FILÓSOFO LUIZ DE OLIVEIRA CARVALHO*: DIFERENÇA ENTRE PLATÃO E SARTRE

1
images (1)

LUIZ DE OLIVEIRA CARVALHO

 

Para as considerações da comunidade platônica.

 

I. Dentre os grandes filósofos da galeria universal dos pensadores, Platão tem lugar de destaque. Nos meios acadêmicos, a maioria dos intelectuais não costuma, não obstante, expressar publicamente as suas posições anti-platonicistas declaradas.
Com efeito, há platônicos, platonistas e platonicistas. Jogo de palavras? Nem tanto. Quer ver? Penso que as palavras não dizem integralmente nada. Conforme a filosofia da linguagem como ação pragmática, as palavras expressam um campo semântico amplo e irrestrito. Por conseguinte, elas não dizem por si mesmas o sentido exato presumido pelos seus enunciadores.
Desse ponto de vista filosófico-linguístico, o significado preciso das palavras depende do engajamento em uma filosofia linguística consistente, da opção pela ciência do discurso pragmático e pela inserção na arte de dizer por inteiro.
Então, pode-se dizer, seguramente, que o filósofo ateniense Platão, (Aristos para os gregos), tem, entre os seus seguidores e admiradores, várias legiões de estudiosos. Com efeito, dentre esses séquitos se encontram os “platônicos” que são aquelas pessoas que assumiram o mundo das Ideias desse pensador e fizeram dele o reflexo existencial de suas condutas na vida. Em sentido estrito, os “platônicos” não são necessariamente estudiosos, intelectuais ou acadêmicos. São, de fato, indivíduos que “viajam” no mundo fantasioso e intelectualmente idealizado pelo grande filósofo de Atenas.

 

“Grande” não é, de jeito nenhum, um qualificativo sinônimo de “meia-boca”. Imagina! Adjetivar a Vanessa Popozuda de “grande filósofa” é o fim do mundo filosófico. Representa uma comparação transversal que infringe todos os parâmetros axiológicos. Ele é considerado um grande pensador porque produziu uma obra filosófica e literária monumental. Além disso, Platão é digno de ser qualificado de “grande filósofo” porque é o pensador sobre o qual mais estudos acadêmicos – em nível de graduação e pós-graduação – já foram produzidos nas memoráveis Universidades e Academias ocidentais.
Para ser platônico não precisa, pois, ter estudos acadêmicos e universitários sobre o seu sistema filosófico ou sobre as suas teorias filosóficas. Basta, nesse caso, assumir, na vida, uma conduta afinada com a metafísica do mundo das Ideias platônicas. Por isso, o “amor platônico” constitui um exemplo comum dessa atitude. Assim, conduzir-se por valores abstratos e intangíveis representa, por extensão, uma atitude existencial de perfil “platônico”.

 

O outro séquito de seus seguidores são os “platonistas”. Para o senso comum ou popular que não zela pelo uso da língua matricial é tudo a mesma coisa. “Platônicos” e “platonistas” são tudo a mesma coisa. Não é não. Primeiro, o termo “platonista” constitui um espanholismo derivado da palavra castelhana “Platon” que dá nome, em espanhol, ao pensador. Todavia, embora o termo carregue consigo um caráter esdrúxulo etimologicamente, ele implica um traço acadêmico próprio dos estudiosos da filosofia do pensador grego em língua espanhola.

 

Por fim, o séquito dos “platonicistas” constitui a elite acadêmica e intelectual dos seguidores de Platão. Este termo é o que mais se ajusta ao vernáculo gramatical e etimológico designativo dos estudiosos ou discípulos do filósofo ateniense. Derivado do adjetivo “platônico”, os “platonicistas” representam a classe dos intelectuais que se filiam ao “platonicismo”, isto é, a ideologia filosófica elaborada para defender o pensamento de Platão e as suas teorias filosóficas.
Com a palavra o Professor Doutor Sérgio Freire, especialista em análise do discurso.

 

De outro modo, não é comum expressões intelectuais e literárias anti-platonicistas. Afinal, cada um que escolha a sua carapuça filosófica ou ideológica! O fato crucial da reflexão filosófica é o de que, em termos de filosofia, não há sursis. Todo estudioso ou intelectual ou é platonicista ou é anti- platonicista. No limite, quem não se enquadra nessa antinomia é porque tem alguma simpatia pela metafísica platônica.

 

II. Platão nasceu em Atenas e era parente de Péricles, o grande gestor da capital helênica. Ele governou Atenas no apogeu da cidade quando a Grécia se tornou a grande civilização hegemônica do mundo antigo.
Como escritor, ele se inclui entre os maiores escritores filosóficos de todos os tempos. Dentre as suas obras mais lidas, encontram-se os textos dos diálogos socráticos “Apologia de Sócrates”, “Fedro”, “Fedon”, “Teeteto”, “O Banquete”, “A República”, “As Leis”, “Timeu” e outros.

 

Esses “Diálogos”, escritos por Platão, tratam de temas diversos tendo como personagem central deles a figura de Sócrates. Mas o tema mais universal que imortalizou o filósofo ateniense, “sub specie aeternitate”, é a doutrina do Mundo das Ideias. Conforme essa doutrina filosófica, ela preconiza a existência de dois mundos. Um é o mundo sensível que é constituído pela dimensão física para a qual temos acesso pelos sentidos. Então, o filósofo ateniense assevera que a maioria das pessoas vincula os seus valores a esse mundo sensorial. Mas esse mundo sensorial é uma mera aparência. Para ele, o mundo sensível é puro simulacro. Ele representa o reflexo de nossas ilusões e, inversamente, refletimos, como um espelho, as percepções que ele nos fornece. Por conseguinte, não devemos nos ocupar filosoficamente com ele. Em síntese, esse mundo sensorial é filosoficamente desprezível e todo o seu conteúdo deve, pois, ser “varrido pra debaixo do tapete”.

 

Para Platão, o verdadeiro mundo tem caráter permanente e duradouro. Esse mundo é constituído de valores altissonantes e eternos, tais como, o Amor, o Bem, a Alma, a Justiça e a Verdade. Então, o filósofo grego propugna uma constituição ontológica para esses entes. Deste modo, o Mundo das
Ideias – que ele designava como o Toposuranos ou Hiperuranos – ganha foros de mundo real. O acesso ao Mundo das Ideias – conforme Platão – constitui um capítulo central da filosofia platônica. Mas esse tema fica para outra ocasião.
A título de conclusão, eu afirmo que o erro de Platão consiste em sua doutrina do desprezo ao mundo sensível e sua crença na separação radical entre o mundo das percepções e o mundo hipostasiado das ideias. Dois pensadores reforçam essa minha tese. Um foi o seu próprio discípulo, Aristóteles, quem asseverou: “Nada há no mundo intelectual que não tenha antes passado pelos sentidos” (“Nihil est in intelecto quod non prius fuerit in sensu”). O filósofo de Estagira, Aristóteles, disse, contra o seu mentor, mais ou menos o seguinte: “Mestre, nem tanto ao mar, nem tanto à terra.” Entendeu. Né?

 

Outro pensador que reforça a minha denúncia do erro de Platão é o filósofo alemão Immanuel Kant. Para ele, todo o nosso conhecimento está limitado aos fenômenos que podemos conceber por meio de nossas intuições sensíveis e por meio de nossas elevações intelectuais. Fora desse processo cognoscitivo, tudo recai no campo de nossas crenças. Então, o Mundo das Ideias platônicas não permite acesso pelos processos cognoscitivos. Nesse caso, somente por meio de crença poderíamos invocar a sua existência.
Em termos filosóficos, como posso, enfim, atestar legitimamente a existência de um mundo para o qual não tenho acesso pelo conhecimento? Talvez seja essa a explicação pela qual essa doutrina do Mundo das Ideias tenha dominado a cultura ocidental por cerca de mil anos! Quer dizer, a sua associação com a teologia cristã proporcionou um “caldo de cultura” que engalanou a educação e o ensino superior das Universidades e Academias do mundo ocidental. Isso explica, pois, porque até hoje ainda existem “platônicos”, “platonistas” e “platonicistas”. Concordam?

 

A pergunta que não quer calar é, decerto, a seguinte: O próprio Platão era “platônico”, “platonista” ou “platonicista”? Começando pela última terminologia é difícil determinar se ele era um veraz estudioso de seus textos filosóficos. Cabe aos historiógrafos da filosofia aprofundar essa investigação. Não obstante, uma das teses sobre essa matéria alega que ele foi além das
ideias defendidas pelo seu mentor Sócrates. Ele teria inventado suas próprias ideias e atribuído essas ideias a Sócrates. Se apostarmos nessa tese, ele seria, sim, um estudioso de suas próprias ideias. Ou das de Sócrates. O que daria quase no mesmo!
Com relação à última terminologia, não há a menor possibilidade de ele ter sido um “platonista” na medida em que esse castelhanismo ainda nem existia.

 

Por fim, quanto a Platão ser “platônico”, só posso dizer que todo o mundo acadêmico-filosófico conhece o episódio da biografia dele quando foi resgatado como escravo por um amigo rico. Tudo ocorreu quando ele foi convidado pelo tirano Dion de Siracusa para implantar o seu sistema político e educacional naquela cidade grega. Todavia, uma revolução popular destronou o tirano e ele acabou por se ver escravo em um navio de mercadores. Moral da estória: Se ele aceitou tentar implantar o seu sistema filosófico é porque ele acreditava em suas próprias ideias. Deste modo, pode-se inferir legitimamente que ele era “platônico”. Né?

 

Mas não devemos esquecer a lição de Ludwig Wittgenstein, o maior filósofo austríaco. Ele ensina que, em filosofia, o “viajão” irrefletido nas profundezas da metafísica e a crença desmesurada na permanência e eternidade desse Mundo das Ideias pode-se tornar um transtorno existencial. Nesse caso, o nome desse transtorno intelectual é “síndrome de Platão”. Pra sair disso, meu, só com filosofia clínica.

 

III. Sartre é um filósofo contemporâneo. Mais. Eu diria que ele é um pensador ultra-contemporâneo. Afinal, ele não morreu em 1980? A sua filosofia não embalou a geração dos anos 60 e 70? Tendo um perfil existencialista, o seu pensamento orientou essas gerações que empunharam a bandeira existencialista do “make love not war” ou aquela outra do “peace and love”.
Nessas duas décadas supra-mencionadas, o tipo “ser sartriano” representava o charme filosófico-existencial requerido pela cultura existencialista.

 

Outra designação dos simpatizantes do pensamento sartriano é a de “existencialistas”. Como ocorre no caso dos seguidores e estudiosos de Platão, com os simpatizantes de Sartre o fenômeno linguístico manifesto é similar. Assim, eles são designados como sendo “sartrianos”, “sartrianistas” e “existencialistas”.

 

Os primeiros são aqueles que pautaram a conduta de suas vidas pelos preceitos filosóficos extraídos do pensamento de Sartre. Nesse caso, não precisa mergulhar nas obras filosóficas e literárias do pensador francês para se intitular de “sartriano”. Basta seguir, na vida, alguns preceitos desse pensador para fazer jus a esse qualificativo filosófico-ideológico. Ou vc pensa que os “hippies” estudaram Sartre para viver do jeito em que viviam?

 

Os segundos são aqueles que efetivamente têm o condão acadêmico e intelectual dos estudos das obras de Sartre. Mas em filosofia, como de resto em toda a vida acadêmica e intelectual, tudo passa pelas formações ideológicas. Então, os “sartrianistas” são aqueles estudiosos que escolheram os preceitos filosóficos, os princípios ideológicos e as doutrinas existencialistas implícitos nas obras do filósofo francês. “Sartrianistas” são, pois, os defensores e seguidores da filosofia ideológica do “sartrianismo”. O “sartrianismo” constitui, pois, um apanhado de preceitos filosóficos, de princípios práticos e teorias existencialistas extraídos da obra do pensador francês colocados a serviço da vida cotidiana engajada.

 

Os terceiros são aqueles que seguem um conjunto restrito de ideias do filósofo francês voltado para a orientação da vida prática. Mas, afinal, o que significa mesmo ser um “existencialista”? Para começo de conversa, Sartre é um pensador cuja evolução do pensamento percorre três momentos delineáveis. No começo, ele se interessou pela Fenomenologia. Aí, ele estudou o pensador alemão Edmund Husserl e escreveu algumas obras de caráter fenomenológico. Destacam-se deste período as obras intituladas “O Imaginário” e “A Imaginação”. Pode-se dizer que este período se encerra com a publicação de “O Ser e O Nada” (“L’Etre et Le Neant”). Depois, ele passou a enfatizar especificamente o tema da existência sobre o qual ele escreveu “A Náusea” e “O Existencialismo é um Humanismo”. Esta última se tornou, enfim,
a Bíblia do existencialismo. Por fim, ele enveredou pelo engajamento político-ideológico e passou a estudar as obras de Karl Marx. Dessa sua inserção na esfera da filosofia marxista, resultou o seu total engajamento em movimentos educacionais e políticos. Foi nessa época que ele participou das barricadas da Sorbonne, em 68, feita pelos estudantes franceses.

 

Contam os historiadores da vida privada dos filósofos contemporâneos, que, nesse episódio, Sartre se posicionou com os estudantes franceses atrás das barricadas feitas na Sorbonne. Aí, o Chefe de Segurança da Polícia francesa chamou o Ministro da Educação e Cultura da França e o convenceu de que era necessário prender Sartre. O traço inolvidável desse episódio é que o tal ministro era, nada mais nada menos, do André Malraux, conhecido romancista francês e outrora ativista libertário. Era, enfim, um presumido amigo de Sartre. Sabe o que aconteceu? O ministro romancista e o chefe de polícia se dirigiram ao então Presidente de França e sugeriram a ele que a prisão de Sartre era a única forma de acabar com a greve dos estudantes franceses. Então, o Marechal De Gaulle, que governava a França, homem honrado, herói da Resistência Francesa feita contra os nazistas e gestor público cioso dos valores de liberdade, que a cultura francesa representava para o mundo, confrontou-os e lhes disse simplesmente: “Não se prende Voltaire” (“Hommes, non se prend pas Voltaire”). Entendeu a mensagem? Todo o mundo entendeu. Não sei se as duas personagens em questão entenderam! Coisas de puxa-saco. Né?

 

Outro aspecto do perfil de Sartre nesse período se relaciona com a sua filiação ao PC francês e, especialmente, com a sua obra inacabada e publicada postumamente. Trata-se do texto intitulado “Crítica da Razão Dialética” (“Critique de la Raison Dialectique”). Dessa fase de total engajamento político-ideológico no pensamento de Karl Marx resultou um famoso enunciado de seu pensamento: “O marxismo é a última grande filosofia de nosso tempo” (Le marxisme c’est la dernière philosophie de notres temps”).
Todavia, o pensamento sartriano ficou mais conhecido pelo seu traço existencialista encerrado na célebre proposição filosófica: “A existência precede a essência”. Quer dizer, toda a atividade intelectual está vinculada às
condições de vida e serve, pois, aos interesses movidos por nossas escolhas. Em sentido existencialista não há inocência frente às nossas escolhas. Em palavras de Sartre: “Sans sursis”.

 

Deste modo, a vida – como ela é – comanda tudo. Não obstante, há uma cláusula no existencialismo sartreano. Trata-se do fato de que não somos o que imaginamos ser. Somos o que escolhemos ser. Mas nem todas as nossas escolhas são deliberadas. Inúmeras escolhas que fazemos não são conscientes e deliberadas. Muitas de nossas escolhas são frutos de nossas omissões porque se omitir já é escolher. Outras de nossas escolhas são resultantes de nossas pulsões conduzidas por desejos que os outros projetaram de fora para dentro de nós. Quer dizer, nós mesmos internalizamos os motivos, os esquemas e os sistemas de outrem sem nos darmos conta desse processo que define o que os outros fazem conosco.
Nesse sentido, Sartre lapidou outra proposição famosa: “O importante não é o que os outros fizeram de nós, mas o que nós podemos fazer com o que fizeram de nós”. Nisso consiste a essência de nossas escolhas. Adicionalmente, convém lembrar outra proposição sartriana: “O inferno são os outros”. Então, veio, se livra desse inferno. Como? Sartre propõe o engajamento consciente e deliberado que nos coloca no “devir” existencial em que assumimos os papeis que escolhemos fazer por inteiro, sem a ilusão de que somos alguma coisa dada, permanente ou eterna.

 

Em resumo, ser “sartriano”, “sartrianista” ou “existencialista” tem pontos de conexão, mas afloram entre esses termos algumas diferenças essenciais.
Em síntese, a diferença essencial entre Platão e Sartre consiste, pois, em que este último propugnava a escolha e o engajamento como modo prático de constituição das essências. Quer dizer, mesmo que o Mundo das Ideias seja apenas uma projeção filosófica, o que importa é o engajamento de seus defensores em sua constituição ontológica. Não é Sartre quem diz que o homem é o projeto que ele escolhe ser? Não é ele quem diz, ainda, que o homem não é. Não é ele quem diz que o homem se faz?
Por conseguinte, o princípio que tornariam os “platônicos”, os “platonistas” e os “platonicistas” uma classe única, acabando com esse “formigueiro” de seguidores e adeptos do filósofo ateniense, seria a adoção dos princípios sartrianos da escolha e do engajamento.
Em suma, sem projeto pautado nesses princípios não dá. Vira tudo mera fantasia da mente humana. Como dizia Deleuze, tudo constitui, ao fim e ao cabo, diferença e repetição. Mas, em filosofia teórico-prática, definitivamente, não dá. Tá certo?

 

*Luiz Carvalho. O autor é filósofo e esteta. Licenciado em Filosofia. Especialista em Teoria do Conhecimento e Filosofia da Ciência. Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia-UFAM.

1 pensou em “FILÓSOFO LUIZ DE OLIVEIRA CARVALHO*: DIFERENÇA ENTRE PLATÃO E SARTRE

  1. BOA TARDE A TODOS OS AFINSOPHIANOS.

    Quero agradecer, desde já, a todos que adentrarem as linhas e entrelinhas desse texto de minha lavra literária e me ativarem intelectualmente sobre as implicações acadêmico-filosóficas contidas na comparação entre esses dois titãs da ÁGORA FILOSÓFICA.

    ATENCIOSAMENTE
    LUIZ CARVALHO

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.