CINEMA: DUAS CENAS EVANESCENTES

Há quem diga que ver é ter visto. Aí a certeza de que há um mundo, e que é real. Quem assim diz não suspeita das evanescências, dos percursos, dos fugazes. Não suspeita que o cinema é a arte, o resto é filme — Uma vez Hollywood: a certeza do visto.

DOIS SUSPEITANTES CINESÓFILOS

Para desinformar a informação da tirania do visto, sem ser visto, apresentamos dois filósofos com suas trânsfugas imagens óticas- dissonantes.

Walter Benjamin, filósofo alemão, para Brecht, seu amigo, “a primeira grande vítima do nazismo”. Para não ser aprisionado, se suicidou.

O cinema é a forma de arte que corresponde à vida, cada vez mais perigosa, prometida ao homem de hoje. A necessidade de se entregar a efeitos de choque é uma adaptação do homem aos perigos que o ameaçam. O cinema corresponde a profundas modificações do aparelho perceptivo, estas mesmas que experimenta hoje, na escala da vida privada, o primeiro transeunte que vem pela rua de uma grande cidade, ou à escala da história, não importa que cidadão de um Estado contemporâneo.”

Antonioni, cinesófilo italiano, criador do cinema Blow-Up, arte imprescindível a todos que se tomam como filosofantes. O cinema que desconstrói a Teoria do Conhecimento dita acadêmica.

Dessa maneira, uma esquina de rua fracamente iluminada pela luz de um revérbero existe concretamente na película. Levando mais longe o raciocínio, podemos concluir que a película é mais sensível que a célula fotoelétrica, cuja agulha, nesse caso, nem se mexe. Vamos adiante (no plano teórico, já que no plano prático poderíamos deixar de lado estas outras considerações): a película provavelmente registra tudo, não importa sob qual luz e até mesmo na obscuridade, como faz o olho dos gatos e certo aparelho militar americano de invenção recente, mas nosso atraso técnico não nos permite desenvolver tudo isso que figura no fotograma. Sabemos que sob a imagem revelada se encontra uma outra imagem, mais fiel à realidade, e sob esta última ainda uma outra e novamente mais outra sob a última. E assim até que se chega a verdadeira imagem da realidade, absoluta, misteriosa, que jamais alguém verá. Ou, talvez, à decomposição de toda imagem, de toda realidade, o que daria uma razão de ser ao cinema abstrato.”

Evanescência da percepção e ilogicidade do entendimento. E há ainda quem afirma ver.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.