Para o filósofo Espinosa, o amor de si por si é a idéia que se tem de si mesmo. Mas esta idéia pode ser ela própria causa de si, ou causa parcial de si: construída sem passar pela Razão, apenas a partir da idéia que o outro tem de mim. No primeiro caso, temos um homem livre, atuante, ativo, mais próximo da perfeição. No segundo temos um equívoco, capturado, passivo, mais distante da perfeição.

A Democracia necessita, é claro, do homem livre. Somente aquele que tem uma idéia adequada de si é capaz de atuar em sociedade em benefício mútuo. Um homem livre é naturalmente democrático. Ao contrário, um homem capturado só pode servir aos diversos tipos de ditadura e de produção de dor que elas engendram.

No caso da cidade de Manaus, a maior parte dos candidatos se apresentam como homens capturados pela idéia inadequada de política e democracia. Limitados e reprimidos na sua condição existencial, acabaram aceitando a idéia da dor e do sofrimento como determinante da coisa pública. Daí, reproduzirem uma organização social que dissemine esta dor.

A POPULARIDADE DE OMAR: UMA QUESTÃO DE FÉ

O candidato derrotado do governador Braga, Omar Aziz, mesmo com a força econômica, midiática e institucional ao seu lado, perdeu a eleição. Ficou claro para qualquer eleitor, usando ou não a razão, que Omar era apenas um meio para um fim: o controle da máquina estatal municipal por parte do grupo dos clones “-oninos”: Brag-onino e Alfred-onino, visando o pleito de 2010.

Omar, ele próprio, não tem expressividade eleitoral: não angaria votos, não comove os eleitores. Os votos que teve foram frutos da força institucional do governo Braga, não de sua atuação ou carisma político. Fato é que as atenções estão todas voltadas para o apoio do governador Eduardo Braga (e da máquina estatal do governo), e Omar foi relegado novamente ao limbo do eterno “vice” ao qual parece bem adaptado.

Por isso, nem Amazonino, nem Serafim se incomodaram com o fato de Omar saltar do palanque, horas após a apuração do primeiro turno, e anunciar em alto e mau som que apoiaria um dos vencedores. Omar parece não ter percebido que, à exceção de um veículo de comunicação que foi porta-voz da candidatura braguista e também ficou atordoado, nenhum outro se interessou pelo que ele falava. Ele não entendeu que os votos na candidatura dele não são – como no caso de Praciano, que teve uma votação “personalista” – do candidato Omar, mas da candidatura do governo do Estado, inflada pela força institucional de um governo autoritário.

Insistindo na idéia de que ele era o candidato dos pouco mais de 150 mil votos, Omar anunciou na segunda-feira que irá subir no palanque de Amazonino. Não comoveu o candidato da direita que, se tiver tino eleitoral, não convida o mal afamado ex-candidato para seu palanque. Serafim, também consciente das maquinações em torno da campanha de Omar, dificilmente aceitaria, ainda mais sabendo que muitos dos votos da candidatura do governo do Estado devem vir naturalmente para o atual prefeito.

Não satisfeito, Omar tentou chamar a atenção com a retirada do processo de impugnação que a sua coligação movia contra Amazonino, afirmando: “Eu acho que não tem porque continuar, porque eu não estou mais no processo político. Se Amazonino tiver que ganhar a eleição, que ganhe”.

O ex-candidato Omar apresenta uma dificuldade epistemológica para compreender que a sua candidatura à prefeitura de Manaus não partiu de uma decisão racional e soberana de si mesmo (já que ele é incapaz de realizar qualquer ação livre), mas de uma ação que lhe é externa. Omar, portanto, neste aspecto, é passivo. Um corpo clivado por enunciados externos a ele, fazendo-o efeito nefasto de um corpo anti-democrático. Evidentemente, o próprio Omar tem que ser um corpo anti-democrático e capturado. Não o fosse, não teria caído na armadilha da candidatura-peteleco de Braga.

Como afirma o filósofo Nietzsche, “quem não sabe colocar sua vontade nas coisas, coloca-lhes ao menos um sentido: é o princípio da fé”. Fé aqui entendida como idéia inadequada, superstição fantasmática que só se sustenta na ilusão que as condições do episódio permitem. Como não saiu de sua vontade (manifestação livre), a candidatura de Omar não existiu. Para suportar a mentira, Omar aceitou tacitamente o sentido que lhe impunham: ser candidato e acreditar que era candidato. Pela fé supersticiosa, ele aceitou. Após a derrota nas urnas, desmontadas as configurações que sustentavam o sentido, a fé não mais se sustenta, e resta a Omar as palavras do poeta dos corpos aprisionados, RRC (Rei Roberto Carlos):

O show já terminou
Vamos voltar à realidade
Não precisamos mais
Usar aquela maquiagem
Que escondeu do nós
Uma verdade que insistimos em não ver
Não adianta mais
Chorar o amor que já tivemos
Existe em nosso olhar
Alguma coisa que não vemos
E nas palavras
Existe sempre alguma coisa sem dizer 
E é bem melhor que seja assim
Você sabe tanto quanto eu
No nosso caso felicidade começa
num adeus
Me abrace sem chorar
Sem lenço branco na partida
Eu também vou tentar
Sorrir em nossa despedida
Não fale agora
Não há mais nada
O nosso show já terminou

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