FILÓSOFO VICTOR LEANDRO: A PATOLOGIA DA SOCIEDADE BRASILEIRA E O FASCISMO CULTURAL

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Dentre os diversos mecanismos de defesa estudados pela psicanálise, um dos mais comumente usados é a projeção. Esta consiste em atribuir ao outro traços do nosso caráter e comportamentos que consideramos reprováveis, de modo a falsear nossa culpa e autorrejeição numa forma perseguidora e acusatória contra os demais indivíduos.

No quadro das patologias sociais contemporâneas, a projeção assumiu o aspecto de uma estratégia de manipulação, em que membros de uma classe – dominante – utilizam-se, deliberadamente ou não, dos recursos projetivos para atribuir a grupos opostos práticas que lhes são comuns, de modo a desviar a atenção de seus próprios atos, a fim de agirem com mais facilidade. Obviamente, o sucesso do procedimento depende de uma alta carga de cinismo e eloquência espetacularizada por parte de quem recorre a esse meio, o que revela já de início a miséria interna e intelectual desses agentes.

No Brasil, os recentes ataques às instituições propagadoras de conhecimento e aos que lideram processos críticos pôs em evidência os mecanismos pelos quais os grupos fascistas ora em ascensão executam seu trabalho projetivo. Valendo-se fortemente das possibilidades de falseamento propiciadas pela indústria cultural na era virtualizante, eles lançaram sobre todas as iniciativas opositoras a classificação de marxismo cultural, determinado por eles como sendo um método organizado pela esquerda de recuperação de poder pelas vias da cultura, uma vez que a batalha político-econômica havia sido perdida. Como resultado dessa conspiração socialista, dizem eles, fomentaram-se discursos que produziram ações em favor das minorias políticas, que, tão logo fossem implementadas na sua totalidade, implicariam a retomada do comunismo, a qual, segundo seus delírios, conduziria a humanidade novamente ao caos.

Não é preciso ir muito longe para identificar a fragilidade dessas posições. As pautas igualitárias, à exceção daquelas ligadas à desigualdade de classe, tiveram ampla repercussão nas sociedades capitalistas sem que se rompesse a sua ordem, e se aproximam – ao menos teoricamente – dos princípios que fundamentam o liberalismo. Também é absurdo pensar que os que lutam pelos direitos das mulheres, dos negros, dos indígenas e dos LGBT são todos comunistas disfarçados. Assim, pensar o conteúdo de tais dizeres tem pouco ou nada a oferecer. Logo, para se discutir de fato as intenções dos que proliferam tais imposturas, é necessário romper com seu ciclo de aparências e ir de encontro aos processos que correm na estrutura desses movimentos.

E o que se apresenta por trás disso? O fascismo cultural. Este configura em si rigorosamente tudo o que é dito a respeito dos objetivos do marxismo cultural, com a única diferença de que é o que se dá verdadeiramente no mundo. Munidos da proteção de falsos enunciados, os fascistas culturais transitam livremente pelos media e neles propagam sua ideologia de um pensamento hegemônico pautado na opressão capitalista, no sectarismo, no racismo e na disseminação do ódio e da violência, constituindo um bloco homogêneo de repressão e predominância dos valores mais deletérios da humanidade.

Como prova disso, basta olhar para o caso brasileiro e para a ampla massificação dos canais conservadores no Youtube, das páginas de redes sociais, das publicações assumidamente reacionárias e, sobretudo, das tentativas coordenadas de coagir quaisquer indivíduos que tentem se opor a seus princípios. Nas universidades, os celulares são usados como instrumentos coercitivos principalmente contra docentes, que são filmados em suas exposições contraobscurantistas e imediatamente tachados de doutrinadores, quando o que fazem é impedir a tomada completa do fascismo nas instituições responsáveis pela circulação dos saberes. Some-se a isso a legalização desses atos pelo presente governo, e o que se tem é justamente uma marcha acelerada para a consagração do projeto que os próprios fascistas anunciaram, porém atribuindo a autoria aos seus chamados inimigos.

Mas não é o caso de calar. Muito menos de pensar apenas em termos de resistência. Como jogadores a quem restam as mínimas fichas, a única chance de nos recuperarmos é dobrando a aposta. Somente uma contraofensiva radical e aberta pode nos colocar novamente no rumo de uma sociedade esclarecida, para a qual será preciso uma grande dose de comprometimento e inteligência. Para tanto, de nada nos serve o medo. Coragem e razão são tudo aquilo que temos, e é com elas que deveremos partir mais uma vez em busca do real que escapa às massas cotidianamente.

Victor Leandro da Silva
Prof. Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas
Coordenador do Curso de Licenciatura em Ciencias da Religiao – PARFOR/UEA

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