A Bolívia de hoje é uma Venezuela de 2002? Não é, mas tem pelo menos três pontos de semelhança. Primeiro, um governo que rompe com os partidos/grupos/oligarquias neoliberais que predominaram pós-ditaduras militares na América Latina e vai construindo democraticamente o fortalecimento do Estado, a restauração da economia, a inclusão dos pobres, etc, tendo como prioridade uma modificação constitucional. Segundo, por ter a Bolívia no seu interior uma direita truculenta, que não conseguindo desestabilizar o governo de Evo Morales somente com a ideologia, que se tornou poeira sem a verdade e a realidade fabricadas que a mantinham, como na Venezuela de 2002, vai fazendo uso da força e repressão, tentando coagir o povo a participar das atividades de ataque ao governo. Terceiro, enquanto vai se comprovando na Venezuela a participação dos Estados Unidos e do FMI no golpe de estado perpetrado fascisticamente em 2002, na Bolívia, o vice-presidente García Linera vai denunciando a embaixada americana de subsidiar a tentativa da elite boliviana de enfraquecer o governo para golpeá-lo.

Desses três pontos, apenas o primeiro — o governo democrático de Morales — potencializa uma linha, em vizinhança com outros pontos que se desterritorializam na formação de outras verdades e realidades — Chávez, Lula, Kirchner, Rafael Corrêa — para a América Latina, que vai caminhando na construção de uma autonomia popular, a melhoria dos serviços públicos e a criação de projetos sociais e políticos necessários às consolidações democráticas. Na Bolívia, a modificação do que estava constituído passa pela Assembléia Constituinte instalada por Evo Morales, que tem amplos poderes para “refundar a Bolívia”. E por isso, o alto empresariado de Sucre força para que a sede do governo seja transferida de La Paz para lá, para facilitar a intensificação de seu ataque ao governo de Evo.

A direita latina, em qualquer parte, é sempre a mesma, com sua limitação, vai tentando desestabilizar qualquer tentativa democrática, mesmo que seus ganhos não diminuam. Passa por aí um medo de perder o fantasioso controle que acreditava ter sobre a massa; e pior, o desespero de ser levada a perceber a ilusão nos seus laivos de singularidade. Seja na Venezuela do panegírico Carmona, seja no Brasil da elite cansada e apoiada pela mídia golpista, e também na Bolívia se vê que a direita é igual: irracional.

Sobre os Estados Unidos, é outro desesperado na busca por manter uma ilusão de poder. Depois de disseminar e ser o principal mantenedor das ditaduras das décadas de 60 e 70 na América Latina, viu seu sonho frustrado em 2002 na Venezuela, com o golpe contra Chávez derrubado pelo povo; torceu para Kirchner não conseguir estabilizar a Argentina; perdeu a ingerência ditatorial sobre o Brasil, que mesmo mantendo um “diálogo”, na viagem de Bush ao Brasil, Lula até o tratou com ironias; assistiu Rafael Corrêa ganhar no Equador; Chatelêt, no Chile… E na visita de Bush à América Latina, mesmo nos países que os EUA ainda mantém sobre controle, as imagens que sobressaíram foram as de protestos contra o imperialismo.

Ao que tudo indica, pela postura de Evo Morales e pela conclamação ao povo por García Linera, a tentativa de golpe na Bolívia pela direita/EUA será frustrada outra vez. Alegria de todos os latinoamericanos, que não só torcem pelo enfraquecimento do neoliberalismo e seus mecanismos, como agem para a construção das singularidades autônomas nos países de cá, e lutam pelo aumento das potências democráticas no mundo.

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