Peça 1 – porque governos morrem

Quando não conseguem decifrar o enigma da economia, governos se tornam mais vulneráveis às conspirações ou a mudanças políticas. 

Jango não decifrou o enigma da inflação, e caiu. Figueiredo não administrou a crise externa, a estagnação da economia e a inflação, e a ditadura acabou.

Fernando Henrique Cardoso acabou com o sonho de 20 anos de PSDB quando não administrou a crise externa em 1999. Lula garantiu mais 8 anos de PT quando saiu vitorioso da crise de 2008. E Dilma se tornou suscetível ao golpe do impeachment quando não foi capaz de decifrar o enigma da crise de 2014.

Peça 2 – Guedes, o vendedor de ilusões

Agora, o governo Bolsonaro começa a chegar na mesma encruzilhada que devorou muitos presidentes e consagrou poucos.

Até hoje, Guedes não havia sido submetido a nenhum desafio crônico. Recebeu uma economia morta e a manteve morta, tentando reanimá-la com golpes sucessivos de geração de expectativas inócuas – um estilo muito parecido com o período Guido Mantega, mas tendo uma imprensa mais favorável. Esse apoio permitiu a Guedes exercitar seu estilo de vendedor de Bíblia do mercado de capitais, o sujeito que vende ilusões para captar investidores para seus projetos. Quem o conheceu operando, se surpreendia com sua falta de conhecimento sobre os setores em que investia. Mesmo assim, era capaz de enrolar gestores de carteiras de fundos de pensão e de investimento com promessas mirabolantes.

A razão era uma só. Como os investimentos se davam em novos setores da economia, não havia histórico a ser analisado. Montava-se um finance project, com hipóteses não comprováveis e levava-se no bico o operador de fundos de pensão pouco familiarizado com o mercado, ou seduzido pela proximidade com uma raposa. 

Mais à frente, quando o projeto dava com os burros n´água, realizava-se o prejuízo e jogava na conta da viúva. A Operação Greenfield está aí para comprovar.

Me lembra um personagem dos tempos de juventude, o Boca, que de noite era porteiro da zona da cidade. Um dia ele foi à Bahia e voltou com um patuá para conquistar moças. Quem comprasse que nem se importasse com as cinco primeiras que cairiam aos seus pés. As seguintes seriam melhores ainda. Um amigo comprou só para conferir do que era feita a magia. Era uma cabeça de alho gigante, amassada e fedida.

À frente do Ministério da Economia, o patuá de Guedes são as reformas. Se a reforma da Previdência for aprovada, o Brasil cresce. Se a reforma tributária for aprovada, o Brasil cresce mais ainda, mesmo que não tenha crescido nada com a reforma anterior. Se a reforma administrativa for aprovada, então nem se fala.

Aí o país compra o patuá. Passa um tempo, não aparece nenhuma moça. O Paulo “Boca” Guedes manda esperar que a seguinte será melhor ainda. Mesmo qualquer coisa sendo melhor que nada, não aparece nem a anterior nem a seguinte. Aí reitera a promessa. Depois da terceira ou quarta promessa não atendida, cai a ficha do país que a cabeça de alho não funciona.

Agora, chegou a hora da verdade. 

Há três nuvens no horizonte, um presidente negacionista e um Ministro da Economia inepto. No seu período de graça, Guedes foi incapaz de gerenciar sua equipe,  perdeu-se em uma miríade de prioridades conflitantes, jamais demonstrou conhecer os mecanismos de política pública, nem procurou se aprofundar nos estudos sobre os impactos do Covid-19 na economia. Mesmo assim, o coral de papagaios da mídia não se cansava de tratar a equipe de Guedes como “brilhante”. 

Agora, com as nuvens surgindo no horizonte, acabou o treino e começará o jogo, com três harpias sobrevoando o país. Mas, como diz Adolfo Sachida, Secretário de Política Econômica de Guedes, emulando o discurso do chefe,  “a partir de julho, teremos 18 meses que vão entrar para a história do Brasil, 18 meses de reformas”.

Peça 3 – os 3 enigmas a serem decifrados

Desafio 1 – a inflação

Conforme você pode conferir na Coluna Econômica de hoje, há um movimento de alta disseminada de preços ao produtor que, em breve, entrará nos índices de preços ao consumidor.

Os dados do Índice de Preços ao Produtor (IPP) do IBGE mostram uma alta disseminada em todos os setores da indústria de transformação. Aparentemente a pandemia promoveu uma ampla desestruturação da cadeia produtiva reduzindo a oferta. Ao mesmo tempo, a desvalorização do real aumentou muitos insumos comercializáveis. Agora, com a volta da demanda, criam-se gargalos que levam a aumentos disseminados de preços.

Desafio 2 – as taxas futuras de juros

A fim de fortalecer a Lei do Teto, Guedes desenvolveu um discurso de fim de mundo, marca sua desde os anos 90. Tipo, se a Lei do Teto for desrespeitada, o Brasil acaba.

Ocorre que a lei se tornou inviável: terá que ser revogada. Na voz de um Ministro racional, e com credibilidade, a transição seria tranquila.  Hoje em dia há quase consenso global de que, em momentos de recessão aguda, pode-se emitir moeda, em vez de emitir títulos da dívida, sem nenhuma contraindicação. A emissão ajudaria a financiar programas de apoio social e investimentos públicos. E, com isso, permitir uma recuperação mais rápida da economia e uma redução do déficit público via aumento da arrecadação.

Mas a insistência de Guedes na sacralização da Lei do Teto, tornou-o prisioneiro de uma ficção e criou um gatilho interessante para os grandes investidores de títulos públicos. 

Há dois tipos de taxas de juros básicas na economia: as pré-fixadas e as pós-fixadas, corrigidas pelo IPCA, A pré-fixada tem que levar em conta a inflação futura esperada, mais uma taxa de remuneração. A diferença entre a taxa pré e a pós equivalente é a chamada inflação implícita – ou seja, quanto o mercado está esperando da inflação futura. E essa curva tem aumentado dia a dia.

Os grandes investidores trabalham com gatilhos de expectativa. Por exemplo, criam um jogo de expectativa em relação à reforma A. A cada dia que passa um noticiário financeiro acrítico vai atribuindo oscilações de câmbio e juros às expectativas pela aprovação ou não das reformas. Os grandões vão adquirindo câmbio e juros na medida em que as expectativas açulam as altas. Um pouco antes do fato consumado, vendem seus ativos, fazem lucro e o mercado despenca.

Trata-se fundamentalmente de uma guerra de expectativas, tendo de um lado o Banco Central e o Tesouro; de outro, o mercado. Ocorre que o ponto central de batalha são as declarações e a atuação do Ministro da Economia, autoridade maior. E Guedes é um macaco em loja de louças.

Ao rei entrega-se tudo, menos a dignidade. 

Moro entregou tudo o que Bolsonaro queria, aceitou humilhações, puxadas de orelha em público. Mas a indicação do diretor-geral da Polícia Federal, sem que fosse consultado, seria humilhação demais, que liquidaria definitivamente sua imagem perante a opinião pública. O DG da PF de Guedes é a Lei do Teto. Nos últimos dias, Guedes até amansou a prepotência, tornou-se humilde, acatando os puxões de orelha aplicados por Bolsonaro. Mas o fim da Lei do Teto seria a perda final da dignidade.

A Lei do Teto vai ser revogada, sim. Com ela será impossível qualquer programa de revitalização da economia ou de renda mínima. Mas em lugar de uma transição normal, sem traumas, provocará um terremoto no mercado. 

Desafio 3 – emprego e renda

Ainda não houve um balanço final dos prejuízos do país com o Covid-19. As pessoas ficaram em isolamento, vivendo da renda básica, de poupança guardada ou da ajuda de parentes e amigos. À medida em que a economia for se abrindo, e o IBGE voltar com as pesquisas em domicílio, dará para se ter uma ideia melhor do tamanho do estrago. Que não é pequeno.

Nesse período, houve enorme dispensa de trabalhadores, fechamento de micro e pequenas empresas, desarticulação de setores inteiros. O desemprego está sendo mascarado pela fato de parte dos desempregados não terem voltado a buscar emprego, seja por receio do Covid-19, seja por falta de oferta.

Além disso, a alta de preços tem afetado principalmente a cesta básica, criando um fator a mais de pressão sobre as famílias. Só para efeito de comparação, em São Paulo, segundo levantamentos do DIEESE, o valor atual da cesta básica corresponde a 55,9% do valor do salário mínimo líquido.

Peça 4 – a nova lógica política

O desafio que vem pela frente é para gente grande.

De um lado, o agravamento da questão social, aumentou o descontentamento popular. A única arma do governo para se contrapor a essa pressão é a renda básica. Aí já se trata de questão de sobrevivência política, da qual Bolsonaro não abrirá mão.

Em um primeiro tempo, Bolsonaro acenava para seus fanáticos com retórica e para o mercado com ortodoxia. A popularidade começou a cair.

Ameaçado de cassação por seus arrufos, deixou de lado a retórica e se escudou somente no mercado. A popularidade deixou de cair meramente porque Bolsonaro deixou de falar.

Aí o Congresso lhe mostrou o caminho das pedras, com o aumento dos valores da renda básica. A popularidade começou a subir e Bolsonaro caiu de cabeça, por gravidade, no padrão convencional do populismo de direita: pão e circo. Seu parceiro preferencial passou a ser a população de baixa renda, não mais o mercado e os radicais.

Caberia a Guedes encontrar a forma de conciliar mercado e políticas distributivistas. E, aí, falta imaginação, a retórica já se desgastou. 

Para atender o mercado, não pretende tributar ganhos financeiros e quer restringir os gastos sociais ao que já existe. Ou seja, tirar do pobre para dar ao paupérrimo, hipótese já afastada por Bolsonaro. Para financiar a renda básica, tira-se do Fundeb e dos precatórios. E apresenta essa ideia ao Congresso, logo depois da Casa ter aprovado o novo Fundeb como uma vitória coletiva. Ou seja, um completo sem-noção.

É simbólica a cena de outro dia, com o líder do governo na Câmara e um dos generais arrastando Guedes de uma coletiva para ele parar de falar. E Guedes, mesmo sendo arrastado, tenta continuar a fala. Lembra o velho Boca quando sentava em uma mesa sem ser convidado, não parava de falar sobre o seu patuá da Bahia, mesmo quando era arrastado para longe.

Por outro lado, há um conjunto grande de pressões sobre os preços, e as expectativas do mercado e das empresas estão ancoradas na falsa premissa da manutenção da Lei do Teto.

Guedes não dispõe de nenhuma estratégia para combater a alta disseminada de preços. Seu ideologismo rasteiro impede qualquer intervenção no mercado, mesmo aquelas usuais em economias de mercado, como estoques reguladores ou atuação anticíclica do BC no mercado de taxas.

Peça 5 – as incertezas

Há uma certeza e várias incertezas pelo caminho.

Certeza 1 – O descarte de Guedes. 

Bolsonaro parece ter se dado conta de que foi levado no bico pela conversa de Guedes. O próprio mercado não parece muito paciente com os erros e a falta de funcionalidade do seu Ministro. 

Cada vez mais as prioridades do governo serão a renda cidadã e o Pró-Brasil. Só que, em tempos de procela que se aproximam, não dá para manter um ministro figurativo, que fala pelos cotovelos, não tem o menor senso para administrar expectativas e já se esgarçou com uma longa lista de promessas não cumpridas.

Certeza 2 – Aumento da repressão política. 

Cada vez mais a Polícia Federal está caminhando para se tornar uma polícia política. Prosseguem as intervenções nas universidades federais, o fundamentalismo religioso em todos os níveis. E, na medida em que o nó político aumenta, aumentará a repressão política.

Certeza 3 – o leilão de cargos e dos negócios públicos. 

Ricardo Salles, o Ministro do Meio Ambiente, corre contra o tempo, como se não houvesse amanhã. Em várias partes do governo estão sendo acelerados os negócios, sabendo que as janelas de oportunidade para negociatas poderá se fechar com a crise ou com a eventual perda de popularidade de Bolsonaro.

É uma crise que não terá desfecho amanhã. Mas o cenário acima será o fio condutor da política e da economia brasileira nos próximos meses. E haverá um nó na cabeça dos analistas políticos que trataram Bolsonaro como descartável, antes de virar presidente; o consideraram um gênio, quando a popularidade subiu; e agora terão que reavaliar sua reavaliação, e aceitar que o Brasil é um barco nsendo jogado de um lado para o outro pelas ondas circunstanciais do momento, porque não existe timoneiro nem no Supremo, nem no Congresso, nem nos partidos políticos.