MAIS UM ESCORREGÃO DO ESTADÃO

O Estadão estampa na sua edição dominical, na manchete principal, o pretenso fracasso do programa Bolsa Família em fazer valer uma de suas principais condicionalidades: manter a criança beneficiada na escola. Segundo o jornal, através de informações do MDS e do Ministério da Educação, pode-se afirmar que o aumento do número de crianças fora da escola aumentou, entre 2002 e 2005, cerca de 45%. Curiosamente, o jornal aponta a melhora da performance de Lula nas eleições de 2006 nas cidades onde há um grande contingente de beneficiários.

Do texto trazido pelo jornal, com um mínimo de informações e bom senso, podem-se inferir as seguintes informações:

1) Os dados já surgem desatualizados, já que se referem ao ano de 2005, mais de dois anos atrás. Certamente, a realidade sofreu alterações de lá pra cá, mesmo que tenham sido negativas. E aí, não conta a justificativa de que os dados disponíveis são referentes a estes anos.

2) A reportagem aponta como uma das razões do aumento seja o fato de que o benefício só é pago até os 15 anos, quando, segundo o jornal “a partir desta idade, muitas vezes é mais interessante ter o filho trabalhando”.  Nenhuma linha sobre o projeto do governo federal, apresentado no fim de 2007, e imediatamente rechaçado pela direitaça (incluindo a jurídica, através do emplumado Marco Aurélio Mello), que aumenta para 17 anos a idade máxima para que as crianças estejam incluídas no benefício, e que, apesar disso, deve entrar em vigor em breve.

3) Segundo dados do IBGE, citados pela própria reportagem, apenas 5% dos jovens entre 7 e 14 anos (beneficiários do Bolsa Família no período da pesquisa) saem da escola. Entre 15 e 17 anos, quase 20%. Nenhuma palavra sobre os índices históricos de evasão escolar no Brasil, ou sobre a imensa discrepância entre os beneficiários e não-beneficiados.

O Estadão faz propaganda do Bolsa Família, acreditando estar fazendo uma crítica.

Esperar, a partir daí, uma análise da perspectiva educacional, levando em conta os aspectos de produção de subjetividades que perpassam uma educação comunitária e filosofante, ou a escola como instância disciplinar – existindo, portanto, outros aspectos mais relevantes para a evasão escolar -, ou mesmo a ineficácia das prefeituras em articular o programa federal com iniciativas locais que melhorem a qualidade da educação, fica difícil, partindo d’O Estadão, a Folha, Globo, ou qualquer outra mídia pautada não pela função social de produzir notícias que levem as pessoas à produzirem compreensões sobre o mundo a partir delas mesmas, mas pelos interesses corporativos e de mercado.

Com o objetivo de atingir a popularidade do governo Lula, principalmente através do programa Bolsa Família, que tem suas falhas, mas nem de longe é o fracasso com que sonha a direitaça, é o foco do trabalho desta mídia, que por esta razão, tem se especializado no que o jornalista Mino Carta chama de “produzir furos n’água”.

Enquanto isso, Lula só… no Alemão!

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