso instigador e que possa ser lembrada sempre, assim como o seu criador. Parabéns pelo texto.

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