PT/AM E AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS: O DEBATE ANTES DAS PRÉVIAS

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Na noite de ontem, no sindicato dos metalúrgicos, aconteceu o único debate organizado pelo PT/AM antes das prévias que decidirão quem será o candidato do partido. Os dois pré-candidatos, Sinésio (Deputado Estadual) e Praciano (Deputado Federal) compareceram e simpatizantes dos dois lados, bem como filiados indecisos quanto ao voto estiveram no evento, onde o objetivo era ouvir os candidatos sobre suas propostas e intenções.

Infelizmente o formato do debate, bem como animosidades entre partidários de um e outro pré-candidato impediram uma discussão mais elaborada dos temas políticos a que se pretendia o debate. Os candidatos, após a apresentação feita pelo mediador, Barroncas, se pronunciaram, e depois respondiam à perguntas de filiados sorteados, sendo a cada rodada quatro perguntas para serem respondidas em cinco minutos. O pouco tempo para lidar com muitas questões, e o fato de partidários de um e de outro lado aproveitarem a sua pergunta não para propor questões, mas para “levantar a bola” para o seu candidato, tentando expor alguma fragilidade do adversário tornaram o debate menos uma exposição de idéias do que de palavras de ordem e frases feitas. Mesmo assim, pontos importantes da administração municipal, como o transporte coletivo, a concessão do sistema de abastecimento de água, a relação entre o executivo e o legislativo municipais foram tocados, mesmo que de leve.

SINÉSIO E PRACIANO FALAM

O discurso de Praciano durante todo o debate se pautou em reforçar o aspecto do Partido dos Trabalhadores como um partido que deve valorizar o aspecto da diversidade que compôs o partido. “O partido não é um partido de palácios, mas de paróquias, de praças, de ruas, de sindicatos”. Sublinhou que as administrações anteriores de Manaus têm todas uma relação íntima, incluindo o atual governador, e que o atual prefeito deu continuidade a esta linha “privilegiada” que fez política no Amazonas. Chamou a atenção para a sua produção no mandato de vereador (sobretudo no aspecto da fiscalização ao transporte coletivo) e o atual mandato de deputado federal.

Sinésio deu ênfase no aspecto das alianças com os partidos da base aliada, e em governar em alinhamento com o governo do Estado e com o governo Federal. Sinésio trouxe para o debate uma estrutura de campanha, com panfletos, informativos e até torcida organizada.

AS “TORCIDAS”

As torcidas tiveram uma atuação à parte, na maioria das vezes enfraquecendo o caráter de discussão que o debate se propunha. Houve inclusive um episódio de conflitos, que por pouco não chegou às vias de fato. A de Praciano, mais contida, e em maior número. A de Sinésio, barulhenta e em alguns momentos mesmo ofensiva. No entanto, foi a exaltação de um partidário de Praciano quem iniciou a confusão. As duas torcidas se alternaram nas perguntas que tinham menos uma função de propor discussões do que colocar o adversário em situação desfavorável ou “levantar a bola” para o seu candidato. Poucas foram as perguntas que levantavam algum assunto relevante ou política pública, e nenhuma das perguntas (até pela questão do método de organização do debate) realmente acrescentou algo de novo à discussão.

No caso de Praciano, o fato dele ter saído do PT, e passado por PV e PDT, foi usado pelos adversários para tirar votos do cearense. Já o paraense Sinésio teve que se haver com a ojeriza de muitos petistas à proximidade dele com o governo Braga. Adepto do populismo de direita, Sinésio soube orquestrar torcida, marketing e postura no debate de uma forma bem próxima ao tradicionalismo que encontra no colega de assembléia Berlarmino Lins, para citar apenas um. Sinésio também se equivocou em dois momentos: um quando afirmou que a primeira prefeitura conquistada pelo PT foi a de Fortaleza, com Luizianne Lins (a primeira, há mais de dez anos, foi a da cidade de Diadema, em São Paulo), e a outra, quando afirmou que o ex-procurador e agora ministro do STJ, Mauro Campbell, indicado pelo amigo Braga ao cargo, será (se confirmada a indicação) o primeiro amazonense ministro do STJ. Esqueceu-se de Henoch Reis, na década de 70. Já Praciano, se enrolou quando fez referência ao livro “Revolução dos Bichos”, de Orwell, citando situações um tanto diferentes do que está registrado na estória, embora nenhum dos presentes tenha dados sinais de que percebeu a falta de apuro do deputado com o enredo da obra.

Embora com o clima declaradamente de disputa, o debate encerrou-se com promessas de apoio mútuo, do derrotado para o vitorioso, seja ele quem for. Ao final do evento, os dois candidatos falaram a este Bloguinho:

“Tudo foi altamente positivo, considerando que é difícil, e este processo democrático que o PT continua sendo pioneiro, não só aqui em Manaus, mas em outras cidades, onde o PT demonstra que democracia é escolher seus próprios candidatos, ouvindo, debatendo, dialogando, até porque os outros partidos deveriam fazer desta forma, por que daí nasce a contribuição e participação de todos os filiados, e também propostas de governo. Então a partir daqui já estaremos apresentando o plano de governo, que será aperfeiçoado nas discussões. Os partidos políticos têm a prerrogativa de lançar candidatos majoritários e minoritários, mas só se avança ouvindo, e não a ordem saindo de um ou de outro. Então o PT promove essa maravilha que foi esse debate, que foi produtivo, onde cada um, tanto o Praciano como eu, temos perfis diferenciados, podemos contribuir para que o PT possa cada vez mais se fortalecer politicamente em Manaus e no Amazonas” (Sinésio Campos).

“O Partido dos Trabalhadores é isso aí, tem uma democracia interna, às vezes, como em qualquer outra organização, essa democracia é agredida, mas hoje encerramos as campanhas das prévias, e com uma atividade interessante, que é discutir com a militância princípios, plataformas de governo, a questão da ética, da transparência, da parceria da sociedade. Mostrar para os companheiros quais são as duas opções que têm, para que eles avaliem a melhor opção. E eu espero que a melhor opção seja aquela que também esteja como melhor na avaliação popular. O PT pode tomar uma decisão que não corresponde ao que a sociedade pensa. Então nós estaremos criando um hiato em relação a esta avaliação, o povo pensa de um jeito, o PT decide de outro. E nesse momento, estou fazendo campanha, dando uma mensagem aos companheiros do PT: acho que meu nome é o mais apropriado e é o mais compatível com o pensamento da sociedade, com o que ela aponta. Se for o companheiro Sinésio não tem problema, vamos pra luta, se for comigo, será uma decisão nossa, uma decisão do Partido dos Trabalhadores” (Francisco Praciano).

O debate na realidade foi a única movimentação do partido em termos de campanha dos pré-candidatos, já que desde o ano passado, nos bastidores, a briga entre as facções favoráveis ao apoio ao prefeito Serafim, ao candidato do governo do Estado e à candidatura própria levaram o partido a uma indefinição que só terminou com a voz da militância, que forçou a barra para que a candidatura própria fosse viável.

A situação expõe o aspecto de aproximação do PT, que vem acontecendo já a alguns anos, e que no Amazonas sempre foi mais presente, com uma tendência mais preocupada com os resultados eleitorais, privilegiando práticas voltadas para a eleição em quantidade, do que a animação de discussões que levantem questões sociais para o país. O PT se aproxima cada vez mais do que o jornalista Mino Carta apelidou de “agremiação de colegas”, os partidos tradicionais, de direita e à direita da esquerda.

Agora, é aguardar o resultado das prévias do Partido, que irão ocorrer no próximo domingo, e este Bloguinho Intempestivo fará a cobertura, dando em primeira mão o resultado.

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