É do entendimento do senso comum classificar como doenças as enfermidades manifestadas apenas no organismo, no biológico. Todavia, existem vários tipos de patologias que o homem é acometido e que não se manifestam visivelmente, e primeiramente, em seu organismo biológico. Uma delas, a causa responsável por outras patologias, é a doença política encontrada em uma cidade. Essa, uma enfermidade demasiadamente perigosa, que coloca sob ameaça a sociedade como um todo. Fenômeno (em filosofia, o que aparece) visível na campanha eleitoral para prefeito em Manaus (quiçá em outras cidades do Brasil).

Para melhor entender esse fenômeno, nada filosófico/democrático, basta uma breve olhadela no Mito de Protágoras sobre a Retórica: A Arte da Política.

SOBRE OS DOENTES POLÍTICOS

Epimeteu, irmão de Prometeu, preocupado com a insegurança em que viviam os homens, repartiu com eles todas as potências. Mas Epimeteu cometeu um equívoco: Eles eram álogas: sem-palavras. Foi, então, que Prometeu, percebendo o equívoco de seu mano, foi em socorro dos sem-palavras e presenteou-os com a arte da sabedoria. Chegada a notícia prometéica aos ouvidos de Zeus, ele se arrepiou com a desatenção do titã, chamou Hermes e ordenou-lhe que levasse aos homens o respeito e as normas imanentes nas palavras. Hermes, embora sábio, vacilou e perguntou a Zeus como fazer a repartição. Ao que Zeus respondeu: “Entre todos, e que todas as coisas sejam daqueles que o possuem em conjunto”. E, para ser mais entendido, reforçou: “Estabelece, em meu nome, a Lei de Repartição segundo a qual, aquele que é incapaz de ter sua parte de respeito (aidós) e de norma (diké: justiça) pereça como uma doença da cidade”.

É bem verdade que alguns incautos podem afirmar que essa narrativa trata nada mais do que um mito. Entretanto, é bom que os incautos entendam que o que Protágoras nos mostra é constitutivo da democracia em suas enunciações-consenso filosófica, cientifica, estética e ética que tentamos exercê-las hoje. Nisso, não há nada de fabuloso ou mítico.

O respeito e as normas de todos, “coisas daqueles que o possuem em conjunto”, são as virtudes (do grego: arete) que mais faltam em uma campanha eleitoral realizada em Manaus. A incapacidade do respeito em conjunto, como regra democrática, é o que mais tem ofendido a dignidade e a honestidade social do eleitor manauara. O abuso do grotesco e da ofensa são sórdidos à cidade. Prova patológica daqueles que não podem vivenciar a práxis da Lei da Repartição, acometidos que estão, em seus individualismos, da “doença da cidade”. O que, numa moral-patológica, significa que estão perecendo, mas querem levar com eles toda a cidade. O que para o médico Zeus-Hipócrates, a única terapia é a práxis suprema da Lei da Repartição: o Voto Saúde da Cidade!

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