Entre os eternos prefeituráveis de Manaus — para quem o que importa não é ganhar, mas pelo menos poder perder —, a desistência da comunista do papo amarelo Vanessa Grazziotin de lançar-se candidata nas próximas eleições é sintomática do apequenamento do PCdoB no estado do Amazonas, decorrente de sua centralização interna, principalmente ela e o marido, Eron Bezerra, e suas atuais coligações a todas as direitas: direita tradicional, direita da direita e esquerda da direita.

Vanessa e Eron foram a dupla vermelha mais barulhenta de Manaus desde a década de 80. Vanessa alardeia-se como a principal responsável pela implantação da meia-passagem estudantil na cidade, o que é no mínimo uma atitude egóica e contestada por pessoas que participaram “da luta” à época. Enquanto Eron, quando contestado por Praciano (PT) por ter se tornado secretário do governo Braga (PMDB), afanou-se de ter construído a esquerda amazônida pedra por pedra. Destas atitudes da dobradinha encarnada já se depreende a falta de sentido coletivo do que vem a ser “esquerda” e da falta de consistência do conceito de “política”.

Por tal, não é de se estranhar que após anos e anos de confronto em todas as frentes ideológicas, legislativas, judiciais, à oligarquia que se alterna no poder constituído no estado do Amazonas há trinta e tantos anos, o PcdoB-AM acabou alinhando-se aos seus “inimigos” políticos em nome de uma suposta estratégia para fortalecer a sigla. Só que agora vem a notícia (sem nenhuma novidade) que, ao contrário, numa deficiência de coligação e sem alçar vôo eleitoral, Vanessa abdica da candidatura, acrescentando que não será vice de ninguém, podendo compor, conforme configuração nacional, apoio à reeleição de Serafim, mas Eron sinaliza que o PCdoB apoiará Omar Aziz.

No entanto, fenomenologicamente, desde o princípio, já se percebem onde iam dar os trajetos da dupla encarnada. No início, suas candidaturas apareciam como revolucionárias, e eles formaram um bloco votante à esquerda, enquanto outros membros, como o próprio Omar Aziz, saltavam para os galhos da direitaça. Vereança, deputado estadual por quatro mandatos, deputada federal por dois mandatos… Eron resolveu tentar o governo, perdeu; Vanessa, a prefeitura, perdeu. Pessoas próximas diziam que o casal não trabalhara de modo a aumentar seus graus de consistência eleitoral. Mas aí começou a ficar visível a trajetória da lógica da desistência do casal. Dentro e fora do partido, houve quem estranhasse ver Vanessa fazer coro a José Dirceu (PT), Arthur Neto (PSDB) e Ney Suassuna (PMDB) para a retirada do nome do vice-governador Omar Aziz (PMN) da CPMI da Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes, em 2004, com tal manobra no senado que constrangeu, levando às lágrimas a deputada sul-riograndense Maria do Rosário (PT), responsável pelas investigações. E os eleitores da comunista também ficaram um tanto constrangidos quando o PCdoB-AM aceitou o apoio de Omar Aziz, que saíra tostado da campanha devido ao gosto pela tenra carne. Mas todos sacaram a jogada ao verem, depois de Vanessa afirmar tempos atrás, jamais ficar ao lado de Amazonino (PTB) nem apertar sua mão, depois de todas essas tomadas de posição arraigadas de moralidade, o deputado Eron Bezerra aceitar uma migalha do afilhado/cria de Amazonino, governador Eduardo “Guerreiro de Sempre” Braga: a Secretaria de Produção Rural – SEPROR, pasta que ficou conhecida nacionalmente no episódio das toneladas de peixe que deveriam ir para a mesa da população pelo Programa Peixe Popular, mas acabavam na lixeira.

Envolvimentos como esses poder-se-iam dizer como fazendo parte de uma estratégia política? Sim, um estratagema às direitas. Como foi a coligação dos vereadores Marcelo Ramos e Lúcia Antony ao prefeito Serafim (PSB), que, mesmo percebendo a mediocridade da gestão, enquanto outros vereadores, como os petistas Zé Ricardo e Waldemir José se distanciavam, os comunistas continuavam arraigados aos cargos e “acordões municipais”, apoiando o prefeito, inclusive contra posições defendidas por eles próprios no passado recente, como no caso da votação do PCCS dos professores municipais. Marcelo Ramos, então, tornou-se, numa desastrada gestão, presidente do IMTU, saindo apenas no momento de anunciar que o PCdoB lançaria candidatura própria à prefeitura de Manaus. Isso todos já sabiam, e Vanessa seria a única e eterna prefeiturável do partido.

Mas ontem, domingo (29), foi oficializada a desistência. Das possibilidades apontadas na semana anterior, uma é inevitável, nem que quisesse o PcdoB colocaria vice em alguma chapa de sua proximidade: Omar não quer vice comunista; com Serafim, teria que se distanciar de Braga, ao qual o líder máximo do partido está arraigado; com Praciano, nem se fala devido ao ressentimento do camarada com o companheiro; a única via é realmente com Omar, que quer abandonar o posto de eterno vice. Aí se estabelece quem foi mais estratégico: todos. Para quem recordar não é viver, a memória só serve para compreender o real manifesto. É assim que vemos a trajetória de Omar, começada no PCdoB, sendo um dos primeiros a se alinhar às fileiras da direita, mas sem perder o contato com os antigos camaradas, até levar, ao que tudo indica, finalmente, o entrelaçamento do PCdoB-AM a coadjuvante de sua campanha.

E assim, enquanto em outros lugares o PCdoB se fortalece em coligações à esquerda, como em São Paulo, onde Martha (PT) e Aldo Rebelo (PcdoB) despontam nas pesquisas, em Manaus, desde o início, e em toda sua trajetória, a centralização familial em torno de Eron e Vanessa vai seguindo a lógica de se contentar com as sobras burocráticas, desprezando suas histórias políticas, a posição do partido e a escolha de seus eleitores. Oficialmente, a que coligação os vermelhos manoniquins vão se atrelar sairá até 5 de julho. Enquanto isso, uns dizem que o PCdoB-AM tem cacique (quer prova maior de semiótica da direita?), que se o casal fechar com Omar, todos fecham num bloco rígido do capital. Outros dizem que ao menos o eleitorado deles é formado à esquerda, que estaria, assim, mais para Praciano. Quem opina?

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