FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: AS ARMADILHAS DA CULTURA SUBMETIDA À LÓGICA DO MERCADO DO PODER DO MUNDO BURGUÊS

Cultura é um conceito carregado de armadilhas. José Comblin (1923-2011), teólogo e missionário belga perseguido pelas ditaduras chilena e brasileira e autor da melhor análise sobre a ideologia da segurança nacional na América Latina e no Brasil, assinalava que a cultura também funciona como prisão dos pobres.

A cultura popular, submetida à lógica do mercado, é sempre objeto de expropriação pela cultura de massa produzida pelas forças mediáticas desde os centros de poder do mundo burguês. O expropriado passa a se espelhar na cultura reificante de quem lhe reifica a consciência. Reflete-se na anulação de si mesmo. Mas para tudo há um termo. Segundo a Bíblia, há um tempo para tudo. Segundo a Filosofia, um limite para tudo.

Transpostos, o tempo e o limite, irrompe a força da contradição. Por mais sofisticados que sejam os artifícios de falsificação da vida e da consciência, nunca logram travar de forma permanente o tempo da verdade. Então, as figuras infladas pelos des-afetos da mediocridade voltam ao seu tamanho real. Claro, figuras dessa estirpe sempre existiram. Mas, em regra, podem ser socialmente contidas por um padrão de convivência razoavelmente estabelecido pelo que denominamos de vida civilizada.

O que não é regra é chegarem ao poder por vias ditas democráticas. Quando chegam ao poder, e chegaram, logo destravam as estruturas pulsionais da sociedade, nunca inteiramente regradas pela cultura. O velho Adorno admitia como função da cultura desacostumar as pessoas de mutuamente acotovelarem-se. Não há democracia impermeável às estruturas pulsionais da barbárie, sobretudo quando a barbárie é presidida pela cultura do capital, cujo fim, para seguir a lição benjaminiana, não ocorrerá por morte natural. E saída nenhuma será possível fora da práxis, critério da verdade e de toda formação humana omnilateral.

Aí, parafraseando Albert Memmi, o colonizado pode se apropriar subjetivamente de si mesmo e destruir o retrato do colonizador que lhe precedia a identidade invertida. Abre-se então à consciência do colonizado a possibilidade de recuperar o poder da destruição criadora. De romper os grilhões da cultura-cárcere e recuperar a cultura como cultivo livre, alegre e coletivo do que afirma e potencializa a vida de todos e de cada ser social.

É esse o itinerário do povo-multidão-Brasil, sem medo, animado pelo que preconizava o filósofo Espinosa: a multidão livre segue em frente, caminhando mais pela esperança do que pelo medo, contrariamente a uma multidão oprimida, que caminha mais pela força do medo do que da esperança. A primeira dedica-se a cultivar a vida, a segunda procura somente evitar a morte. Somente a primeira pode fazer o Brasil tornar-se o que é.

JOSÉ ALCIMAR é filósofo, escritor, doutor e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

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