O DEPUTADO WALLACE ESPERA EM DEUS

Foi na praça da matriz que eu compreendi que minha miséria não foi Deus quem quis e muito menos eu”, versejou o poeta acreano Téo. O poeta liberou a opressão com suas puras palavras. A miséria é sempre a miséria dos homens: sua falta consigo mesmo.

Há misérias. As misérias como faltas, sempre servem para apanhar outras misérias. A miséria fanática pode servir para explorar a miséria da insegurança dos desesperados. Assim, como a miséria ética e intelectual podem servir para explorar a miséria econômica dos pobres. Mas todas as formas de uso da miséria em benefício de um miserável tem como fim oprimir ainda mais o miserável explorado.

Brecht, em versos de seu poema Hino a Deus, diz, se referindo a Deus: “No fundo dos vales escuros morrem os famintos. Mas você lhes mostra o pão e os deixa morrer. Mas você reina eterno e invisível. (…) Deixou os jovens morrerem, e os que fruíam a vida. (…) Deixou os pobres pobres, ano após ano”. Como a miséria, sua permanência e supremacia, são coisas dos homens, o poema de Brecht, liberando a superstição, cai como uma singela ironia no anseio do deputado Wallace, que experimenta, no momento, os reversos, sempre presentes, da voraz moral capitalista: a acusação de suposto envolvimento com o crime. O produto da exacerbação da perseguição ao lucro que desce como penalidade sobre aqueles que entram na ordem do capital, mas não sabem como lidar com seus ardis.

Muito preocupado com o que possa lhe suceder, principalmente a perda de mandato parlamentar, que o tornará mais inseguro diante da jurisprudência, evoca Deus para lhe proteger. Uma prece de proteção contra o que lhe possa acontecer de pior. É aí que salta a ironia de Brecht: Deus “deixou os jovens morrerem, e os que fruíam a vida” e “deixou os pobres pobres anos após anos”. Como Deus abandonou aqueles que são o fundamento de sua doutrina, os pobres, à mercê do deputado que os transformou em suporte eleitoral, juntamente com seu irmão, o que lhe permitiu uma representação e facilidade financeira, certamente o abandonará.

Porém, nestes percalços religiosos-econômicos, surge um sinal. Mesmo que o filósofo Sartre, esteja certo ao afirmar “que Deus existindo ou não, nada muda”, é possível extrair da singela ironia de Brecht, um principio teológico que pode ser aplicado ao caso do deputado. É o princípio da provação. Se Deus não abandonou os pobres, mas apenas testa neles o quanto podem suportar de provação, sofrendo como eleitores do deputado, para puderem alcançar o céu, é possível que, também, Deus teste o grau de provação do sofrimento que no momento o deputado experimenta, como meio para atingir o céu.

Mas aí surge um dilema: saber se foi ou não provação. O que só pode ser resolvido, com certeza, no outro mundo. E isto seria outra viagem. Uma viagem que com provação ou não, quase todos mortais tremem só de imaginar esta possibilidade. Sendo assim, como a justiça de Deus só pode ser comprovada metafisicamente, que não é do âmbito dos vivos, resta, no mundo físico, a justiça dos homens. E esta é passível de testemunho.

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